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Fossora

2022 •

One Little Independent

8.2
Fossora é uma ode à ancestralidade e cultura da cantora. Dando um forte aceno para sua própria vida pessoal e carreira, Björk também anseia por um futuro promissor.
Bjork - Fossora

Fossora

2022 •

One Little Independent

8.2
Fossora é uma ode à ancestralidade e cultura da cantora. Dando um forte aceno para sua própria vida pessoal e carreira, Björk também anseia por um futuro promissor.
03/10/2022

Por toda sua carreira, Björk teve uma ligação extremamente forte e especial com a ancestralidade. Seu primeiro disco, intitulado apenas Björk, foi lançado ainda nos anos 1970, quando a cantora tinha apenas 12 anos, e consistia de uma coleção de covers de canções famosas da época traduzidas para a língua islandesa, bem como peças originais escritas por Sævar Árnason e que operavam na ordem de homenagear a cultura local. Décadas mais tarde, nos anos 1990, esse cenário familiar ainda seria responsável por coordenar o processo de criação de sua arte. “Na Islândia, tudo gira em torno da natureza, 24 horas por dia. Terremotos, tempestades de neve, chuva, gelo, erupções vulcânicas, gêiseres… Muito elementar e incontrolável”, Bjork disse em uma entrevista pouco tempo antes do lançamento de Homogenic. Em outras palavras, era como se Bjork fosse apaixonada pelo fato da existência e por sua historicidade.

Fossora é o décimo álbum de inéditas de Björk e é uma das provas mais fortes dessa paixão. O registro é lançado cinco anos depois de seu último trabalho, Utopia — o que também acaba por ser seu maior hiato entre lançamentos —, e é nomeado com base na palavra em latim fossore, que, em tradução livre, significa “cavador”. Para Fossora, contudo, a cantora criou uma variação da palavra, uma versão feminina, que, para ela, resulta “naquela que cava”, transmitindo o sentimento do desejo de Björk em olhar para seu passado e reviver e homenagear suas raízes. Nesse sentido, se antes ela olhava para o mundo ao seu redor, varrendo sua história em um aspecto macro, em Fossora era olha para seu próprio núcleo. Com o auxílio de seus filhos, Ísadóra e Sindri, ela canta sobre família, luto, amor, mas, acima de tudo, sobre achar esperança no final de tudo.

Leia nossa review sobre Homogenic (1997), o terceiro disco de Björk, e entenda o porquê dele ser um dos álbuns mais essenciais na história da música

Cada novo álbum de Björk se apoia sobre colunas específicas, que raramente servem como elementos limitadores, mas sim bases de sustentação para seu florescimento. Para Fossora, a artista separou sua herança como tópico primário em essência. “Ancestress” é a melhor canção do registro. Em conjunto de seu filho, a islandesa lida com os costumes deixados por sua mãe, ao mesmo tempo que honra e relembra suas memórias. “When I was a girl, she sang for me / In falsetto lullabies with sincerity / I thank her for her integrity / My ancestress’ clock is ticking / Her once vibrant rebellion is fading”, ambos cantam, enquanto violinos, violoncelos, tantãs e xilofones sedimentam o caminho. No final do disco, “Her Mother’s House”, dessa vez com sua filha, ambas, sob a simplicidade de sintetizadores, cantam sobre o amadurecimento: “The more I love you (The more you love me) / The stronger you become (The stronger I become)”. Todavia, o ponto final é o terceiro verso, no qual um sentimento tão honesto e fortificado é posto em olhar: “When a mother’s house / Has a room for each child / It’s only describing / The interior of her heart”.

Por outro lado, seria uma certa incoerência de Björk em olhar para seu passado individualmente, logo depois de pedir uma maior associação humanitária. Dessa forma, linhas se perdem sobre as histórias que são suas e as histórias que são minhas, mas isso monta-se numa energia maior. “Fagurt Er í Fjörðum”, por exemplo, é um poema escrito no século XVIII escrito por Björg Einarsdóttir sobre a Islândia. “Sorrowful Soil”, por sua vez, mescla vidas humanas com a vida do planeta Terra: no começo, imagens de se permitir afundar no solo do seu passado são metafóricas, passando para um conto de uma mulher que, com ajuda de um coral masculino, parece organicamente milenar: 

In a woman’s lifetime
She gets four hundred eggs
But only two or three nests
Woven with a mother’s life force (Woven with a mother’s life force)
Emotional textile (Woven with a mother’s life force, woven with a mother’s life force)
Self-sacrificial (Woven with a mother’s life force)
This is emotional textile
Self-sacrificial, self-sacrificial

Sócio de suas breves olhadas para o passado, o experimentalismo é o real motivo dela ter edificado um papel forte dentro da cultura pop, principalmente nos últimos anos. Depois de Homogenic (1997), a cantora entrou numa fila de apostas cada vez mais ousadas. Enquanto Medúlla (2004) foi um projeto que se sustentou apenas por vozes, numa tentativa de se conectar com a essência humana, Biophilia (2011) se aprofundou na natureza, ao passo que Utopia parecia querer quebrar com as barreiras do planeta. Fossora, por sua vez, tem seus momentos que cumprem essa necessidade. “Mycelia”, no caso, relembra os remixes que foram responsáveis por apaixonar a cantora por música eletrônica underground no final dos anos 1990. Na faixa, o processo de crescimento de cogumelos é traduzido aos sons, transcrevendo a narrativa da cantora de estabelecer uma conexão humana.

Entretanto, além da ancestralidade, a conexão humana e a esperança são os verdadeiros motores de Fossora. O disco foi produzido após a morte da mãe da cantora, bem como teve parte de seu processo afetado pela pandemia de COVID-19, fatores que fizeram Björk realmente se questionar sobre sua vida, suas ligações externas e história. “Atopos” é a encenação direta desse sentimento, com ela buscando formas de atingir uma conexão maior e encontrar esperança no final de cada túnel. Um contraste surge no instrumental da faixa, quando os sons raramente entram em sintonia, tanto entre si, quanto com os vocais. Quase encerrando a obra, “Fossora”, torna ainda mais visual os desejos de enfiar suas raízes no solo e criar relações verdadeiramente significativas. 

Mas, da mesma forma que somos honestos sobre as qualidades inegáveis que cada novo álbum de Björk carrega, seremos também sobre o fato de que já fazem anos desde que ela lançou um disco perfeito — sem defeitos. Seus registros dos anos 1990 são canônicos, moldes a serem seguidos por qualquer artista iniciante. O que mudou daquela época para seus novos trabalhos é sua quantidade: enquanto Post (1996) e Homogenic conseguiam dizer tudo que tinham para falar em dez ou onze faixas, seus novos álbuns se estendem mais do que deviam. No caso de Fossora, há diversos momentos que parecem fillers ou sentimentos precoces. “Trölla-Gabba”, por exemplo, mescla vocais de Medúlla com sintetizadores de Volta, de 2007, mas é totalmente descartável. No mesmo sentido, embora “Fagurt Er í Fjörðum” reforce a ancestralidade temática do álbum e “Mycelia” traga uma certa ambição, ambos soam genuinamente desnecessários no resultado. 

Quando eu penso sobre Björk, acima de tudo, eu penso sobre seu status dentro da cultura pop atual. Não é difícil ver pessoas, pela internet, chamando-a de “louca que bate colheres em panelas”. O mesmo foi atribuído para cantoras como Fiona Apple, Kate Bush e Arca. Esse ódio gratuito é sempre reservado para aquelas que fazem mais do que é pedido, é emitido por aqueles que não entendem aquilo além do necessário. Mas o que move essas artistas é justamente sua paixão em criar uma arte que seja altamente livre, catártica e associativa, colocando sua questionável beleza em última preocupação. Björk, assim como as outras, irá te ajudar a encontrar um caminho melhor — ainda que esse tenha suas pedras, como em Fossora —, mas ela sempre estará lá para você no final de cada novo ciclo. 

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