The Gods We Can Touch
2022 • POP/ALTERNATIVO • DECCA/GLASSNOTE
POR LEONARDO FREDERICO; 28 de JANEIRO DE 2022
6.8

Indo além das barreiras da humanidade, há um universo mitológico onde nove mundos, dispostos em uma árvore cósmica chamada Yggdrasil, são governados por deuses poderosos, que visam proteger os humanos de feiticeiros e monstros. Esse universo é chamado cultura nórdica, um conjunto de contos e lendas que formavam a religião dos povos escandinavos, os quais habitaram a região onde hoje fica a Noruega, Dinamarca, Suécia e outros. Essa erudição complexa, rica e multidimensional se tornou parte da cultura pop globalizada contemporânea, tornando-se, através de jogos e filmes, ainda mais atemporal e imortal; além de ser a principal inspiração para o trabalho de Aurora Aksnes. No entanto, por mais frutífera que seja essa fonte, Aurora nunca consegue entregar um trabalho que tire total proveito disso, e seu último lançamento, The Gods We Can Touch, é apenas a confirmação disso. 

Por mais que The Gods We Can Touch, o quarto disco da cantora norueguesa, seja seu registro mais pessoal e confessional, ele ainda falha em entregar uma substância concreta. Reproduzindo o que ela vem realizando desde sua estreia em 2016, com All My Demons Greeting Me as a Friend, Aurora continua a tentar desenvolver conceitos, mas falha principalmente em sua edificação, essencialmente pela falta de direção e foco. No caso do seu último álbum, ela prega um universo dinâmico medieval, com canções que trabalham em torno de suas origens: o povo nórdico. Ou seja, sua música, com auxílio principalmente de cordas cruas, visam pintar um cenário místico de mais de mil anos, onde há lutas e guerras, mas também magia e mistério. No entanto, por mais que ela consiga apresentar isso em alguma parte de seu novo trabalho, em outras, ela surge com elementos totalmente divergentes. No final, tudo parece ideias soltas e efêmeras. 

De um lado, há as faixas que não só apresentam esse orbe surreal, mas também o fortalecem. São peças, em grande parte, hipnotizantes, fascinantes e imersivas. Uma atmosfera totalmente fantástica e uma composição dolorosamente pessoal é pintada em “Everything Matters” e em “Heathens”, nas quais, na primeira, ela cria uma alusão entre o modelo planetário e átomos, e, na segunda, usa a imagem de Eva, sua importância e seu papel submisso. Partilhando de uma natureza igual aos tempos antigos, a crença na religião é mantida, mas a curiosidade humana é essencial para sua própria sobrevivência. Da mesma forma, “Exhale Inhale” surge com vocais fádicos, enquanto “This Could Be a Dream” parece sair direto de Vespertine, de Björk, mas se encaixa perfeitamente com o restante dessas canções. No entanto, a melhor é “Exist For Love”, onde a cantora atinge um nível de quase perfeição em composição, sonoplastia e, ironicamente, doçura e aconchego. 

No entanto, do outro lado, Aurora elabora canções que não fazem sentido algum com o restante. Essas são músicas que tem seus vértices e eixos voltados para composições e sonoridade pop contemporâneas, criando relação de divergências com aquelas citadas acima. Sintetizadores emergem de repente em “Giving In to the Love” e “You Keep Me Crawling”, logo após os brilhos das cordas simplistas de “Everything Matters”. Claro, são ótimas canções, mas que não conseguem estabelecer uma conversa condizente com outras peças. Em uma analogia, é quase como se Aurora tivesse decidido mudar totalmente o caminho de sua criação. Seguindo os murmúrios sobrenaturais atemporais de “Exhale Inhale”, “A Temporary High” ressoa como um descarte do Future Nostalgia, de Dua Lipa. Como resultado, The Gods We Can Touch soa como três ótimos EPs batidos no liquidificador. 

Infelizmente, ainda, há canções que são terríveis, tanto do lado saudosista, quanto em seus movimentos pós-modernos. “Cure For Me”, por exemplo, é uma canção eletrônica horrível, tanto em estrutura, quanto em sonoridade — como se Clean Bandit fizesse uma canção para Aurora. Por outro lado, “A Dangerous Thing” até conversa relativamente com seu olhar para o passado, mas, frequentemente, parece algo genérico feito por uma banda alternativa. Em outras palavras, The Gods We Can Touch é o conjunto de várias ideias ótimas, mas que nem sempre conversam entre si e, quase sempre, parecem seguir segmentos diferentes.