Once Twice Melody
2022 • ALTERNATIVO/POP • SUB POP
POR LEONARDO FREDERICO; 25 de FEVEREIRO DE 2022
7.6

Os sonhos, apesar de intrínsecos do homem, possuem um caráter relativamente abstrato. Durante muitos séculos, foi uma atividade intensa entender nosso imaginário enquanto dormimos. Diversas abordagens explicativas surgiram, ao mesmo passo que significados, lógicos ou mitológicos, foram atribuídos. Para Freud, os sonhos são uma forma da psique de realizar desejos, enquanto para Carl Jung, são as manifestações psíquicas irracionais que recordam fatos ocorridos. As artes, por sua vez, como forma de expressão, tentaram concretizar essas ideias oníricas, como o movimento expressionista, que, no cinema, edificou obras que seriam “essencialmente sonhos”. Na música, nos anos 1980, nasce um gênero chamado dream pop, no qual atmosferas e vocais ecoantes dominaram as estéticas, o qual se torna a principal e mais forte experiência sonhadora.

Entre os diversos artistas e grupos que atuaram dentro desse gênero, Beach House foi um dos mais prolíficos. Formados em 2004, estreando em 2006 com seu disco autointitulado, a dupla formada por Victoria Legrand e Alex Scally se tornou especial notadamente quando o terceiro disco deles, Teen Dream, de 2010, foi lançado. Esse registro não só soou como um respiro fresco e potente no cenário musical, fugindo da mesmice e resgatando as influências de Fleetwood Mac, mas também emergiu como uma potência estilística. Essas características, por sua vez, atingiram ainda mais forte em Bloom, de 2012, quando finalmente a dupla adotou por completo os moldes do dream pop: se os vocais de Legrand antes soavam naturais e humanos, a partir dali passariam a ecoar em um plano maior. Mas, acima de tudo, foi a honestidade e a facilidade de ambos atingirem o sublime que consolidaram a dupla.

Once Twice Melody surge uma década depois do ápice artístico e qualitativo do Beach House. É o oitavo álbum de estúdio deles, e muito aconteceu entre lá e cá. Entre altos e baixos, houve um aumento considerável no coletivo de seus seguidores e muitas experimentações. Once Twice Melody, por sua vez, é um resumo, um reflexo, uma apanhado do melhor — e do pior — desses últimos dez anos. É um álbum que reproduz os momentos mais grandiosos da banda, mas também seus maiores erros. Uma obra que olha com carinho para o passado, em um sentimento saudosista, contudo, da mesma forma, com anseio por algo novo. Com quase 20 músicas e uma hora e meia de duração, Once Twice Melody é a fusão homogênea do Beach House como um todo. 

Uma das melhores partes das obras do Beach House só podem ser observadas no microscópio: não é a forma que a voz de Victoria ecoa em uma grande ambiente ou como as cordas de Alex são luxuosas, mas sim as melodias detalhistas. O poder dessas canções é como tudo flui delicadamente. Nesse quesito, as cordas no segmento final da faixa-título e de “ESP”, música a qual também conta como solos hipnotizantes de guitarra, são ótimos exemplos da perspicácia da banda. Da mesma forma, “Over and Over” estrutura-se sobre baterias mais texturizada, e “Masquerade”, sobre sintetizadores mais dinâmicos — diferente de “Pink Funeral”, na qual a voz de Legrand não se alinhou com o restante. Na lírica, as metáforas dominam. Em “Superstar”, uma relação entre um término e uma estrela cadente surge: “I see it now in this photograph / Something good / Never meant to last / I don’t wanna know how the story ends”, ela canta. 

No passado, logo depois do Beach House ter lançado suas obras-primas, eles caíram em momentos difíceis quando Depression Cherry, de 2015, foi lançado. Embora esse disco em específico ainda seja bom e tenha dado continuidade ao melhor de Bloom, tudo nele soou menos potente. Em outras palavras, era como se eles tivessem recortado os pontos fortes de Bloom e os houvessem simplesmente reproduzido, sem se preocupar com os propósitos disso. Em Once Twice Melody isso se repete. Canções como “Through Me”, “New Romance” e “Only You Know” são os melhores exemplos de fillers: além de não adicionarem nada para o álbum por soarem como algo que você já ouviu, são mais longas do que deviam e raramente parecem progredir. Isso não significa que essas faixas sejam ruins, mas sim que elas se prejudicaram pela própria configuração do disco: caso Once Twice Melody fosse menor, ou essas fossem guardadas para um outro projeto, elas não soariam tão cansativas, repetitivas e saturadas. 

Esse certo comodismo é combatido essencialmente pela ambição, a qual foi vista, principalmente, no começo da carreira deles, no início da última década e no seu sétimo disco, 7, de 2018. Enquanto “Runaway” e “Finale” fogem do padrão de batidas sintéticas — ao mesmo passo que primeira opta por vozes robóticas e batidas em loop, e a segunda por tendências oitentistas —; “Sunset” e “The Bells” contrastam na essência: deixam de lado o foco no eletrônico e priorizam as cordas, que resultam em uma atmosfera romântica, elegante e sedutora. Talvez, o único problema seja justamente o fato de que para um álbum tão massivo e longo, alguns pontos esporádicos de experimentação, como esses, sejam pouco. No caso, um erro fatal.