SOUNDX

As demos que mudaram a vida de Katy Perry – e podem fazer isso mais uma vez

Como Katy Perry se distanciou de seu passado mais rock, rebelde e poético para se tornar uma artista pop mainstream numa receita pronta para um sucesso nem sempre duradouro.
POR Vinícius Servano
agosto 25, 2022

Em 2007, uma produtora executiva norte-americana levou um conjunto de demos até a Capitol Records após acreditar num sonho adolescente. Foi ali que Angelica Cob-Baehler descobriu Katy Perry, que, mesmo conseguindo assinar um contrato com a gravadora naquele mesmo ano, não utilizou muitas canções de seu passado e começou, praticamente do zero, o seu primeiro álbum.

Katy Perry ficou rapidamente famosa por suas músicas radiofônicas e sua capacidade incrível de cativar o público com elementos visuais. De fato, a artista californiana conquistou seu legado desde seu álbum de estreia One Of The Boys, lançado em junho de 2008 e, sem dúvidas, atingiu seus auges de sucesso com Teenage Dream e PRISM, de 2010 e 2013, respectivamente. Utilizando táticas fonográficas para criar músicas chiclete e obras primas do bubblegum pop, Katy Perry é dona de diversos hits que dominaram as rádios do mundo todo. Seu segredo está além da temática central de suas músicas — que trata da autoestima e de sentimentos mais genuínos como felicidade, orgulho e prazer —, mas também na estrutura base de suas canções, com pré-refrões marcantes seguidos por refrões viciantes e ápices de instrumentais entre as pontes de seus singles. Apesar da fórmula de sucesso ter funcionado durante três discos, ela deixou de cativar tanto o público a partir do lançamento de seu quarto álbum de estúdio, o tão controverso Witness, de 2017. Mesmo sem os sucessos que conseguia anteriormente, Katy Perry continuou seguindo seu instinto de diva pop dos anos 2010 e não fez muitas alterações em sua obra seguinte, o Smile de 2020, que, apesar de ter seguir a fórmula padrão de suas produções em prol de músicas pop bem elaboradas,como em  “Never Really Over” e “Tucked”, não teve um bom resultado com o público.

Katy Perry (2004) durante as gravações do disco em conjunto com The Matrix. Reprodução: katyperrygalerry.osugary.com

Para entendermos o que houve com a artista, que hoje vive seus melhores momentos na vida pessoal, junto a seu marido Orlando Bloom e a sua pequena e adorável filha, Daisy Dove Bloom, é necessário refletir sobre toda a carreira de Katy. Inclusive, pensar sobre o que houve antes da Angelica Cob-Baehler levar, até a Capitol Records, demos de músicas compostas por ela, a ainda desconhecida pop star. Antes de qualquer coisa, é necessário entender que há uma desconexão entre o que Katy Perry canta e o que Katy Perry escuta. Já no início de sua carreira, ela deixou declarada sua inspiração na banda Queen e em Alanis Morissette. Ao ouvir as músicas que ela gravou antes de seu estrondoso hit “I Kissed a Girl”, encontramos alguém mais underground, simples e emocionante.

Engana-se quem acha que One Of The Boys foi o seu primeiro disco, pois ela já tinha três gravados antes de ser descoberta por Madonna, com sua polêmica canção “Ur So Gay”. Ela já havia gravado o LP gospel Katy Hudson, lançado em 2001. (A), descartado com composições solo e um álbum em conjunto com a banda The Matrix, que, apesar de ser um projeto anterior à sua ascensão global, foi disponibilizado com atraso e sem muita divulgação, em 2009, com exclusividade para o iTunes. Ao revisitar essas obras, temos uma Katy Perry nua e crua, descascada totalmente. É como se ouvíssemos ela e apenas ela. É o que ela quer falar, o sentimento que quer transmitir, a sonoridade pela qual se apaixonou no momento mais conturbado da vida de um ser humano — a adolescência.

The Matrix & Katy Perry – The Matrix (2009)

Não podemos negar a biografia por trás da discografia de Katy. Criada por pais pastores evangélicos, Perry já fez diversas declarações que passaram batidas por serem apenas “engraçadas” e “desajeitadas”. “Eu orava para Jesus não me deixar ser gay” ou “eu pedia para Deus mudar o meu corpo” isso mostra uma realidade que somente alguém também criado sobre o lar religioso entenderia. O medo da rejeição familiar ou os medos implantados erroneamente pela religião estavam presentes na cantora durante toda sua juventude, inclusive conseguimos vê-la assustada no seu disco gospel, no qual a própria artista já mencionou ter lançado para orgulhar seus pais. 

Então quem é a Katy Perry presente no primeiro disco, que infelizmente não foi lançado? Quem é a Katy Perry presente no álbum conjunto com  The Matrix, que foi ofuscada na época pelos holofotes do tão majestoso Teenage Dream? Quem é a Katy Perry que começou a ser moldada no One Of The Boys? A resposta pode ser obtida facilmente ouvindo esses trabalhos mais antigos, que, graças à internet, podem ser encontrados com alguns cliques.

Era uma Katy controlada pela incerteza da juventude. Guiada somente por seu violão e sua voz com timbre metálico único — muito melhor aproveitado naquele estilo musical. Sem muita dança, sem muita cor. A poesia, como a encontrada na canção “Simple”, era o pilar principal de sua obra. A liberdade era, além dos temas de aceitação, poder cantar o que queria, como queria, com quem queria e, principalmente, querendo cantar.

De fato, esse texto não é uma crítica à carreira de Katy, muito pelo contrário. É uma reflexão, uma homenagem e uma revisitação a essa imaturidade saudável que ficou ofuscada com o tempo. Talvez as coisas foram acontecendo sem muito motivo, talvez realmente o medo era de que Katy se tornasse a “próxima Avril Lavigne” ou talvez Katy Perry mesmo decidiu mudar sua sonoridade para algo mais pop. Que bom que assim o fez, até porque, grandes obras foram lançadas nesse gênero pela artista: “International Smile”, “E.T”, “Teenage Dream” e outras canções impossíveis de serem citadas em um único artigo. Não podemos negar que com o tempo o mainstream foi deixando de abraçar a artista,aliás os gostos populares mudam e talvez seja uma boa ideia Katy Perry revisitar seu passado para resgatar o seu próprio gosto musical. Até porque, foi aquela Perry, descoberta por Madonna, que, com um simples elogio em uma rádio criou uma das maiores artistas pop da década passada e também foi aquela Katy Perry que fez Cob-Baehler perder seu emprego ao levar um conjunto de demos para a gravadora rival daquela que trabalhava no momento. Mesmo que tenha dado certo e o sonho esteja realizado, reencontrar mais uma vez as emoções que a inspiravam, o anseio pela liberdade e o respeito por uma rebeldia juvenil pode ser a atitude chave para uma nova obra que finalmente complete a artista.

Como ela própria já cantou, a simplicidade pode ser a resposta.

plugins premium WordPress