Homogenic
2021 • ELETRÔNICO/EXPERIMENTAL • ELEKTRA
POR LEONARDO FREDERICO; 16 de JANEIRO de 2022
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Reykjavik, a capital da Islândia, é um dos lugares mais distintos e fascinantes de todo o planeta. Sendo a maior cidade do pequeno país que tem pouco mais de 350 mil habitantes, o local surge como uma zona em potencial. Para além da população 100% alfabetizada, o município nasce como o ponto de troca cultural, no qual, como afirma Bill Martin em seu livro Avant Rock, é fácil ver a colisão de grupo de jovens ouvintes de Stockhausen com seguidores de Miles Davis. Ademais, seu passado histórico fortifica ainda mais sua existência: a localidade apresenta o parlamento mais antigo do mundo, fundado pelos Vikings, e foi decisivo em episódios pertinentes durante a Guerra Fria. Já Katherine Scherman, por sua vez, diz que: “Mesmo em um dia de neblina, as casas multicoloridas de Reykjavik brilham tão claras e reluzentes quanto as flores dos campos. Tudo parece novo. É como se a cidade, e na verdade todo o país, tivesse vindo fora do mar, limpo, lavado e totalmente formado, apenas esta manhã”. É quase como, por mágica, o lugar perdesse sua noção entre realidade e fantasia. 

No entanto, apesar de sua vasta riqueza cultural, altos níveis de investimentos na área da educação e historicidade quase mitológica, há uma outra coisa que consegue ser ainda mais atraente, encantadora e apaixonante: Björk. Nascida em 1967, filha de pais hippies e neta de avós fanáticos por música clássica e jazz, a cantora se tornou mundialmente conhecida pelo seu papel como vocalista na banda The Sugarcubes, quando o single “Birthday”, do disco Life’s Too Good, de 1988, chegou aos ouvidos dos norte-americanos e europeus e fez com eles se tornassem estrelas. Na época, o Rough Guide definiu o som da banda como um “pop estranho, spiky e vanguardista”. Mas, apesar de sua emergência como um grupo, conforme Martin, o que realmente se destacava era Björk. Segundo ele, “havia uma qualidade selvagem projetada não apenas em sua aparência ou movimentos, mas aparentemente em seu próprio ser. Björk era claramente mais do que apenas a ‘cantora’ de uma banda neo-punk”. Logo nessa época, também, a islandesa já contava com um grupo de seguidores os quais haviam a conhecido em 1977, quando ela, aos 11 anos, lançou um disco de covers traduzidos para o islandes,  de lendas de seu país natal e de algumas peças originais. 

Depois de algumas músicas boas — especialmente algumas do primeiro e último disco da banda, Stick Around for Joy, de 1992 —, o Sugarcubes acabou. Esse foi o gatilho que Björk precisava para seguir uma carreira consecutiva que fosse, acima de tudo, capaz de canalizar qualquer desejo seu. Se, por um lado, a sonoridade do Sugarcubes era bem definida, os discos da ex-vocalista que se seguiram mostravam que suas ideias iam muito além do que as guitarras e baterias eram capazes de oferecer. Isso posto, em 1993, Björk estourou com Debut, produzido por Nellee Hooper, uma surpresa para gravadora que, apesar de algumas críticas negativas — como a do Rolling Stone que chamou as canções de “truques eletrônicos baratos” —, teve que se esforçar para fabricar um número massivo de cópias para suprir a alta demanda de vendas. Esse que é tido como propriamente o disco de estreia de Bjork, deixava de lado tudo que ela havia aprendido em seus anos com a banda e optava por estilos eletrônicos e experimentais — essa seria uma característica que se manteria em cada um de seus álbuns: uma intensa desconstrução e construção de tudo que ela conhecia em prol de uma mudança violenta. 

Por conseguinte, o sucesso de Debut fez com que Björk se interessasse e se apaixonasse ainda mais por música eletrônica. Nesse período, ela havia acabado de deixar sua terra natal para seguir para Europa, onde, em Londres, emergiu no cenário alternativo eletrônico de clubes noturnos. Em paralelo, ela começou a enxergar o potencial dos remixes e formou um grupo de diversos artista alternativos para participarem de suas primeiras coleções de releituras de suas canções: The Best Mixes From the Album Debut for All the People Who Don’t Buy White Labels, de 1994, com novas edições das faixas de Debut e Telegram, de 1996. De acordo com Martin, cada remix e versão alternativa das canções dela nasciam com um “som e abordagem quase únicos”. Para a Rolling Stone, Björk afirmou que apesar das pessoas enxergarem um remix como uma reciclagem, ela via apenas como uma variação. Para sustentar seu ponto, ela apontou um compositor clássico: “É como Bach, suas sinfonias não foram completamente escritas, então toda vez que ele as tocava, elas seriam diferentes”.

Todavia, se Debut surgiu durante o primeiro contato de Bjork com sua nova vida — uma aventura animadora em um ambiente cosmopolita diversas vezes maior que sua cidade natal —, Post foi finalmente a cantora familiarizada com o seu novo lar, sentindo-se confortável o suficiente para novas apostas. Jenn Pelly lembra que a islandesa via a personagem principal de Post como “aquela garota do campo de olhos arregalados, mas ela está na cidade por um tempo… Ela está consumindo a cidade e a cidade está consumindo ela”. Foi esse disco que, provavelmente, associou Björk ao experimentalismo. “Army of Me”, por exemplo, foi uma explosão não apenas sonora, mas também um sucesso propriamente dito, entrando no Top 10 britânico. Entretanto, foi o caráter da fusão do inorgânico e digital com elementos analogicos que fez com que o álbum se tornasse uma peça atemporal não só dentro da carreira de Bjork, mas também dentro da década de 1990. 

Homogenic, o trabalho que se sucederia, porém, seria o momento em que a cantora quebraria totalmente com tudo que ela havia construído até ali. Ela caiu de cabeça em um novo estilismo, deixou seu viés lúdico, seus e instrumentais voltados para representação de sentimentos e suas ideias orgânicas de lado e se direcionou quase inteiramente para o eletrônico, com sintetizadores distorcidos, violentos e inquietantes como aposta. Por mais que Björk ainda fosse vista como caloura nesse gênero, iniciada nesta área da arte há poucos anos com total imersão, sua abordagem foi diferente de tudo que quaisquer outros artistas estavam fazendo naquela época. Para além de apenas batidas eletrônicas marcadas por compassos e segmentos computadorizados, as canções de Björk uniam seu charme sonoro com uma lírica afiada. O resultado foi um disco que além de apresentar uma estética sonora divergente do modismo do final dos anos 1990, era profundamente extravagante em sua base sentimental e subtramas.

“Hunter”, a faixa de abertura do disco, é o melhor reflexo dessa ambição de Björk. A ideia inicial da cantora para o registro era uma dinâmica nos canais estéreos: enquanto cordas sairiam apenas no canal esquerdo, sua voz viria do meio e as batidas do direito. Embora essa ideia não tenha vingado ao longo de todo o álbum, em “Hunter” isso é concretizado, de forma que, nos segundos iniciais, batidas de um chimbal ressoam de um lado, enquanto sintetizadores acompanham pelo outro. Um conceito genial que conduziu para um resultado dinâmico e vivo. Porém, a canção vai muito além disso e mostra Björk na busca de uma nova vida, quase como se ela estivesse prestes a assumir um papel de salvadora. “If travel is searching / And home what’s been found / I’m not stopping”, ela canta e complemente depois: “I’m the hunter / I’ll bring back the goods / But I don’t know when”. 

Em conjunto, outras canções também erguem-se de um sentimento visionário sonoro que procura quebrar qualquer barreira temporal. Quando pequena, Bjork teve aulas de música — piano e flauta aos seis anos — e foi apresentada a compositores clássicos. Isso, combinado ao seu envolvimento com música eletrônica, fez com que ela combinasse o melhor dos dois mundos. Claro que, essa ideia não era algo necessariamente novo, porém, ninguém havia feito tão bem quanto Bjork fez. Enquanto “Hunter” e “Jóga” estabelecem na linha entre o equilíbrio perfeito entre o orgânico e o digital, “Unravel” permanece na linha analógica, brincando com a voz suave e delicada da cantora, enquanto cordas deslizam lentamente ao fundo. Por outro lado, “All Neon Like” e “5 Years” são peças eletrônicas referentes à perfeição: enquanto a primeira é capaz de canalizar elementos visuais em camadas puramente sonoras, a segunda parece o arquétipo do que um remix deveria ser. 

No entanto, Homogenic foi muito mais do que o resultado cinético do crescente interesse de Björk pela música electrónica, mas também uma oportunidade da cantora criar um retrato fidedigno de sua alma com precisão e calibre. Após se assentar em Londres, Bjork voltou algumas vezes para sua terra natal, tanto para passar suas férias ou os feriados de final de ano. Durante essas visitas quase ocasionais — que também haviam sido provocadas pelo inferno cosmopolita que Bjork ainda estava processando em sua mente —, a própria natureza do país aflorou como uma inspiração em potencial para composição e sonorização de canções. Em uma entrevista para o Oor, a islandesa disse: “Na Islândia, tudo gira em torno da natureza, 24 horas por dia. Terremotos, tempestades de neve, chuva, gelo, erupções vulcânicas, gêiseres… Muito elementar e incontrolável. Mas, por outro lado, a Islândia é incrivelmente moderna; tudo é de alta tecnologia. O número de pessoas que possuem um computador é tão alto quanto em nenhum outro lugar do mundo. Essa contradição também está no Homogenic. As batidas eletrônicas são o ritmo, o batimento cardíaco. Os violinos criam uma atmosfera vintage”. 

Um caso em particular que é interessante mencionar, que conduziu Björk olhasse com um outro lado para sua nova vida, foi o episódio com um fã obcecado que tentou matá-la. Depois de assumir o relacionamento com o britânico Goldie, Ricardo Lopez, admirador de 21 anos da cantora, se tornou inconformado e furioso com a relação de ambos e, inclusive, reproduziu comentários racistas direcionados contra o músico. Em seguida, Lopez decidiu assassinar a cantora e enviou uma bomba de ácido sulfúrico para a casa dela em Londres, a qual, felizmente, foi interceptada pela polícia. Logo depois, Ricardo atirou em si mesmo enquanto “I Remember You”, da cantora, tocava ao fundo. Esse acontecimento fez com que Björk entrasse em questionamentos sobre sua segurança, de seus amigos e família, além de ponderar sobre a divisão entre sua vida artística e pessoal e os limites de ambos. 

Tanto o ambiente da Islândia, quanto a desordem da vida nesses últimos meses, são o que sustentam “Jóga”, uma das melhores canções da carreira da artista. Com o nome de uma amiga da cantora, a faixa realiza uma reflexão na persona de Björk. “Emotional landscapes / They puzzle me”, ela canta em um momento, fazendo alusão a persuasão da natureza e poder da ilha, enquanto seus instrumentos refletem as dinâmicas naturais da Islândia.  No refrão, contudo, ela constrói sua máxima: uma necessidade de se responsabilizar pelo enfrentamento de situações complicadas. Ela assume: “This state of emergency / How beautiful to be / State of emergency / Is where I want to be”. Da mesma forma, mais tarde, em “Immature”, sua autoanálise é mais cirúrgica, e até dolorosa: “How could I be so immature / To think he could replace / The missing elements in me?”, ela canta ternamente. Sendo assim, Homogenic age como um espelho para a complexidade e multidimensionalidade do interior de Björk.

Por outro lado, visualmente, Homogenic também é uma peça imponente e faustosa. Logo de cara, a arte que ilustra a capa do disco surge como a mais interessante da carreira da cantora — principalmente a versão remasterizada. Criada por Alexander McQueen, a renderização mostra a islandesa como nunca vista antes ou depois: encoberta por um manto azul acinzentado com flores platinadas bordadas, ela nos olha com seus olhos escuros e profundos. Enquanto seus cabelos são duas pranchas redondas, suas unhas se estendem para além do limite de seus dedos e sua boca se destaca em tons avermelhados em contraste com sua pele pálida. Seu pescoço é inspirado na cultura local de povos da África e Ásia e usa de argolas para alongar sua altura. Quando contatou McQueen, Björk pediu que ele criasse uma guerreira, mas não qualquer uma, mas sim aquela que “lutava não com armas, mas com amor”. Ou, como ressalta Philip Sherburne: “antiga e futurista, elegante e severa, parte rainha guerreira e parte ciborgue”. Paralelamente, os clipes que deram ainda mais vida às canções são tão interessantes quanto, seja o amor robótico de “All Is Full of Love”, ou a Terra que se abre em “Jóga”. 

Tomando como referência uma narrativa fílmica, podemos ver as três últimas faixas de Homogenic como o clímax e conclusão de um trecho da vida da islandesa. Enquanto “Alarm Call” é um grito feroz de Björk após ela atingir aquele lugar que ela tanto desejava na primeira faixa do registro, “Pluto” surge como o momento mais catártico, com instrumentais explodindo desordenadamente. Essa faixa é vista, por alguns, como a reprodução da inquietude de Björk: logo após chegar no momento tão ansiado, ela quer explodir com tudo. “Excuse me / But I just have to / Explode”, ela canta. Em seguida, a última peça do disco, “All Is Full of Love” chega com sintéticos mais angelicais e voz de Bjork em sua tonalidade mais etérea. Essa é uma faixa simples, direta ao ponto, um desejo sublime de simplicidade. De acordo com a cantora, “é a última faixa de Homogenic depois de ‘Pluto’, que significa morte. ‘All Is Full Of Love’ é como os pássaros saindo depois da tempestade.” Desse modo, em suma, vê-se Homogenic como um registro sobre acordar para a vida e aproveitá-la da melhor forma possível, por mais que essa faça você questionar sua própria existência e propósito. 

No entanto, “Bachelorette” é a melhor faixa de Homogenic e, em potencial, da carreira de Björk. Segundo ela, essa é a peça final da trilogia da garota nascida na floresta, começada em “Human Behaviour”, de Debut, e continuada em “Isobel”, de Post. Com cordas de violinos e violoncelos grandiosos, a canção recria aquilo apresentado em “Isobel”, porém, de uma forma mais potente e sombria. Analogamente, a composição é tão firme quanto o som. Por linhas curtas e rápidas, a cantora traça metáforas de imagético surreal. “I’m a fountain of blood / In the shape of a girl / You’re the bird on the brim / Hypnotised by the whirl / Drink me, make me feel real”, ela canta no início. De acordo com a cantora, essa faixa mostra Isobel finalmente indo para a cidade para confrontar, com amor, aqueles que ela ama. De uma forma direta, é o retrato inegável e mais realista de Björk na época da produção do registro. 

Em 1988, quase uma década antes de Björk lançar Homogenic, ela deu uma entrevista sobre aparelhos televisivos e tecnologia. No começo, ela afirma estar passando muito tempo na frente da televisão porque era Natal e ela estava de férias. Ela contempla o aparelho, o desmonta e comenta com fascínio imaginário: “Isto parece uma cidade, como uma pequena maquete de cidade. As casas, que estão aqui, e as ruas. Este é talvez um elevador para subir lá. E aqui estão todos os fios. Esses fios, eles realmente cuidam de todos os elétrons quando eles passam por eles”. Em seguida, ela afirma que uma vez ela havia ficado com muito medo de televisores porque um poeta islandês havia dito que as televisões hipnotizavam e destroem o cérebro humano: “Então você fica hipnotizado. Então, tudo isso está na TV, vai diretamente para o seu cérebro e você para de julgar se está certo ou não”. Mas, quando ela leu a verdade sobre a invenção em um livro dinamarquês, ela ficou tranquila. Nos segundos finais do vídeo, ela olha para câmera e diz: “Você não deve deixar os poetas mentirem para você”. Dez anos depois, Björk se tornaria uma poetisa nata e sui generis, em Homogenic, contudo, ela não mentiria em nenhum momento para você.