Dragon New Warm Mountain I Believe in You
2022 • ALTERNATIVO/ROCK • 4AD
POR LEONARDO FREDERICO; 17 de FEVEREIRO de 2022
9.2
MELHOR LANÇAMENTO

Os discos do Big Thief coexistem singularmente como se fossem universos unidos apenas por essência: cada álbum da banda do Brooklyn soa estranho para o outro, mas são conectados por um tecido de substância familiar nas entrelinhas. Para além disso, no interior de cada registro, há um pequeno conjunto de histórias que se conectam entre si, criando uma rede folclórica apoiada em um som que, embora varie a cada lançamento, ressoa nas mesmas frequências habituais de uma banda de folk-rock alternativo. O guitarrista Buck Meek, o baterista James Krivchenia e o baixista Max Oleartchik formam o grupo, em conjunto com Adrianne Lenker nos vocais e composição. Cada membro, apesar de suas carreiras solo, se encaixa quase que perfeitamente nessa equipe, fazendo do Big Thief um organismo complexo e multidimensional, sobre o real e o sobrenatural. 

Os últimos anos da banda vêm sendo uma subida infinita. Para cada lançamento, o Big Thief atinge novos patamares de qualidade. Em 2016, quando estrearam, alguns críticos achavam presunçoso uma banda iniciante chamar seu disco de estreia de obra-prima (Masterpiece, no inglês). Decerto, foi um exagero chamar seu primeiro trabalho de obra-prima, não pelo fato de uma visão soberba de si mesmo, mas sim pelo fato de acreditar que pelo resto de sua carreira você não faria algo que superaria seu primeiro registro, sua obra-prima. No entanto, no caso do Big Thief, nenhum desses caminhos se concretizou: eles não eram soberbos, e muito menos aquele seria seu melhor trabalho. Nos anos que se seguiram, a banda foi apresentando trabalhos cada vez maiores e melhores: Capacity, de 2017, foi uma análise cruel e intimista do passado familiar dos membros, enquanto U.F.O.F., de 2019, voltou seus olhares para o extraordinário, criando uma relação entre o exterior da humanidade e do indivíduo. Por fim, Two Hands, também de 2019, foi visto como o disco “Irmão-Terra” de U.F.O.F., tocado em uma sessão acústica. Mas, independente das diferenças, em cada um desses, eles deram o seu melhor. 

Dragon New Warm Mountain I Believe in You, o quinto e melhor álbum da banda, é uma fusão perfeita de tudo que eles fizeram até aqui. É um registro que junta as melhores facetas dos outros discos, mas expande suas barreiras em todos os sentidos. Ao passo que as composições continuam afiadas, mas agora apresentem uma ordenação mais cativante, a sonoridade surge como um apanhado de todas as canções da carreira deles: temos os sintetizadores oníricos e misteriosos de U.F.O.F., as cordas soltas e intimistas de Two Hands, e, embora tudo soe distinto, Dragon conecta com seus familiares, acenando para o calor e a humanidade dos dois primeiros discos da banda. Como resultado, Dragon emerge como um disco complexo, multidimensional e etéreo: é sobre passado e futuro, real e irreal, cético e mágico, campo e cidade, digital e analógico. É um dos testemunhos mais fortes da existência humana em todos os quesitos. 

Com total certeza, Dragon é o projeto mais experimental da banda. Diferente de U.F.O.F., que se apoiou unicamente sobre sintetizadores para criar atmosfera de conexão e comunicação entre humanos e alienígenas, Dragon quebra com as margens e parte de uma máxima que prega uma liberdade musical. Se U.F.O.F. tentou — e conseguiu — ser o maior vínculo entre a humanidade e o espaço, Dragon volta seus esforços para ser a maior coisa na Terra. Em “Time Escaping”, a canção mais experimental e ousada do grupo, o mundo gira em eixos caóticos: desde batidas nas madeiras de violões para comentários soltos de Lenker, a faixa revela-se um momento bagunçado, mas perfeitamente calculado. Em contraste, “Blurred View” deixa de lados os orgânicos e aposta no digital. É fácil lembrar da discografia do Radiohead nesse instante, principalmente de Ok Computer, de 1997 e Kid A, de 2000, devido principalmente à atmosfera claustrofóbica, composta por batidas sombrias e crescendos sintéticos. Nessa, a Terra se torna o lugar mais sombrio do universo. 

De outra parte, Dragon também conta com instantes de perfeição de gênero, ou seja, há faixas que trabalham em torno dos moldes clássicos, mas, ainda assim, soam como únicas por atingirem os padrões com maestria, principalmente do country. “Certainty” é calma, elegante e majestosa; enquanto “Red Moon”, com vocais de Mat Davidson, utiliza cortes de violinos e toques soltos de cordas. Na composição, uma visão ainda mais própria aparece: “Earn, earn, shuffle ’round the big city / Burning the rubber down, crossing the hot concrete / I’m gonna leave town, there is someone to meet”, expondo o desejo de deixar a cidade, uma selva de concreto. Por fim, um dos ápices é “Spud Infinity”, perfeição country que conta com banjos e arranhões em uma guitarra pedal steel, à medida que Lenker canta com sotaque, dialetos e gírias dos clássicos da música — Loretta Lynn e Neil Young. Essencialmente, ainda que essa faixa soe como algo que todos nós, pelo menos uma vez, já ouvimos, ao mesmo tempo, é tão calibrada que nenhuma outra canção soou dessa forma. 

Se em todos esses momentos, Big Thief estava, sem esforço, criando um conjunto praticamente divergente do que eles apresentaram em seus outros álbuns, que, em grande parte, eram voltados para uma fusão do folk com o rock e alternativo; em outros, eles olham com carinho para o passado. O single “Little Things”, uma das melhores canções do ano passado, pinta uma perspectiva honesta sobre relacionamento (“I see you in the yard drinking a beer / Leaving me undressed / Like some cheap classic movie / Maybe I’m a little obsessed”). Logo mais tarde, essa relação se quebra quando violência e amor perdem suas fronteiras em “Flower of Blood” (“Roll up the sheets, suddenly frozen / Like a knife carving through my thick skin / When you touch me”). Em conjunto a isso, da mesma forma que a canção de abertura, com produção tátil e texturizada, traça uma ideia de aceitar mudanças (“Death’s like a door / To a place we’ve never been before”), “Simulation Swarm”, mais tarde, realiza uma análise detalhada do passado de Lenker, desde uma internação hospitalar, até seu irmão desaparecido. No começo desse texto, mencionei como todos os projetos do Big Thief são unidos por essência, e essa é a essência: a capacidade de captar cada segundo de uma vida e, ainda que de forma simples, tratar esse como algo que nunca deve ser esquecido. 

“Dragon New Warm Mountain I Believe in You” é a melhor canção do disco. Inexplicavelmente emocional, a faixa é o ponto alto justamente por ser o instante onde todas as melhores faces da banda e de suas obras se encontram. Enquanto sintetizadores se opõem sobre as cordas sutis, gerando uma atmosfera mágica, a composição delicada se perde em cenários oníricos de uma criança, lembrando o ambiente familiar dos primeiros álbuns. “There’s a dragon in thе phone line / Coughing up a mighty flame / With a tonguе of silver, silver / Calling out my oldest name / She says, ‘Hey, you / Do you remember me too?’”, Lenker canta. Além de, talvez, fazer você derramar lágrimas, essa canção revela uma mudança sutil. No passado, as canções do grupo eram sobre pessoas, várias delas carregando nomes. Em Dragon, no entanto, o folclore se volta para o natural e místico, uma ligação, ainda que fraca, com o trabalho de Joanna Newsom. Em “Sparrow”, por exemplo, narrativas abstratas de pássaros se mesclam com imagens bíblicas, semelhanças com as histórias de Ys, de 2006. 

Alguns podem argumentar que Dragon é excessivo. São 20 músicas que se estendem por 80 minutos. Mas muito diferente daqueles outros álbuns que são inflados por canções, como os de Drake e Kanye West no ano passado, em Dragon tudo parece proposital. Nenhuma dessas faixas parece ser excesso, mas sim todas contribuem em um sentido maior, buscando sempre capturar algo mais profundo, amplo e honesto. Em “The Only Place”, Lenker canta: “When all material scatters / And ashes amplify / The only place that matters / Is by your side”. Para qualquer que seja sua jornada, Dragon estará lá para você.