Love Sux
2022 • ROCK/POP • DTA/ELEKTRA
POR LEONARDO FREDERICO; 09 DE MARÇO DE 2022
4.0

Há quase 20 anos, a cantora canadense Avril Lavigne lançava seu primeiro disco, Let Go. Na época, o mundo, principalmente para os jovens, era um lugar diferente. Enquanto calças de cintura baixa e blusas apertadas eram a escolha das meninas, os rapazes optaram pelas calças largas, ao passo que os bonés se popularizaram. Nessa categorização, não existia ideais de gêneros difundidas nos meios habituais e grande parte dos adolescentes pareciam apenas preocupados em formar bandas de rock de garagem. Os computadores de mesa eram a principal fonte de comunicação dentro e fora das bolhas, e estava no berço de ser usado como uma forma de consumo de música, que, naquele período, orbitava o rock em fusão com o punk e pop. Foi um mundo, por mais estereotipado que seja, distante. Duas décadas depois, entretanto, essa cultura parece despertar com a retomada dos estilos musicais. Seguindo essa tendência, em seu último registro, Lavigne volta a suas raízes. 

Love Sux, o sétimo disco da compositora, é o primeiro trabalho dela desde Head Above Water, de 2019, um álbum que, apesar de todo potencial, foi um grande fracasso. Em 2015, Lavigne revelou para a revista People que passou os últimos tempos de sua vida lutando contra a doença de Lyme. Segundo ela, durante os shows da turnê de seu trabalho intitulado, de 2013, ela sentiu cansaço, o que seguiu-se para o diagnóstico da doença. Head Above Water, por sua vez, era para ser, supostamente, o momento mais catártico da carreira de Avril, com ela examinando o momento mais baixo de sua vida. Todavia, o resultado foi um conjunto de canções que raramente tocavam no lado da condição de saúde da artista e focaram no término com Chad Kroeger. Do mesmo modo, se Head Above Water foi uma varredura rasa e simples em um passado assustador, Love Sux é um olhar ainda mais entediante em um passado que, definitivamente, deveria ser deixado para trás.

Isto posto, Love Sux é a tentativa de Lavigne de quebrar com o processo evolutivo pop de seus dois últimos álbuns e voltar para as suas raízes. Essa não é, propriamente, a primeira vez que ela faz isso. Em Avril Lavigne, de 2013, a cantora tentou manter o sentimento saudosista de quando ela tinha seus 18 anos, porém, o desfecho foi um disco que recusou a amadurecer, embora tenha mostrando que Avril conseguia funcionar nos eixos de outros gêneros musicais para além daqueles que ela vinha trabalhando por mais de uma década. Em Love Sux, por outro lado, Lavigne focou totalmente seus esforços em tentar recriar os sentimentos da juventude punk-rock do começo dos anos 2000, mais precisamente uma clonagem de seus dois primeiros álbuns: Let Go e Under My Skin, de 2004. Como resultado, é um registro inapropriadamente acriançado e desassazonado. 

Uma das principais razões para isso surge, unicamente, do fato de Avril parecer nunca aceitar que atingiu seus 30 e poucos anos. Embora o problema não seja olhar para o passado e recriar aquilo que fez você ser quem você é, a maneira pela qual Lavigne concretiza isso procede em tons errôneos. Olhe para “Love It When You Hate Me”, por exemplo. No refrão, ela canta: “Don’t call me ‘baby’ / I love it when you hate me / I know it’s crazy / I love it when you hate me”. Para uma jovem de 18 anos, isso pode soar como uma crise romântica, mas para uma mulher de quase 40, puxa tons de uma Síndrome de Estocolmo. Ou ainda, na faixa título, que apesar de ser uma das melhores do disco, ela ainda se pinta na cama de seu quarto, como uma jovem. A disfunção não é o que é cantado, mas sim a perspetiva. 

Ademais, Love Sux conta com uma das piores faixas da carreira de Avril. “Bois Lie”, com Machine Gun Kelly, além de genérica e sem graça, tem o pior refrão de todo o disco: “Boys lie, I can too / Revenge is my sweet tooth / Girls cry and so will you / ‘Cause boys lie, boys lie”. Em seguida, “Love It When You Hate Me”, conseguiu ficar ainda pior em formato de colaboração, com ​blackbear estragando a canção da mesma forma que fez com “Forgetting All About You”, de Phoebe Ryan. Por fim, “Kiss Me Like The World Is Ending” constrói uma narrativa brega e vergonhosa que tenta ser um melodrama, mas que segue padrões dos sentimentos de uma menina de 12 anos. 

Felizmente, há canções que conseguem salvar o pacote final. Enquanto “Avalanche” se destaca pelos detalhes e qualidade da produção, essencialmente na profundidade e espaçamentos de notas e puxões de cordas, “All I Wanted” performa relativamente bem perto das outras colaborações do registro. Todavia, no final, Love Sux é um disco no qual se vê mais oportunidades que poderiam ser feitas do que foram tomadas. Desde “Déjà vu”, que teria se tornado mais agradável com uma progressão de uma balada para um estouro punk-rock, até as narrativas de Avril, que poderiam ser afiadas se condizentes: o que mudou para as mulheres nesses últimos 20 anos? Você foi esquecida? Você ainda é relevante? Se sente inútil para os parâmetros atuais? Essas são boas perguntas, mas que, infelizmente, nunca serão respondidas caso ela siga esse caminho.