QVVJFA?
2022 • MPB/RAP/HIP-HOP • 999
POR BRINATTI; 01 de FEVEREIRO DE 2022
7.9

Desde o lançamento do seu primeiro álbum intitulado ESÚ, Baco Exu do Blues vem mostrando em seus projetos uma lírica absurda. É perceptível a facilidade do artista em adaptar referências em suas músicas de acordo com tudo o que está a sua volta, tanto que em todos os seus trabalhos, a sua identidade sonora é algo marcante, que vem transpassando entre ritmos, como o hip-hop, rap, o blues e a música clássica, esses que se destacam desde “999”, um dos primeiros singles de sua carreira. Além disso, é importante ressaltar a forma que Baco, desde jovem, teve a influência da literatura, técnica essa que marca suas letras através de sátiras descritas com um viés indireto onde ele discorre o que pode vir a ser considerado espantoso, escancarando todo seu sentimento para o ouvinte.

Após dois anos do seu último disco Não Tem Bacanal Na Quarentena, projeto lançado no início da pandemia da COVID-19, que veio a ser considerado um dos trabalhos mais simplórios já realizados pelo artista, na época causou uma certa estranheza, principalmente devido à construção dos seus últimos discos. Tanto a sonoridade, quanto as melodias e a produção não se destacaram, acarretando numa dicotomia ou uma bipartição entre antes e depois de sua inigualável era de Bluesman, esse considerado um dos melhores projetos já realizados.

O anúncio QVVJFA? e a afirmação de um projeto sucessor de Bluesman, de certa forma, causou uma agitação, já que esperavam que fosse uma continuidade das impecáveis discografias que Baco lançou durante sua carreira. Nesse sentido, o álbum vem a ser uma combinação perfeita de ritmos e rimas, no qual é nítido que as denúncias sociais não estão detalhadas de uma forma expositiva, sendo que o mesmo fala do social a partir do subjetivo. Questões como a negritude partem da vivência não apenas gráfica, mas subjetiva, ou seja, algo que aparenta ser visto de forma melancólica não é triste de maneira abstrata, mas tem essa perspectiva porque é real. O álbum que discorre sobre doze faixas inicia-se com a reflexão em relação ao amor através do ponto de vista do homem preto, onde logo na introdução de “Sinto Tanta Raiva…” já é permitido compreender o que Baco está querendo que o ouvinte entenda.

Baco reflete a sociedade e seus problemas estruturais sem partir dela, mas sim, partindo dele mesmo. Diante de todos os elementos que compõe seu disco, nota-se o encontro dele com o seu “eu”, o artista abre o diálogo e expõe suas dores em “Mulheres Grandes” e “Autoestima” discursando sobre corpos que, através do olhar do outro, não são merecedores de afeto, além de serem analisados por um viés hiper sexualizado e estereotipado.

Diante de um groove marcante, na faixa “Mulheres Grandes”, descreve como ele não consegue se entender enquanto merecedor de tal amor, pois para ele falta autoestima necessária para isso. Em “Autoestima”, Baco discorre o sobre o agora, onde mesmo depois de tudo que vivenciou, as pessoas querem fingir que essas questões que ele trata nunca aconteceram. O problema que o afeta em “Grandes Mulheres”, toma uma dualidade, o artista deixa claro que nunca foi capaz de ser amado, pois nunca se permitiram amá-lo. O seu corpo nunca foi visto como algo belo, sendo que o gosto sempre foi o mesmo e agora que ele mudou, querem dar esse afeto que ele nunca pode receber.

As misturas de elementos se destacam junto das colaborações e referências presentes dentro do álbum. Na faixa “Samba in Paris”, junto de Gloria Groove, Baco traz efeitos que remetem a um ritmo propulsivo, interativo e repetitivo. A voz de ambos os artistas se encaixa de maneira facilitada e leve, compactuando para algo prazeroso de ser escutado. Muse Maya, que desde o último ano vem se destacando e sendo uma proposta para o mundo musical, tem o seu destaque na faixa “Eu Sei Partir”, onde, através de sua leveza e sensibilidade, constrói algo verdadeiramente intimista.

Referências como Gal Costa, Vinicius de Moraes e Os Originais do Samba também estão presentes no QVVJFA?, na faixa “Lágrimas”, o sample de “Lágrimas Negras”, da autoria de Gal Costa presente em seu álbum “Cantar” de 1974, constrói uma narrativa que funciona de modo bem sucedida. Em “Imortais e Fatais 2” que apresenta uma continuação da faixa de “ESÚ” de uma forma ainda mais visceral, conta com a introdução da música “Tempo de Amor (Samba do Veloso)”, de Vinicius de Moraes, e se entrelaça com versos marcantes que falam sobre carinho, afeto, crença ou a falta disso, além de ser uma música que se refere a todos que viveram sozinhos e quando foram amados não sabiam o que fazer. Por fim, na música “Inimigos” é impossível não reconhecer a menção ao grupo Os Originais do Samba e um de seus maiores sucessos: “Tenha Fé, Pois Amanhã um Lindo Dia Vai Nascer”, presente em “Exportação” de 1971.

QVVJFA? funciona mediante a uma narrativa perspicaz, adotando um diálogo que adentra o espaço criativo do artista. O disco que transita do R&B ao hip-hop e do rap ao blues, mantém um lirismo romântico carregado de “love songs”, fazendo com que Baco encontre o equilíbrio novamente, tanto em sua produção, quanto na sua criatividade, transformando esses aspectos considerados fundamentais em algo satisfatório.