Happier Than Ever
2021 • ALTERNATIVO/POP • INTERSCOPE/DARKROOM
POR LEONARDO FREDERICO; 5 de AGOSTO de 2021
7.8

Existem dois ditados populares que podem resumir a vida de Billie Eilish durante a passagem de sua estreia para o seu segundo disco. O primeiro deles é um provérbio português que implica que “quanto mais alto, maior é a queda”. Já o segundo se tornou conhecido graças a revista de histórias em quadrinhos do Homem Aranha, quando Ben, tio do personagem principal, diz para seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Esses dois pensamentos podem se relacionar com Eilish pela grande e rápida escala ao estrelato que a cantora de 19 anos experienciou logo cedo. No meio de holofotes, dinheiro e fama, os horrores de uma vida que muitos de nós não temos ideia de como é chegaram (chegar) de supetão no cotidiano dela, que com três anos de carreira já ganhava as maiores honrarias na premiação do Grammy, os prêmios de álbum, canção e gravação do ano.

Mas, como esses dois ditos, quando você chega ao topo do mundo, ao último degrau da escada, qualquer passo em vão pode fazer você rolar ladeira abaixo. E durante o último um ano e meio, Eilish parece ter vindo pisando em ovos, porém, sua caminhada não é tão precisa assim. Só nos dois últimos meses, Billie foi acusada de racismo por um vídeo antigo e de Queerbaiting em novo clipe musical, sofreu pelos comentários antigos de um suposto namorado e, ainda, usou roupas de uma marca que havia sido, anteriormente, responsabilizada por apropriação cultural. Billie, mais do que qualquer um, sabe que os aplausos e o amor do público podem virar vaias e xingamentos no menor deslize que você der.

Relembre que, no Grammy de 2020, poucos segundos antes de vencer o maior prêmio da noite, Eilish, que já havia ganhado vários outros, sussurrava, quase em oração: “por favor, que não seja eu”. Por um segundo, o medo de atingir um patamar ainda mais alto e de forma tão rápida era maior que de não estar nos holofotes. Todavia, o segundo álbum de Billie, Happier Than Ever, é, de certa forma, essa desaceleração que ela precisava. O disco fez menos streamings do que o seu antecessor na estreia, e os dias anteriores a sua chegada eram mornos ou pendiam para ventos negativos. Mas, muito mais do que uma breve parada e alguns passos para trás na escada, o disco é uma forma de Eilish se permitir experimentar novas coisas, abrir-se mais e amadurecer tanto como artista, quanto como pessoa.

A abertura de Happier Than Ever já prova que o disco é muito mais do que apenas a continuação de uma estreia brilhante, elaborada para surfar em uma correnteza positiva. “Getting Older” mostra a cantora narrando um amadurecimento consciente e igualmente digno. Ela começa: “I’m gettin’ older, I think I’m agin’ well”. Depois, o sentimento de orgulho por sua jornada se transforma em uma mistura de entendimento, saudade e nostalgia. “Things I once enjoyed / Just keep me employed now / Things I’m longing for / Someday, I’ll be bored of”, ela canta no refrão. Mais do que ninguém, ela entende que as pessoas mudam conforme a idade e que as mudanças, boas ou ruins, são algo mais do que necessário. Melhor do que ninguém, contudo, ela sabe usar isso ao seu favor.

Todavia, por mais que a abertura tenha uma dose igual de honestidade e beleza, as próximas faixas parecem relativamente perdidas sobre qual direção seguir. Talvez sejam o fruto daquele momento entre a passagem da adolescência e vida adulta em que seu presente parece confuso, seu eu do passado, alguém totalmente desconhecido, e seu futuro incerto. Porém, não vale impor conceitos aonde não há. “I Didn’t Change My Number” parece trabalhar com uma sonoridade facilmente remanescente de Mac Miller, principalmente no último disco póstumo dele. “Billie Bossa Nova”, por sua vez, soa como uma homenagem barata e superficial para o gênero clássico da música brasileira dos anos 1950. Para ser sincero, parece que Billie tentou provar que ela é muito mais do que uma cantora que cria músicas de sucesso e que ela possui capacidade de trabalhar sob outros moldes culturais. Como resultado, Eilish e seu irmão Finneas parecem ter captado apenas aquilo que as pessoas pensam ser Bossa Nova.

Mais tarde no álbum, Eilish, entretanto, prova que ela não erra apenas nas tentativas de homenagens. De certa forma, caso você queira ver dessa maneira, errar e assumir seus erros é uma forma de amadurecimento. “GOLDWING”, por exemplo, apesar de uma produção boa e uma letra que carrega uma premissa pertinente, tem como produto final uma canção chata e enjoativa. Enquanto isso “Lost Cause”, com seus versos com rimas pobres, que muitas vezes carecem de fluidez, soa apenas uma tentativa desesperada de criar a próxima “bad guy”, o grande sucesso de When We All Fall Asleep, Where Do We Go?. Em seguida, “Halley’s Comet” é um bom experimento de Eilish de se opor aos sintéticos de seu último trabalho, mas não é o melhor resultado, visto que, no final, a faixa soa relativamente genérica — é bonita, mas não é nada diferente do restante. Por fim, “Not My Responsibility” soa muito maior do que é, com a sonoridade grandiosa, mas com uma letra que parece, durante grande parte, uma legenda de autoajuda (“Do you know me? / Really know me? / You have opinions about my opinions”), e “OverHeated”, a faixa mais inacabada do disco, parece apenas uma extensão desnecessária da anterior. E “Male Fantasy”, por último, nem deveria estar aqui.

Porém, enquanto essas últimas são relativamente fracas ou apenas decentes, as próximas compensam, sendo algumas delas as melhores da carreira de Eilish. “Everybody Dies” e “Therefore I Am” soam como boas lembranças vindas direto do When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, com a segundo soando como um hit orgânico. Enquanto isso, “NDA” tem uma das melhores progressões do disco, começando com batidas sóbrias e opacas estruturadas por sintetizadores ocasionais que levam Billie para um estado transcendental eletrônico. Seguindo a mesma tendência, mais cedo no disco, “​my future” aparece como uma resposta para as pessoas que querem que Billie seja congelada no tempo. “’Cause I, I’m in love / With my future / Can’t wait to meet her”, ela canta. A faixa título, por sua vez, apresenta Eilish em duas fases, a primeira em plena paz, ao lado de cordas praianas, a segunda, em um estado de violência, com guitarras distorcidas e estouradas. O único problema com essa música, talvez, seja os solos de guitarra, que poderiam ter soado ainda maiores e grandiosos caso a produção de Finneas não tivesse pendido para o lado das distorções.

No entanto, as duas melhores canções do disco são “Oxytocin” e “Your Power”. A primeira é o ponto mais alto do álbum sonoramente falando. É o momento aonde Finneas mostrou que suas habilidades são ousadas e podem adquirir qualquer forma. Billie, na ponte, enquanto os sintetizadores de batidas graves e grossas parecem se aliviar, liberando uma energia catártica no ar, canta: “I wanna do bad things to you / I wanna make you yell”. Por outro lado, a segunda atinge a perfeição em composição, com uma letra debatendo um relacionamento abusivo que Eilish se envolveu há um tempo. Ela começa: “She said you were a hero / You played the part / But you ruined her in a year.” Conclui depois: “How dare you? / And how could you? / Will you only feel bad when they find out?”. Os monstros papões do último álbum dela não são nada perto do medo real dessa faixa.

Por fim, por mais que Happier Than Ever seja melhor que o anterior, ele nem sempre é mais surpreendente. O álbum não tem aquele impacto que When We All Fall Asleep, Where Do We Go? teve. Grande parte disso, talvez seja, a própria Billie e o atual estado em sua vida. Ela está crescendo, ainda entendendo como as coisas funcionam, e sua falta de direção e noção é natural, mas também o ponto mais fraco. Em algumas faixas, ela parece totalmente independente daquilo que ela construiu anteriormente. Em outras, ela parece ainda estar apegada, não intencionalmente, ao que fez ela ser quem ela é. Eilish está numa linha tênue entre o que ela será e o que ela foi. Assim como na escada, seu pé escorrega para fora dessa linha e algumas músicas parecem indecisas e fora de sintonia com o todo. Ela é uma estranha para ela do futuro e a do passado, mas, no final das contas, essa é a beleza de tudo.