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"atopos"

2022 •

One Little Independent

Em sua nova ecdise, a islandesa Björk lança suas hifas ao solo na busca de um semelhante para formar conexões.
Björk - atopos

"atopos"

2022 •

One Little Independent

Em sua nova ecdise, a islandesa Björk lança suas hifas ao solo na busca de um semelhante para formar conexões.
07/09/2022

O micélio se caracteriza pela união de um emaranhado de hifas, as “raízes” de um fungo, com o solo. Esse grande organismo formado por um novelo de fios alvos é tão dinâmico e, de certa forma, inteligente, que permite a comunicação entre cogumelos a milhares de quilômetros de distância. Bem verdade, o micélio e qualquer outro ser vivo são quase incapazes de se reproduzir no permafrost, porção de terra permanentemente congelada. Nesse sentido, “atopos” evidencia que Björk possui total consciência de que o seu ambiente pode ser hostil à reprodução de um amor, o que gera, na cantora, dúvidas acerca dos reais sentimentos de seu parceiro. A islandesa, que já abordou o tema da natureza diversas vezes em sua trajetória — canções em Volta (2007) e mesmo todo o Biophilia (2011) —, retorna com uma intrigante peça sobre insegurança, baseada no livro do francês Roland Barthes, A Lover’s Discourse. Em sua nova ecdise, Björk lança suas hifas ao solo na busca de um semelhante para formar conexões.

Reinventando a si mesma, Guðmundsdóttir é aluna esforçada que entrega os projetos mais criativos — um destaque para o excêntrico Medúlla (2004) e visionário Homogenic (1997). Na nova “atopos”, é possível identificar, decerto, referências a seus álbuns anteriores. A progressão da percussão é similar a “Declare Independence”, de Volta; já a produção vocal remonta a seus trabalhos em parceria com a venezuelana Arca. Apesar disso, a canção é suficientemente original, na medida em que retrata o sentimento daqueles “que fizeram clubes em suas salas de estar” durante a pandemia. O isolamento requer extravasamento, seja emocional, seja balançando sua cabeça freneticamente com as batidas estanque de um set de DJ. 

Fossora é o décimo álbum de estúdio da cantora de “Army of Me” e vem após o seu maior hiato, chegando a quase 5 anos desde o seu último registro. Definido por ela como seu “álbum cogumelo”, há muito o que se especular sobre o significado disso. A agitação presente em “atopos” talvez seja uma de suas escolhas menos usuais para abrir um disco, que, na maioria das vezes, inicia-se com gravações doces, ou tristes, ou emocionantes de outra maneira. O dito “techno biológico” parece ser tão excitante quanto Medúlla, tão sentimental quanto Vulnicura e tão especial quanto Björk já é naturalmente. Os esporos que Fossora há de dispersar crescerão e criarão conexões profundas no ano de 2022.

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