2022

Columbia / Parkwood

RENAISSANCE

O sétimo disco de Beyoncé é uma celebração da cultura musical negra. Embora esse seja seu registro mais divertido, é também um dos que mais carecem de sua presença.

8.0
EM 03/08/2022

Quando o Renascimento bateu com força na Europa do século XV e XVI, ele trouxe consigo diversas mudanças efervescentes. Nos séculos anteriores, a sociedade europeia, sob o domínio da Igreja Católica, tinha seus olhos voltados para a religiosidade, proibida de olhar para si mesmo, muitas vezes, com carinho. O Renascimento, por outro lado, levou o homem para o centro novamente, inspirando-se fortemente na adoração dos corpos do período clássico. Nesse cenário, o Renascimento se ligava com o ressurgimento de um novo ser humano como um elemento em potencial presente, bem como estabelecia uma volta nostálgica para com as artes da antiguidade, idolatrando suas estéticas Nessa lógica, o Renascimento foi uma olhada nostálgica ao passado, resgatando certos elementos que, naquele momento, pareciam ser pertinentes, ressaltados e honrados. 

Seguindo nessa linha de pensamento, RENAISSANCE, sétimo álbum de estúdio solo de Beyoncé, é, em sua substância mais crua e óbvia, um renascimento. “Com todo o isolamento e injustiça do ano passado, acho que estamos todos prontos para escapar, viajar, amar e rir novamente. Eu sinto um renascimento emergindo”, a cantora disse. Entretanto, apesar desse contexto da pandemia, o que RENAISSANCE realmente mostra florescer é uma retomada para os gêneros do passado. Em outras palavras, RENAISSANCE é um sonho acordado durante o isolamento social de voltar para as pistas de dança. Diferente se todos os seus outros registros, não há baladas ou canções de término, apenas uma carga de energia que parece emanar da exaltação cultural dos gêneros-base que compuseram o passado histórico musical da comunidade negra nos Estados Unidos. É definitivamente o seu disco mais divertido e empoderado, ainda que, para isso, ela tenha que ter sacrificado um pouco da sua presença e intimidade. 

Desde Beyoncé, de 2013, Knowles tem se voltado gradativamente mais para as raízes que influenciaram sua originalidade e participado de suas lutas. Ainda que Beyoncé e Lemonade, de 2016, tenham tido uma forte presença das temáticas de feminismo e exaltação da cultura negra, foi apenas em Black is King, filme musical de 2020, que essas ações se tornaram uma celebração, com RENAISSANCE surgindo como um manifesto de homenagem ao passado da cultura negra. Enquanto suas outras obras atuavam majoritariamente dentro do pop, esse novo disco atua em gêneros que, no passado, foram uma forma de escape para a população negra que fugia da opressão: disco, funk, house, R&B e, mais atual, rap. “CHURCH GIRL”, uma das melhores do registro, para além de soar como algo que Kanye West faria, é uma dosagem perfeita entre os gêneros de R&B e rap, ao passo que “COZY”, com sua forte presença do deep-house, atua em torno do empoderamento que há muito tempo já está enraizado em Beyoncé. “VIRGO’S GROOVE”, por sua vez, é um arquétipo disco e funk, ainda que seja um pouco mais longa do que deveria. 

Ademais, essa celebração da cultura negra não se mantém apenas em seu estilo e gênero, mas se expande em um movimento de dar voz e comemorar os sucessos daqueles que conseguiram, primeiramente, se destacar quando toda sociedade remava contra, e, posteriormente, se mantiveram. De acordo com ela: “RENAISSANCE seria a primeira parte de uma trilogia que teria como objetivo celebrar a música e a cultura negra por meio de muitas reviravoltas em sucessos do passado”. Nisso, ela traz um time pesado em colaborações, como: a lendária Grace Jones, Tems, partindo para produção de Tricky Stewart, The-Dream e Big Freedia. Beyoncé também trabalha com uma lista extensa de samples: “Still Pimpin”, de Tommy Wright, em “I’M THAT GIRL”; “Moonraker”, de Foremost Poets, em “ALIEN SUPERSTAR”; “Show Me Love”, de Robin S., em “BREAK MY SOUL”; “Center of Thy Will”, de The Clark Sisters”, em “CHURCH GIRL”; “America Has a Problem (Cocaine)”, de Kilo Ali, em “AMERICAN HAS A PROBLEM”; e “Cunty”, de Kevin Aviance, em “PURE/HONEY”. Nesse quesito, Beyoncé fez essa homenagem da melhor forma possível, não apenas honrando o passado, mas trazendo ele de volta à vida. 

Outro aspecto que se destaca é como ela também faz uma ação que dê visibilidade para seu próprio passado. Na abertura, por exemplo, os sintetizadores são remanescentes dos primeiros experimentos vistos em Beyoncé, seguindo para vocais que tenho quase certeza que também aparecem em “Pray You Catch Me”. “ALIEN SUPERSTAR” é a melhor canção aqui, com uma abordagem vocal mais sensual, que, em conjunto com a arquetípica “CUFF IT”, com sua composição sedutora e uma mescla de claps, cordas de baixo e trompete, criam uma atmosfera que conversa com álbuns como Dangerously in Love, de 2003, e B’Day, de 2006. No final do disco, as duas faixas que encerram, “PURE/HONEY” e “SUMMER RENAISSANCE”, também soam como músicas que eu poderia chamar de “clássicas Beyoncé”: elas carregam uma energia muito familiar, mas não significa que se limitam a apenas isso.

Todavia, não é toda hora que esses tributos se concretizam em sua melhor forma. Há uma forte diferença entre algo ser datado e algo ser nostálgico. Segundo Svetlana Boym, nostalgia é uma saudade idealizada por momentos vividos e sustentada por um desejo de regresso. É justamente em cima disso que Beyoncé se apoia durante RENAISSANCE: seu som carrega um volta de volta para as pistas de danças e bares noturnos, mas sempre trabalhando com cuidado para criar algo que desperte saudade, porém seja também novo. Em outros momentos, porém, ela perde isso de mão. Canções como “PLASTIC OFF THE SOFA” e “HEATED” soam dolorosamente datadas: enquanto a primeira conta com um charme vindo do neo-soul, mas sofre com cordas que parecem sair de um rádio de carro de 2003, a segunda parece algo conduzido por Drake — e na realidade conta um refrão escrito para ele —, o que isso deixou de ser algo positivo há muito tempo, com seus sintetizadores corriqueiros em qualquer música de rap de 2015. No final, ambas são mais exemplos do porquê certos elementos caíram no esquecimento.  

Mas se tem uma coisa que “HEATED” sai na frente é o número de discussões que podem ser propostas em torno dessa faixa. Primeiro, se destaca a polêmica do uso de uma palavra usada para difamar e desmerecer pessoas com deficiência que dificulta o controle, principalmente, de pernas e mãos (“Spazzin’ on that ass, spaz on that ass”). Felizmente, Beyoncé, em uma atualização, irá remover essa palavra. Mas o que realmente fica em debate é especialmente o porquê da cantora ter mantido esse termo mesmo sabendo de viés pejorativo. Ou ainda, durante os seis anos de criação e produção do registro, ela não ter se questionado nenhuma vez se aquela linha específica era problemática ou ofensiva. Isso só me causa a sensação de que Beyoncé não esteve em todo o processo do disco, pelo menos não da forma que ela deveria estar. 

Seguindo nos pontos baixos, há outras canções, particularmente na segunda metade do álbum, que causam um sentimento que elas mereciam um polimento maior, seja na sua sonoridade, seja em sua composição, querendo, assim, evitar uma falha comunicativa. “THIQUE”, apesar de relativamente cativante no refrão, soa usual e monótona demais, bem como não surpreenderia se levantasse debates a cerca de uma certa objetificação de mulheres presente nas entrelinhas. “AMERICA HAS A PROBLEM”, por sua vez, tem seu esqueleto conversando diretamente com seu sample, mas considerando ser um título tão forte como esse e tudo que a artista já apresentou, principalmente em peças como “Formation”, só fico pensando: os Estados Unidos realmente só tem UM problema?

Toda vez que Beyoncé lança um novo projeto, ou decido revisitar seus trabalhos mais antigos, eu caio em uma armadilha: sempre olho para eles pensando que não são tão bons quanto Beyoncé. Olhando para seus discos da década de 2010, embora grande parte deles carreguem um caráter atemporal com suas músicas de sucesso — “Single Ladies”, “Halo e “Crazy In Love” —, eles não parecem ser tão desafiadores quanto seu registro de 2013. Todavia, enquanto Lemonade, de 2016, pareça calculado demais, muitas vezes parecendo um trabalho de uma equipe e não algo propriamente pessoal, sua trilha sonora para O rei leão, de 2019, soa fortemente esquecível. Com RENAISSANCE isso repete-se, com ela focando todos seus esforços em ser saudosista e, em certos momentos, esquecendo de se colocar de forma mais presente e aparente. Porém, o que seu autointitulado realmente prova é que Beyoncé dá o seu melhor quando ela está sendo ela mesma.

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