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COWBOY CARTER

2024 •

Columbia / Parkwood

9.0
Beyoncé desafia todas as regras da música country em COWBOY CARTER
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COWBOY CARTER

2024 •

Columbia / Parkwood

9.0
Beyoncé desafia todas as regras da música country em COWBOY CARTER
01/04/2024

A mais recente experiência musical de Beyoncé, COWBOY CARTER, é o segundo ato de uma grandiosa trilogia artística iniciada pelo aclamado RENAISSANCE (2022). Este ambicioso projeto não apenas destaca a versatilidade de Beyoncé, mas também ressalta seu compromisso em amplificar as vozes e os gêneros originados na comunidade negra. Enquanto o primeiro álbum explorava os domínios do disco, sua nova obra adentra o coração da música country, mas recusa ser confinado por seus estereótipos. Como a própria Beyoncé declarou via Instagram: “Este não é um álbum country. Este é um álbum “Beyoncé”.”

A antecipação para esta nova era começou com teasers estratégicos, incluindo um comercial da Verizon e um eletrizante anúncio durante o Super Bowl LVIII. Nestes momentos, Beyoncé insinuou a profundidade temática do álbum, dirigindo por um deserto reminiscente de suas raízes no Texas. A revelação dos singles principais, “TEXAS HOLD ‘EM” e “16 CARRIAGES”, acompanhados por visuais cativantes, aumentou ainda mais a expectativa em torno do projeto. 

Os singles foram escolhidos com precisão para introduzir este álbum, especialmente considerando o sucesso notável de “TEXAS HOLD ‘EM” nos EUA, quebrando fronteiras e proporcionando outro hit para Beyoncé. Além do sucesso comercial, a música é notavelmente bem produzida, e mostra  Beyoncé explorando uma vertente country mais mainstream, mas que mantém a singularidade de suas melodias.”16 CARRIAGES”, por sua vez, oferece um dos aspectos mais líricos do álbum, revelando facetas profundas da vida de Beyoncé. A canção é uma balada épica que explora as emoções e experiências decorrentes do desenraizamento repentino causado pela perda da inocência em uma idade precoce. Ao seguir  a estrutura de um hino country clássico, a música aborda temas de perda, fé, resiliência e adversidade, proporcionando uma experiência emocionalmente envolvente aos ouvintes.

O disco vê Beyoncé abraçando uma infinidade de personas em diferentes períodos de tempo e gêneros musicais. Ancoradas pelo conceito de reivindicação, cada faixa do álbum ressoa com o espírito da rádio KNTRY, oferecendo narrativas ocidentais reimaginadas que atravessam motivos de caubóis cantores, influências de Blaxploitation, estéticas de western spaghetti e reinos fantasiosos. Através deste caleidoscópio de sons e personagens, Beyoncé entrelaça anedotas pessoais, celebra a história negra e desafia narrativas sociais, instigando os ouvintes a reconsiderarem tanto a história americana quanto suas percepções da icônica artista. À medida que COWBOY CARTER se desenrola, torna-se cada vez mais evidente que a visão artística de Beyoncé transcende a mera diversão, convidando o público para uma jornada instigante de autodescoberta e exploração cultural. Apesar de sua extensão considerável (1 hora e 18 minutos, para sermos precisos), as diversas interludes e experimentações musicais oferecidas por Beyoncé garantem que o álbum se mantenha uma experiência coesa e moderna.

Há tantas músicas neste álbum que poderíamos facilmente dedicar uma revisão individual a cada uma delas. Começando com “DAUGHTER”, que apresenta uma das amostras vocais mais exigentes e surpreendentes de Beyoncé, testemunhamos sua versatilidade partir  desde vocais de ópera até o canto em italiano, tudo em meio a uma produção misteriosa, enquanto ela proclama conseguir ser “mais fria do que as águas do Titanic”. “YAYA”, por sua vez, é uma declaração politicamente mais direta, com Beyoncé assumindo o papel titular e abordando a necessidade de “manter a fé” diante das duras realidades da vida na América, destacando-se como a mais excêntrica e divertida do álbum sem perder seu impacto político. A abertura, “AMERIICAN REQUIEM”, é simplesmente magnífica, possivelmente a melhor de toda a discografia da cantora — com uma progressão fantástica e experimentações vocais quase surreais, esta faixa parece transcender a própria humanidade. Também não poderíamos deixar de mencionar a surpreendente fusão de três músicas em uma só em “SWEET ★ HONEY ★ BUCKIIN'”, que demonstra a habilidade de Beyoncé em criar momentos verdadeiramente memoráveis. 

O álbum apresenta colaborações de músicos populares como Post Malone, Shaboozey e Miley Cyrus. Destaca-se a música “II MOST WANTED”, com a participação da dona do hit “Flowers”, um dueto que firma-se como  um dos pontos altos na coleção de parcerias de Beyoncé, com um contraste de vozes poderoso e harmonias emocionantes. Além disso, o projeto conta com a colaboração de Dolly Parton, que introduz o cover de “Jolene” por meio de uma interlude própria, intitulada “DOLLY P”. Nesta versão alternativa, Beyoncé dá um toque único à famosa música country, expressando uma mensagem de autoconfiança e advertindo a outra mulher sobre a força do vínculo entre ela e seu homem.

Outra colaboração notável é encontrada na faixa “BLACKBIIRD”, um cover de Paul McCartney, membro dos Beatles e autor da música original. McCartney uma vez afirmou que a letra da música era uma mensagem de encorajamento às mulheres negras nos Estados Unidos, expressando esperança e fé em meio às dificuldades. Isso reforça a ideia de que Beyoncé criou este álbum para promover uma liberdade mais ampla para as pessoas negras, especialmente as mulheres, dentro da indústria country. Além disso, a música conta com a participação de diversas artistas country em ascensão, incluindo Tanner Adell, Brittney Spencer, Tiera Kennedy e Reyna Roberts, o que amplia ainda mais sua mensagem inclusiva e seu impacto cultural.

COWBOY CARTER não apenas solidifica a posição de Beyoncé como uma das artistas mais influentes de sua geração, mas também demonstra sua capacidade de transcender fronteiras musicais e sociais. Com uma fusão magistral de gêneros e narrativas, o álbum convida os ouvintes a uma jornada envolvente de autodescoberta e reflexão cultural. Por meio de colaborações marcantes e produções inovadoras, Beyoncé reafirma seu compromisso com a amplificação das vozes negras e a redefinição dos limites da música contemporânea, deixando um impacto duradouro na indústria musical.

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