Ants From Up There
2021 • ALTERNATIVO/ROCK • NINJA TUNE
POR GERSON MONTEIRO; 19 de FEVEREIRO de 2022
9.2
MELHOR LANÇAMENTO

Ants From Up There é o tão esperado sucessor de For the first time, o álbum de estreia do grupo britânico Black Country, New Road. A banda tem causado um enorme furor no mundo indie, em virtude do seu talento inigualável e excêntrico. O grupo descreveu o segundo álbum como “triste, épico e possivelmente mais universalmente agradável… possivelmente”, explorando sons mais acessíveis, não obstante, de uma maneira ainda grandiosa, estranha e pouco convencional, como seria de esperar deles.

Black Country, New Road demonstrou desde cedo uma enorme qualidade em ilustrar os seus sentimentos através da instrumentação e produção, mas, neste projeto, as letras também ganham um lugar especial na nossa experiência sonora. Músicas como “Bread Song” externam a vulnerabilidade da banda, especialmente do vocalista principal Isaac Wood.

“So show mе the land you acquired
And slip into something beside
The holes you try to hide”

O narrador implora ao seu parceiro amoroso que mostre as suas verdadeiras cores e aceite ele em um nível mais profundo de confiança e intimidade. No entanto, sabemos que este apelo não é apenas uma oferta de ajuda. É um grito desesperado por intimidade enraizado no medo da solidão. A temática lírica de Ants From Up There consiste, assim, numa narrativa solta, que vê um personagem ansioso a navegar em um relacionamento que, desde a primeira faixa, parece estar desmoronando.

Num comunicado partilhado nas redes sociais, Isaac Wood, vocalista e guitarrista da banda, anunciou a sua saída do grupo, explicando que se tem sentido “triste e receoso”, e que esses sentimentos “tornam difícil tocar guitarra e cantar ao mesmo tempo”. Analisando o álbum, são notáveis os estágios da sua melancolia e ansiedade, quer seja pelas letras puramente dramáticas e depressivas, quer pelo timbre de Wood, que retrata uma angústia sufocante.

Apesar de consistir maioritariamente em post-rock e subgéneros deste, Ants From Up There segue uma linha de melodias mais orientada para o pop do que o seu antecessor. Consequentemente, a consonância das canções consegue ser mais cativante e acessível para o ouvinte comum. Um dos maiores exemplos é a música “Chaos Space Marine”. Com uma duração de três minutos e relativamente mais curta em comparação às restantes faixas, o grupo atinge um nível de excelência equiparado às suas músicas mais complexas e longas, incorporando sons teatrais e combinação de vários instrumentos como piano e violino, múltiplas vezes usadas no género pop. Curiosamente, a banda inglesa menciona referências da cultura pop atual em algumas faixas do álbum, tendo como exemplo Billie Eilish (“She had Billie Eilish style” em “Good Will Hunting”).


As três músicas finais do álbum são a “cereja no topo do bolo”, oferecendo um espetáculo de emoções que arremata o disco de maneira deslumbrante, como é o caso de “The Place Where He Inserted The Blade”. A canção apresenta uma performance de flauta para saxofone, uma melodia de piano cintilante, guitarras quentes e vocais de fundo encantadores. O refrão representa um dos momentos mais reflexivos e melodramáticos de todo o projeto.

“Show me the place where he inserted the blade
I’ll praise the Lord, burn my house
I get lost, I freak out
You come home and hold me tight
As if it never happened at all”

O refrão é uma metáfora sobre um vídeo de culinária. Enquanto o narrador está a ver o vídeo, acaba por estragar a receita toda, se “perdendo” em uma instrução, e em consequência, queimando alguma coisa. A música referencia também a codependência, o narrador acha que não consegue ser estável sem a sua parceira, precisando que ela chegue em casa para tranquilizá-lo e mostrar onde cortar corretamente (ou “inserir a lâmina”). O uso do pronome “He” também pode se referir ao ex-namorado do outro significativo e a qualquer tipo de trauma que ele possa ter causado à sua ex-amada.

Em conclusão, é impressionante como o detrimento da saúde mental consegue ter um papel tão importante nas experiências mais avassaladoras das nossas vidas. A banda consegue unir várias inspirações, como Arcade Fire e Bob Dylan, e criar um som e uma identidade artística própria, com lugar a reflexões que nos fazem questionar toda a complexidade da existência humana. O trabalho é tão bem composto e meticuloso, que, no meio da nossa admiração, ficamos surpreendidos ao lembrar que este é apenas o segundo álbum da banda, que já está na direção de se tornar um verdadeiro clássico de post-rock.