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Lana Del Rey, Coraline Polachek, Ana Frango Elétrico, Sufjan Stevens, Troye Sivan, Carly Rae Jepsen, Olivia Rodrigo, Jessie Ware, Mitski, Dua Lipa, L'Rain, Kelela, Sampha e SZA (Fotos de divulgação, sem autoria ou créditos nosso)
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As 50 Melhores Músicas de 2023

Apresentando a lista das melhores músicas de 2023, contando com Caroline Polachek, Jessie Ware, Lana Del Rey, L’Rain, Olivia Rodrigo, Sufjan Stevens e mais!
POR SoundX Staff
dezembro 11, 2023

Esse foi o primeiro ano completamente normal desde a pandemia de COVID-19 — de cabo a rabo, do começo ao fim. Podemos aproveitar tudo que a música tinha para oferecer sem qualquer restrição, seja física, ou mental. Em 2023, trombamos com canções de libertação sexual e procura intensa por amor (“Rush”), além de não conseguirmos desviar dos (não tão) clássicos hinos de término e coração partido (“vampire”). Para além de grandes canções que brilharam nas pistas de dança (“Padam Padam” e “Psychedelic Switch”), política (“A&W”) e os pensamentos intrusivos vieram com força (“Will Anybody Ever Love Me?”), ao passo que grandes turnês tomavam conta do mundo (Taylor Swift’s The Eras Tour). No final de tudo, música, como sempre, esteve lá para o que acontecesse, e é isso que celebramos. Assim, segue a lista de 50 melhores músicas de 2023.

50

Remi Wolf, "Prescription - Extended"

De um viral no TikTok a ato de abertura da próxima turnê de Olivia Rodrigo, Remi Wolf é uma das maiores revelações dos últimos cinco anos. Seu estilo irreverente e carismático nos lembra que a música pop deve ser, principalmente, explosiva — e, em “Prescription”, isso não é diferente. Se afastando do bedroom-pop de seu primeiro disco, Juno (2021), o mais recente single da californiana cai de cabeça no R&B setentista, acompanhado de uma produção totalmente orgânica e psicodélica que remonta alguns trabalhos clássicos de Prince. Lançada em duas versões — uma feita para as rádios e outra com mais de sete minutos —, a faixa é uma canção épica de amor e a versão estendida conta com um clímax que beira a música gospel. “Prescription” expande os horizontes musicais de Remi Wolf e, acima de tudo, demonstra uma ambição promissora que, caso refletida no segundo álbum da cantora, trará resultados extraordinários. — Marcelo Henrique

49

Ana Frango Elétrico, "Insista Em Mim"

Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua é o terceiro álbum da carioca Ana Frango Elétrico bastante antecipado por fãs de música brasileira, no Brasil e no mundo — já que agora seus trabalhos são também lançados por gravadoras internacionais. Após a enérgica e sensual “Electric Fish”, o segundo single do disco, “Insista Em Mim”, é uma peça de MPB e jazz que soa como um clássico instantâneo. Na canção, que é certamente a mais romântica da carreira de Elétrico, a artista se declara e pede para não ser abandonada. Este é um dos polos de sua música, que concentra a vulnerabilidade e a dependência em detrimento da autossuficiência. Das situações que fogem do controle de Elétrico, o amor recíproco é aquela que ela busca com maior garra. — Kaique Veloso

48

Kylie Minogue, "Hold On To Now"

“Hold On To Now” inova ao incorporar elementos modernos ao dance-pop, homenageando o passado glorioso do gênero. A música captura uma narrativa melancólica, sugerindo uma jornada de autodescoberta da artista, seja na vida ou em relacionamentos, em que dualidade entre momentos mágicos e triviais reflete a natureza oscilante da existência indicando possíveis despedidas. A metáfora da magia controlando a vida ressalta a importância de viver o presente reforçando a necessidade de perseverança, enquanto a ponte introduz uma reflexão antes de avançar. “Hold On To Now” emana esperança e determinação em meio à incerteza. — Brinatti

47

Susanne Sundfør, “Alyosha”

O último disco de Susanne Sundfør, Blómi, é uma ode de esperança para toda cultura: “Quero que este álbum seja um antídoto para a escuridão que domina a nossa cultura hoje”, a cantora disse em seu site. Se o disco é um manifesto de aposta na sorte, “Alyosha” é a peça mais significativa dessa declaração: nos primeiros versos, Susanne pinta figuras de desesperança (“They say I was a broken woman”), mas que são metamorfosiadas na escolha de um caminho mais leve e frutifero (“They say it’s kill or be killed / Love has died and all is worthless / But that is not what I believe in, no”). Seu som, como sua metafora lírica, é cristalina e eterea: sintetizadores e cordas simplistas impulsionam os vocais de Sundfør, atuando apenas um sustento fantasioso para a cantora. No final, não é apenas sobre acreditar num destino bom, mas fazer todos aqueles que ouvem acreditarem também. — Leonardo Frederico

46

Maruja, "Thunder"

A recente banda britânica Maruja tem chamado certa atenção dos apreciadores do gênero art rock. Estes rapidamente se inclinam e apontam semelhanças com outras mais proeminentes: Squid e, principalmente, Black Country, New Road. É que esses grupos propõem experimentações ousadas entre rock, punk e jazz, abrindo um horizonte interessante e convidativo para produções futuras que venham a se inspirar nesse cenário alternativo. Maruja é um colaborador de peso para tal espaço, tanto com o EP Knockarea, mas, principalmente, com a faixa “Thunder”, que é uma representação invejável transitando entre a convulsão punk da percussão e a envolvência do saxofone. Além disso, a interpretação vocal enérgica acompanha a proposta eletrizante da primeira parte da canção, com Harry Wilkinson cantando aos gritos: “The sky is alive with thunder”. A estrutura é simples, mas não deixa faltar nada, composta por repetições líricas que abrem espaço para a habilidade instrumental ser desbravada, e é exatamente isso que precisa ser captado de Maruja. Suas experiências sonoras indicam possibilidades frutíferas para uma banda que começou a engatinhar, mas que gera anseio substancial para mais aventura em um futuro que tende a ser brilhante. — Gustavo Rubik

45

slowthai, "Selfish"

O primeiro single do terceiro álbum do rapper britânico mais expoente dessa década, “Selfish”, foi uma grande ruptura de expectativas. Foi a primeira vez que Slowthai ousou combinar seus versos de rap com as guitarras marcadas do punk. No entanto, diferentemente do que se espera de um trabalho baseado nesse movimento sociocultural, aqui, Slowthai não trata de problemas da sociedade, mas volta seus olhares para si mesmo e para a reflexão de que o seu egoísmo é parte necessária de sua vivência e bem-estar: é preciso pensar antes em si mesmo para poder cuidar de outras pessoas. Isso obtém ainda mais significado quando se recorda a história do rapper, que já enfrentou problemas com drogas. “Selfish” não é apenas uma boa canção de hip-hop, mas aquela que pavimentou o caminho para o disco que separaria Slowthai dos iniciantes e o uniria aos seus pares veteranos. — Kaique Veloso

44

Lana Del Rey, "Did you know that there's a tunnel under Ocean Blvd"

O lead single de Lana Del Rey segue a mesma linha de produção serena introduzida por Chemtrails Over The Country Club e Blue Banisters, mas se desdobra com uma complexidade superior em relação aos principais singles desses álbuns. A faixa-título do Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd tem um enfoque mais pronunciado na instrumentação, adotando uma sonoridade mais orquestral e mística. Os vocais cativantes de Lana Del Rey contribuem para o charme geral da música, tornando-a uma introdução admirável ao álbum. Ao mencionar o Jergins Tunnel, Lana destaca a obscuridade histórica desde o seu encerramento em 1967, incentivando os ouvintes a não a relegarem ao esquecimento, e assim, proporciona uma camada de reflexão e conexão emocional à sua narrativa musical. Este contexto serve como ponto de partida crucial para explorar a complexidade de um dos melhores álbuns do ano.  — Gerson Monteiro

43

Sufjan Stevens, "So You Are Tired"

O iniciar com o piano melancólico embala a canção que retrata um relacionamento sem futuro: “So you are dreaming of after / Was it really all just for fun? / I was the man still in love with you / When I already knew it was done”. Sufjan Stevens é um exímio criador de melodias cativantes e que extraem sentimentos únicos, nas quais sua habilidade é louvável. “So You Are Tired” é uma das canções mais simples e introspectivas de Javelin, mas permanecer nesse ambiente acústico parece confortável para o artista, especialmente em outro álbum de sua discografia, Carrie & Lowell. Justamente por saber trabalhar com a simplicidade, Stevens não precisa de muito para encantar: as notas esparsas de piano são intercaladas ao crescente arranjo de violão que ganha destaque com o progredir da harmonia enlaçada por um coro de apoio. O que era inicialmente simplista, fica encorpado a cada segundo que se passa, graças à desenvoltura cuidadosa e certeira que sabe inserir cada elemento com atenção para transmitir a exata sensação da composição e seu intérprete. — Gustavo Rubik

42

Taylor Swift, “You’re Losing Me (From The Vault)”

Se durante a primeira década de sua carreira, as canções de término de Taylor Swift eram solenemente direcionadas para culpar seu parceiro infiel, na última, essas narrativas deram espaço para uma movimentação depreciativa: a de procura da própria culpa nas desavenças. “You’re Losing Me”, faixa descartada do primeiro corte de Midnights, é uma mistura inteligente desses dois lados: os atos desonestos de Swift no relacionamento são apenas suas exigências para se sentir amada, atos vistos como sacrifícios por ela, mas que atingem todos como uma relação desequilibrada. Pautada inteiramente por sintetizadores que mimetizam batimentos cardíacos que se fundem com samples de “The Great War”, de Midnights (3am Edition), Swift examina seu rompimento como a audácia de sempre, mas sua lente está embaçada, ao passo que não consegue entender que os motivos do adoecimento do relacionamento não são, pela primeira vez em muito tempo, sua responsabilidade. “How can you say that you love someone you can’t tell is dying?”, ela pergunta no segundo verso, para entregar a cartada mais dolorida na ponte: “I wouldn’t marry me either”. “You’re Losing Me” segue o arquétipo de uma canção de coração partido de Swift, mas agora mais madura do que nunca, ao passo que seu maior inimigo é sua própria mente e seu ponto de vista. — Leonardo Frederico

41

Luiza Lian, "Homenagem"

Em seu mais novo álbum, Luiza Lian discute bastante sobre política e corrupção, ainda que, periodicamente, ela também abra margem para momentos mais suaves, como no caso da canção “Homenagem”. Uma das faixas do mais recente álbum de Lian, 7 Estrelas | quem arrancou o céu?, “Homenagem” é uma música sensual, criativa; que mistura pop, R&B alternativo, afrobeats e um leve reggae. A produção da faixa conta com as modulações vocais características da sonoridade do álbum e a interpretação fascinante de Luiza,  pontos que trazem muita vivacidade para a faixa, ainda que o melhor aspecto da canção seja seu cativante refrão: “Chega em casa, pensa em mim, faz uma homenagem”. — Bruno do Nascimento

40

Liturgy, "Before I Knew The Truth"

A complexidade das composições de Haela Ravenna Hunt-Hendrix — frontwoman da banda de black metal Liturgy — brilham com riffs de guitarra agudos e vocais torturados em “Before I Knew The Truth”. A canção é direta ao ponto em mostrar a razão pela qual Liturgy é um grupo tão divisivo entre os fãs mais saudosistas do metal. Afinal, a banda nada se parece com aquelas que fizeram parte do pico de popularidade do gênero, mas se o assunto é ser inventivo e brincar com nossas expectativas, ao mesmo tempo que batemos nossas cabeças com o  som pesado da música, “Before I Knew The Truth” é a canção a se ouvir. — Matheus Henrique

39

Kara Jackson, "dickhead blues"

Com habilidade, Kara Jackson traz abaixo, caco a caco, a masculinidade frágil de seus antigos parceiros românticos na confiante e empoderadora “dickhead blues”, uma das faixas que compõem o seu álbum, Why Does The Earth Give Us People To Love?. Assim como as demais faixas de seu álbum debutante, “dickhead blues” conta com os vocais com beleza ímpar de Kara Jackson, que dão um charme extra pra canção, com seu timbre forte e pesado, além de poesias incríveis, compostas por Kara, e de uma carga emocional pesada. Essa música, por sua vez, possui uma mensagem de autoconfiança um tanto mais clara que as outras e, ademais, um encerramento belíssimo que arrebata o ouvinte. — Bruno do Nascimento

38

Victoria Monét / Earth, Wind & Fire / Hazel Monet, "Hollywood"

“Hollywood” é poesia pura. A faixa, presente no primeiro álbum de estúdio de Victoria Monét, JAGUAR II. Mesmo que não rompa com o R&B da década de 1970 que o registro evoca de maneira certeira, a faixa se distancia da sensualidade que dá o tom de boa parte do material e assume uma ótica mais reflexiva, trazendo um lado mais contemplativo e intimista para o projeto. “Lembre-se das árvores e das abelhas / As memórias de quando você costumava ser / Uma criança em um balanço”. A canção recruta Earth, Wind & Fire — grupo responsável por grandes sucessos da disco music — e também contém vocais de Hazel Monét, filha da cantora, nos segundos finais. “Hollywood” é um dos grandes destaques do projeto de Victoria Monét, uma música singela que torna “JAGUAR II” ainda mais cativante. — Lucas Souza

37

Kesha, "Only Love Can Save Us Now"

Com Gag Order Kesha conseguiu algo que parecia intangível: ser mais vulnerável e crua que em Rainbow, álbum que foi seu aguardado retorno à música. Desde então, se tornou característico de sua musicalidade a capacidade de contrastar sua vulnerabilidade à diversão, e é exatamente isso que “Only Love Can Save Us Now” faz. Rompendo os sintetizadores rígidos, a canção começa com a descontraída introdução do datilografar de uma máquina de escrever: ela quer contar algo diferente. Devidamente antêmica, os versos despojados do senso de humor de High Road se unem a premissa religiosa presente em Rainbow: o resultado é uma canção rumada pelo eletrônico e por arranjos de violão amplificados no refrão por um coral gospel. Trabalhando sua crença num poder superior, Kesha clama por amor e salvação, e mesmo na produção agitada, a artista não deixa de soar espinhosa e debochada ao traçar paralelos com seus conturbados últimos anos: “Yeah, I’m possessive, maybe I’m possessed, bitch / Fuck yeah, I’m selfish, shut up, eat your breakfast / I would kill for secrets, all of mine been leakin’ / I don’t got no shame left, baby, that’s my freedom”. — Gustavo Rubik

36

Dj RaMeMes (O DESTRUIDOR DO FUNK), "Sentando na Glock Rajada"

O domínio de DJ RaMeMes (O DESTRUIDOR DO FUNK) no cenário do funk já está estabelecido. Suas músicas podem ser ouvidas em suas apresentações por todo Brasil e mesmo tocadas por outros DJs em diversos tipos de festas, das mais alternativas às mais tradicionais. Não obstante a isso, o DJ que ganhou projeção nas redes sociais após participar da produção de um interlúdio de Pabllo Vittar e Anitta, em Noitada, tomou uma decisão assertiva e corajosa de lançar não faixas avulsas como geralmente fazia, mas um completo projeto que pudesse ser ouvido do começo ao fim. “Sentando na Glock Rajada” é um dos cortes mais especiais do disco, haja vista a combinação do funk 150 com as influências de música eletrônica de Ramon — principalmente Skrillex. No fim das contas, essa é apenas mais uma reafirmação do processo de expansão e dominação do funk pelo Brasil e pelo mundo. — Kaique Veloso

35

Sophia Chablau E Uma Enorme Perda De Tempo, "Segredo"

Traçando uma trajetória impecável, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo se apresenta como uma das maiores revelações nacionais dessa década. Desde seu primeiro disco autointitulado — que conta com a irreverente “Delícia/Luxúria” —, a banda brasileira mostra que sabe usar a sensualidade ao seu favor e construir suas narrativas. Em “Segredo”, o single de estreia de Música do Esquecimento, o grupo atravessa as noções do convencional em vistas de um único objetivo: tornar a si mesmo próprio de outra pessoa. Quase como uma relação paralela com “Insista Em Mim”, de sua contemporânea Ana Frango Elétrico, Sophia Chablau abdica do seu orgulho e da autossuficiência para servir aos propósitos lascivos de outrem. — Kaique Veloso

34

Marina Sena, "Pra Ficar Comigo"

Olhar para si é, muitas vezes, desafiador. Entender a solitude como um acalanto, mais ainda. Em “Pra Ficar Comigo”, faixa de encerramento do álbum Vício Inerente — um dos registros nacionais mais arrebatadores de 2023 — Marina Sena surge, inicialmente, perdida. “Alguém tem luz / que oriente um caminho novo?”, questiona-se ela, embalada em um arranjo eletrônico hipnotizante. A frase define perfeitamente a essência da narrativa do disco: uma jovem que se muda do interior de Minas Gerais para a cidade de São Paulo, trocando a quietude e a natureza por uma efervescência sem igual. No decorrer da canção, Marina olha para dentro e para toda a sua trajetória e, ao se dar conta de onde chegou, faz um ode a si mesma e celebra a própria companhia. “Quero me orgulhar de tudo que eu deixei pro tempo / Quero só gostar do tempo que eu passo comigo”, canta. “Pra Ficar Comigo” é sobre amadurecimento e solitude. Uma das composições mais inspiradas da cantora, a canção é uma celebração da solitude e uma reflexão sobre o tempo. —  Lucas Souza

33

Björk / ROSALÍA, "Oral"

Björk sempre foi ativa sobre causas sociais em sua carreira. Desta vez, a cantora se junta à espanhola ROSALÍA pela canção “Oral”, escrita em algum momento entre os seus primorosos álbuns Homogenic e Vespertine, e lançada neste ano para levantar fundos contra a criação de salmão em cativeiro na Islândia. Para além do seu contexto, a música existe como peça robusta e cativante. Com produção de Sega Bodega, as cantoras trafegam sobre uma melodia pop, inspirada no reggaeton, bastante sofisticada. Na letra, a islandesa trata daquele momento em que uma pessoa conhece outra, mas não tem ainda certeza se isso é algo mais que uma amizade, e se torna extremamente consciente de suas palavras e atos. É bom ver que mesmo após a conturbação emocional na qual Fossora foi concebido, ainda há espaço para músicas felizes na vida de Björk. — Kaique Veloso

32

Pabllo Vittar / MC Carol / Jup do Bairro, “Descontrolada (Cyberkills Remix)”

Se a versão usual de “Descontrolada” já era um exemplo do que o funk — como gênero mais ousado na música brasileira contemporânea — poderia alcançar quando posto em sua potência máxima, o remix feito por Cyberkills demonstra que qualquer uma dessas percepções estavam erradas: é possível extravasar ainda mais. Essa nova releitura é uma prova de que a fusão do funk com o eletrônico e experimental consegue romper com qualquer padrão pré-estabelecido, na busca de uma canção que propõe trilhar caminhos para transparecer a efervescência do desejo humano. O instrumental é agressivo e totalmente sintético, mimetizando baladas noturnas e bordeis irreais. Seu papel, no entanto, é mais forte, visto que ele funciona como agente controlador não apenas das vozes das cantoras, que constantemente sofrem inúmeras modificações digitais, mas também de suas emoções: o grande desejo pautado aqui é o de divertimento, seja este realizado numa pista de dança ou numa transa, mas tudo ressoa como uma bagunça-bem-codificada de puros sentimentos humanos que assumem camadas robóticas. Em meio de um turbilhão de sons, o desejo de apenas acompanhá-los, seja lá o que eles dizem ou significam, é maior do que qualquer coisa. — Leonardo Frederico

31

Yves Tumor, "Heaven Surrounds Us Like A Hood"

“Heaven Surrounds Us Like a Hood” é psicodélico em tudo que tem direito, hipnótico em sua transmissão, moderno em sua alma. Yves tem um carinho pela psicodelia-soul-funk dos anos 1970, que transparece seja em seus vocais andróginos, seja no barulho que permeia sua arte, ou talvez na descrição musical do que sente, vive e vê. A mistura, termina numa faixa que é épica em seu direito, surreal, etérea. Yves é um mestre da manipulação psicodélica, e continua a mostrar isso com o decorrer do tempo. — Pedro Piazza

30

100 gecs, "Hollywood Baby"

Em “Hollywood Baby”, a dupla estadunidense 100 gecs continua a traçar seu legado de canções insanas, engraçadas e que empurram a música pop para o futuro. Ainda que essa seja uma versão de hyperpop distante da tradicional — fundamentada no início dos anos 2010 e com base no electropop e bubblegum bass — por decorrer da medida com que a dupla se aproxima do rock e do industrial, com suas guitarras distorcidas e sintetizadores metálicos ensurdecedores. A faixa do álbum 10,000 gecs não passa despercebida em meio ao portfólio de Dylan Brady e Laura Les, e é mais uma de suas invenções potencialmente cáusticas e certamente memoráveis. — Kaique Veloso

29

NewJeans, "Super Shy"

Inescapável. Esse é um termo que descreve bem “Super Shy”, do grupo coreano New Jeans. As New Jeans tomaram o ocidente, e a internet ocidental, de supetão em 2023, com suas letras contagiantes, e seus instrumentais numa levada quase deep-house ou talvez um proto-IDM. De qualquer forma, “Super Shy” é hit em mérito próprio, seja no entusiasmo das integrantes de New Jeans, seja por sua coreografia enérgica, seja por seu refrão chiclete. Tudo ali conspira, ressoa e transpira hit — e um hit é eterno. — Pedro Piazza

28

Róisín Murphy / DJ Koze - "Fader"

Hit Parade é um dos diamantes de 2023, e “Fader” é uma de suas arestas mais cintilantes. A canção que, como todo o álbum, conta com produção de DJ Koze, é uma celebração da vida, da festa e das raízes da cantora. Natural de Arklow, na Irlanda, Róisín Murphy traz para si a responsabilidade de representar a alegria na cultura do seu povo, sem deixar de lado sua paixão pela música. A cantora identifica que esta é uma faixa sobre a vida, a morte e tudo no entremeio — numa quase referência ao clássico nerd de Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galáxias: A Vida, O Universo e Tudo Mais. Mas, a principal tese que a faixa nos deixa é sobre a coroação da vida no presente e o agora como a regra imperante. Em alusão ao ícone soul Sharon Jones e sua música “Window Shopping”, ela canta “Keep window shopping, baby”. Como se as vitrines fossem a janela de vislumbre para o futuro, Róisín as encara desavergonhadamente. — Kaique Veloso

27

Paramore, "You First"

“You First” é uma odisseia pela complexidade intrínseca da vida, onde a busca pelo bem-estar se entrelaça com a inevitabilidade do carma. A narrativa desafia a concepção da vingança como mera motivação, elevando-a à categoria de privilégio. Além disso, a honestidade crua sobre a mesquinhez humana permeia cada verso, enquanto a busca por redenção ressoa como um eco constante. Nesta música, riffs de guitarras entrelaçam-se, impulsionando a música com uma força incontrolável onde a voz aguçada de Williams, qual instrumento à parte, hipnotiza o ouvinte do início ao fim. É uma jornada onde o equilíbrio entre a escuridão e a luz é minuciosamente explorado, como se cada acorde fosse uma ponte entre dois mundos contrastantes. Nesse sentido, a letra ressalta a ideia de que todos carregam um pouco de vilania, mas a esperança de que o karma atinja primeiro aqueles que merecem permanece como um fio condutor, proporcionando uma reflexão profunda sobre as escolhas na jornada da vida. — Brinatti

26

Doja Cat, "Agora Hills"

Doja Cat passa longe de ter uma discografia excelente. Mas verdade seja dita: a rapper é inquestionavelmente versátil e a diversidade que permeia seus grandes êxitos é a prova disso. Do groove de “Say So” ao hipnotizante afrobeat de “Woman”, a estadunidense sabe explorar diferentes sonoridades sem diluir sua autenticidade. Após diversos hits que a catapultaram para o topo das paradas musicais, a artista lançou seu quarto álbum de estúdio, Scarlet, que indicava uma ruptura do pop-rap que a tornou conhecida. Irregular e esquecível, pode-se dizer que não foi, portanto, um movimento tão bem-sucedido. Apesar disso, Doja entregou uma das canções mais cativantes do ano: “Agora Hills” apesar de não se distanciar de seus sucessos predecessores, e talvez não repetir o fenômeno midiático de “Kiss Me More” ou de “Need to Know”, a faixa já pode ser considerada um dos melhores lançamentos da artista. Se aproximando do R&B explorado por ela em faixas como “Streets” e “You Right”, o single é um dos poucos grandes destaques de seu último registro. Além disso, é a prova que sua essência hitmaker não foi totalmente deixada de lado. — Lucas Souza

25

Parannoul, "Into The Endless Night (Live)"

Alcançando impressionantes quarenta e seis minutos de duração, a versão ao vivo da música original de 2021 — esta que mal batia a marca de dez minutos — é uma jornada que te leva a todos os cantos da versatilidade e talento de Parannoul. A  canção segue a linha tradicional do shoegaze, com inúmeros efeitos nas guitarras e nos vocais do artista, que aqui são acompanhados por vários elementos de outras vertentes do rock, como por exemplo os toques psicodélicos no etéreo refrão, este que faz o ouvinte sentir como se estivesse flutuando através da interminável noite sobre a qual Parannoul canta. Entre as várias passagens que esbanjam virtuosidade instrumental por parte da banda que acompanha o artista, há também uma fantástica sessão, na qual um barulho estático vai se aproximando e ficando cada vez mais alto, como se sempre estivesse ali, à espreita. Lenta mas constantemente, o barulho toma completo controle da música, em um ponto na canção que soa como encarar algo horrível, mas ao mesmo tempo intrigante o suficiente para você não querer olhar para outra direção. E se uma faixa de 46 minutos não fosse ambiciosa o suficiente, o fato de “Into The Endless Night” ser uma gravação ao vivo — que remete muito ao clássico da banda Fishmans, “Long Season”, outra longa canção que recebeu uma histórica performance — faz com que essa composição possa facilmente ser considerada o magnum opus de Parannoul, pois do começo ao fim a faixa te prende graças a maestria da banda em manter o ouvinte curioso em relação ao que virá a seguir. Os quarenta e seis minutos passam como uma brisa nesta versão que poderia ser confundida como uma gravação de estúdio, se não fossem os aplausos e gritos eufóricos da plateia nos momentos finais, palmas e ovações de pessoas que sabem que acabaram de experienciar algo único e talvez a melhor performance ao vivo do ano de 2023. — Matheus Henrique

24

Jessie Ware, "Pearls"

“Pearls” é uma faixa que resume de forma excelente o motivo de seu trabalho na música disco ser tão fenomenal: a cantora consegue unir aqui algumas das principais características dos clássicos do gênero que os tornavam tão formidáveis. Na produção, o baixo com groove funk irresistível, os poderosos pianos além do airoso violino, contribuem para um resultado arrebatador. O destaque maior que torna essa faixa tão sensacional, entretanto, é a performance de Jessie Ware — uma das melhores de todo o That! Feels Good. O vocal potente da artista mostra, em todo o álbum, porém em especial aqui, como ela soa tão excelente ao utilizar o estilo: sua voz evoca a essência das melhores vocalistas dance oitentistas. Ademais, essa é uma canção em que fica bastante evidente o quão a britânica sabe como elaborar melodias extremamente divertidas — esse quesito faz com que em nenhum momento sequer o ouvinte não se sinta cativado ouvindo esse material.  — Davi Bittencourt

23

Billie Eilish, "What Was I Made For?"

Billie Eilish retorna em 2023 com a obra-prima emocional “What Was I Made For?”, criada para a trilha sonora do filme “Barbie”. A música, focada na jornada espiritual da personagem para se descobrir no mundo real, destaca-se pela voz única e emotiva da cantora, com uma produção notável que apresenta uma melodia de piano encantadora, enriquecida por acompanhamentos instrumentais fascinantes. A letra aborda a busca de identidade e propósito tanto de Barbie, quanto da própria Billie, que compartilham suas lutas pessoais. Apesar das incertezas, ambas expressam o desejo de autoconhecimento e realização. O single destaca-se como uma adição excepcional à discografia da cantora, evidenciando que sua versatilidade e maturidade artística permanecem intactas neste ano; assim, aguardamos com expectativas positivas o que isso pode indicar em relação a trabalhos por vir. — Gerson Monteiro

22

ANOHNI and the Johnsons, "Rest"

Em “Rest”, ANOHNI, ao lado dos Johnsons, mergulha no rock progressivo dos anos 1970 e em passagens melódicas inspiradas no blues. Ela lidera com versos poéticos e energia góspel, descrevendo uma espera profunda, comparando-a à espera de uma joia pelo toque da areia no fundo do oceano, em uma de suas metáforas mais ousadas. A canção transita entre sensações de solidariedade e protesto, oferecendo orações aos manifestantes, culminando numa conclusão emocional, psicodélica e soul, na qual suas costas são comparadas a uma ponte para liberdade — o que acaba por intitular o último disco da cantora. Tudo isso é descrito em abstrações, construindo uma trama de símbolos e sons reflexivos que é, ironicamente, facilmente identificável. — Leonardo Frederico

21

JPEGMAFIA / Danny Brown, "Lean Beef Patty"

As experimentações feitas por JPEGMAFIA e Danny Brown em menos de 2 minutos com “Lean Beef Patty” são sensacionais. Iniciando com a manipulação de um trecho de “I Need A Girl” com resultado hipnotizante, e seguindo com sintetizadores e sonoridades industriais potentes, acompanhados de batidas distorcidas e que se mantêm em grande parte da canção, criando uma energia caótica intrigante. Existe, além disso, uma singular mistura de percussão footwork com drum n’ bass. Dessa forma, mesmo com uma duração bastante reduzida, “Lean Beef Patty” se destaca no álbum Scaring The Hoes ao sintetizar a forma fenomenal com que eles trabalham suas estruturas musicais, ritmos e influências, que chegam, até mesmo, a ultrapassar as barreiras convencionais no hip-hop. — Davi Bittencourt

20

Tinashe, "Talk To Me Nice"

BB/ANG3L é um registro no qual Tinashe explora alguns de seus sentimentos mais profundos. Em “Talk To Me Nice”, primeiro single do disco, a intimidade age como instrumento de renovação. Na tentativa de reacender as chamas de um relacionamento acomodado, a cantora coloca seus desejos, limites, e suas intenções em primeiro plano: “Better when we keep our secrets in the open”, ela canta, na esperança de que seu parceiro faça o mesmo. Com produção ambiciosa, a faixa se destaca dentro da discografia de Tinashe por levar a fusão do R&B com a música eletrônica, fortemente explorada em suas mixtapes mais experimentais, para um lugar de maior notoriedade. — Marcelo Henrique

19

Pinkpantheress, "Capable Of Love"

“Capable of love”, de PinkPantheress, ocasionou um grande choque quando foi lançada, não apenas por ter sido acompanhada de um teaser do álbum debutante da cantora, mas por se tratar de uma das mais inesperadas combinações musicais feitas nesta década. Assim como, à primeira vista, parece óbvio que cenoura e chocolate, num bolo, nunca irão funcionar juntos, era também o caso da junção entre drum & bass e  hard-rock.  PinkPantheress, entretanto, conseguiu fazer ambos entrarem em perfeita sintonia na composição de “Capable of love”, enquanto a britânica canta uma letra profunda sobre as preocupações de alguém inseguro com o próprio relacionamento. — Bruno do Nascimento

18

Kali Uchis, "Moonlight"

Red Moon In Venus é o ensaio intergalático de Kali Uchis sobre o amor e, em “Moonlight”, ela chega à conclusão de que o sentimento se traduz de forma mais intensa nos pequenos momentos. Esqueça o papo furado e deixe o estresse de lado; às vezes, tudo que uma colombiana quer é se sentir como uma boneca e relaxar sob a luz da lua. “I just wanna get high with my lover”, ela canta no refrão da faixa, construída por uma linha de baixo borbulhante e vocais aveludados que pintam a imagem de um romance digno de grandes telas. Algumas pessoas encaram seus relacionamentos como prisões. Kali, por outro lado, enxerga o dela como uma oportunidade para se livrar dos problemas. — Marcelo Henrique

17

Amaarae, "Co-Star"

Em “Co-Star”, Amaarae, juntamente de seus colaboradores, produz uma excitante faixa de afrobeats, que abala as ideias pré-concebidas por aqueles familiares com o gênero, ao misturar suas batidas com sons e nuances do dance-pop e UK funky. “Co-Star” é enérgica ao limite. Durante seus poucos minutos de duração, não deixa o ânimo cair nem por um segundo. A produção sempre dispõe de algum novo elemento na batida, e a deixa marcantemente dinâmica e divertida. Concomitantemente, Amaarae, com sua performance, garante que qualquer lacuna aberta que a canção possuísse fosse preenchida com sua performance sensacional e muito carismática. — Bruno do Nascimento

16

SZA, "Kill Bill"

Se Ctrl posicionou SZA como uma das vozes que guiam o R&B-contemporâneo, SOS provou que ela é um fenômeno cultural. Mais do que um simples retrato individual, as composições da cantora norte-americana refletem a realidade de uma geração que, assim como ela, está sempre à procura de um norte. E em “Kill Bill” isso não é diferente, embora, aqui, a discussão seja levada a um nível mais extremo. Ver seu ex-namorado superar o fim da relação antes de você é doloroso, mas existem diversas maneiras saudáveis de lidar com isso. Para SZA, entretanto, a terapia não é uma delas. Sobre uma batida clássica de boom-bap e uma virada lúgubre de acordes, ela extrapola os limites sensíveis da vingança no refrão da faixa: “I might kill my ex”. Assim como no epônimo filme de Tarantino, tudo não passa de uma mera fantasia, mas a lição é clara: um coração quebrado pode causar bastante estrago. — Marcelo Henrique

15

Sampha, "Spirit 2.0"

Sampha nos ensina a importância de estabelecermos nossa autoconexão e a conexão com nossos entes queridos em “Spirit 2.0”, lead single de seu novo álbum, Lahai. A instrumentação majestosa de “Spirit 2.0”, que se caracteriza em uma pintura cheia de nuances, cuja beleza expira vivacidade e age como panaceia no interior daquele que se dispõe a ouvir as reflexões feitas por Sampha em sua letra. Mesmo o mais ínfimo detalhe agregado a estrutura da canção foi desenvolvido com maestria pelo cantor e seus colaboradores. Ainda que a implementação de elementos sonoros impensados pela audiência nos moldes do R&B contemporâneo não seja mais algo tão inovador atualmente, visto que nomes como James Blake e Joji já tem utilizado dessa ideia há certo tempo em seus respectivos trabalhos, Sampha é quem mostrou possuir a maior maestria. A excelência de “Spirit 2.0”, por si só, confirma isso. — Bruno do Nascimento

14

Kelela, "Contact"

Kelela é uma potência do cenário eletrônico atual, e “Contact” é, possivelmente, o grande destaque de seu álbum de estúdio, Raven. A música potencializa a sensação de ser levado ao limite nas pistas de dança, da euforia ao prazer total. Embalada em um poderoso drum ‘n bass, a canção passeia entre o hedonismo e o escapismo — não se distancia por completo da imersão presente na narrativa do disco, mas funciona como um momento de evasão de toda a densidade ali presente. A faixa impulsiona a experiência sensorial do registro, sobretudo por ser mais uptempo que o restante da obra. “Você tá se estressando, isso não é permitido / Não há nada nos impedindo / Você tá se inclinando e eu me mexo / Amor, vamos dançar pra esquecer”, canta ela. “Contact” não apenas é um dos melhores singles lançados esse ano, como também faz jus ao excelente trabalho desempenhado por Kelela na dance music. Lucas Souza

13

L'Rain, "Pet Rock"

Taja Cheek, enquanto na alcunha L’Rain, vem experimentando com sons fluidos e cadenciados, num bordado sonoro tão singular quanto sua criadora. Em “Pet Rock”, essa qualidade é amplificada num arranjo de guitarra, instrumento que não é estranho a artista, mas que aqui se costura numa sonoridade “quase Julian Casablancas”, que fortalece sua letra sobre a inexorabilidade dos sentimentos dentro de uma relação. Como uma pedra, por vezes rochedo, às vezes pedregulho, mas sempre acompanhando L’Rain, um complexo de estimação tão único e singular em sua simbiose com sua dona. “I’m fine/ I’ve got no one to talk to/ It’s all my fault, I know” , Taja anuncia em seu último verso, e talvez seja hora de se livrar de sua pedra, que apesar de conhecida e paradoxalmente confortável, a impede de mudar, como são as pedras. — Pedro Piazza

12

yeule, "dazies"

O lançamento de “sulky baby” soou antecipado demais para alguém que havia lançado um disco há poucos meses. Mas yeule continuou seu trabalho sabendo exatamente o que estava fazendo até chegar ao intrigante softscars. A trilha rumou para uma de suas melhores canções, “dazies”. O artista singapurense havia declarado em algumas entrevistas que estava partindo para outra direção no novo disco, e a canção sintetiza muito tal intenção. Embebida por distorções e uma atmosfera densa característica do shoegaze, o rock alternativo guiou a jornada experimentada inicialmente em “Don’t Be So Hard On Your Own Beauty”. 

O cantar asfixiado e os gritos abafados intercalam com um refrão grandioso constituído por uma estrutura simples, mas muito bem trabalhada com a repetição incessante e adições nebulosas: “Sweetness, gentle / Kinder, mental / Black hole, black sky / Angel cries, and cries, and cries / Flowers, around / Your body, found / Sick mind, sick heart / Loveless, apart”. Passado o turbilhão emocional que aspira encerrar um círculo vicioso anunciado nos versos iniciais: “You like rotting in your bed / When was the last time you were fed? / Enough love, enough love, but instead / You pretend like you are dead”, o arranjo mais limpo e relativamente solar ao final entende a estrutura anterior como se fosse capaz de expurgar demônios. — Gustavo Rubik

11

Olivia Rodrigo, "vampire"

Em “vampire”, Olivia Rodrigo mergulha profundamente na representação de um relacionamento tóxico e manipulador, utilizando metáforas poderosas que comparam o parceiro manipulador a um vampiro sedento de emoções. A música reflete a autenticidade e vulnerabilidade da artista ao transmitir a frustração diante da manipulação e exploração emocional, enquanto também reconhece seus próprios erros e ingenuidades, oferecendo uma perspectiva de auto descoberta e crescimento pessoal. A canção preserva a estética marcante de seu single de estreia, “drivers license”, ao revelar uma evolução vocal notável, unida a sua expressividade aprimorada e uma melodia envolvente. — Gerson Monteiro

10

Dua Lipa, "Houdini"

Não há dúvidas de que Dua Lipa é uma grande estrela. Com Future Nostalgia — um dos melhores álbuns da década até então — ficou evidente o dom da artista de criar canções atemporais capazes de engajar qualquer entusiasta de música pop, como “Don’t Start Now”, “Physical” e “Levitating”. Mas, com seu mais recente single, “Houdini”, a inglesa se mostrou ainda mais perspicaz. Produzida por Kevin Parker (Tame Impala), a faixa abraça a psicodelia setentista de um jeito sedutor e viciante. Não abandonar de vez a nostalgia que embalou seus últimos hits poderia fazer com que Dua, erroneamente, fosse acusada de se manter em uma zona de conforto, o que consequentemente iria lhe render posições altas nas paradas de sucesso. No entanto, a cantora opta por explorar novos direcionamentos dentro da essência que moldou sua persona enquanto ícone do mainstream atual. E, em uma era repleta de registros descartáveis e nomes que surgem e desaparecem do estrelato na mesma intensidade, é notório ver o esforço da artista em ser autêntica e, portanto, criar um legado. Nesse sentido, “Houdini” é uma aposta certeira que reflete a transição de uma estrela em ascensão para uma futura a-list. — Lucas Souza

9

Mitski, "My Love Mine All Mine"

“My Love Mine All Mine” destaca-se como uma das faixas mais curtas do álbum The Land Is Inhospitable and So Are We, porém, paradoxalmente, é a que mais cativou o público, quebrando recordes na carreira da cantora e se transformando em uma de suas músicas mais bem-sucedidas. A canção aborda um amor que surge como a única constante em meio a um mundo repleto de destruição e caos, sendo a força singular que nos traz felicidade. O tema descreve a manifestação do amor da cantora por seu parceiro, expressando a esperança de que esse sentimento perdura mesmo após a sua morte. Apesar da simplicidade da produção, o instrumental se revela impactante, adicionando uma camada significativa à narrativa emocional da música . — Gerson Monteiro

8

Boygenius, "Not Strong Enough"

“Not Strong Enough” destaca-se como o single principal no mais recente álbum de boygenius — supergrupo composto por Julien Baker, Phoebe Bridgers e Lucy Dacus. A canção recebeu três indicações ao Grammy 2024, entre elas Gravação do Ano. Esse feito notável ressalta a habilidade do grupo em se destacar fora do cenário mainstream. A música aprofunda temas significativos, capturando de forma autêntica a luta pela vulnerabilidade e as complexidades da autocrítica. Ao mesmo tempo, explora as nuances do sentimento de ser desconhecido e nunca ser considerado suficiente para alguém (“Always an angel, never a God”). Assim, a música se transforma em uma jornada emocional por entre a complexidade humana, destacando que a verdadeira beleza está em abraçar a vulnerabilidade e explorar as nuances da autodescoberta. Certamente, esse espírito ressoou na vida de muitas pessoas que tiveram o privilégio de ouvir a música em 2023. — Gerson Monteiro

7

Carly Rae Jepsen, "Psychedelic Switch"

Carly Rae Jepsen é conhecida por canções dançantes regidas por vibrantes sintetizadores, difícil não citar os singles “Run Away With Me” e “I Really Like You”, estes configurando entre seus maiores destaques comerciais depois do mega-hit “Call Me Maybe”. Mesmo recente, “Psychedelic Switch” já chegou forte como uma de suas músicas mais contagiantes. Sendo um pop dançante com elementos que remetem a música disco, como o sintetizador que conduz para a envolvente linha de baixo no refrão, os versos desenham uma paixão arrebatadora: “I think all my life, I never met anybody like you / Sunrise all the time when I touch you / It’s like I’m wakin’ up in a euphoria / My insecurities are things I never was”. Na unicidade do amor eufórico, é inevitável se deixar levar e se apaixonar pela harmonia da sofisticada produção. — Gustavo Rubik

6

Troye Sivan, “Rush”

Por mais que Troye Sivan tenha sempre centralizado sua sexualidade como um dos principais pilares de seu trabalho, “Rush” é sua canção mais gay até hoje. Rush é o nome comercial de uma linha de “poppers”, gíria para um tipo de droga usada como relaxante muscular, principalmente na região do ânus e da garganta, permitindo uma maior flexibilidade dessas áreas e com isso aumentando o prazer sexual. Nesse sentido, se antes a sexualidade de Sivan era um motivo para caos e um componente contextualizador de suas narrativas, em “Rush” ela se torna um elemento de celebração de sua própria existência e cultura. A canção é um hino hedonista sobre busca e exaltação do sexo, sem propriamente deixar de lado um certo teor sentimental. Com um coro masculino eletrificado nos refrões e batidas totalmente sintéticas que refletem as boates LGBTQIA+ australianas, Sivan canta sobre acreditar numa conexão real, sem propriamente deixar de exigir o que taxa como básico: “Take me to the feeling, boy, you know the one / Kiss it when you’re done, man, this shit is so much fun”. No videoclipe, todas essas camadas são sobrepostas e aprofundadas: no visual, Troye resgata danças coreografadas criadas por um professor brasileiro e recai no controle de drogas, ao passo que transita entre um amanhecer pós-festa e a pegação casual em banheiros públicos. Não muito preocupado de que forma essa imagem será compreendida — o que também acontece com “One of Your Girls” — Troye está mais focado em representar essa cena em sua vertente mais honesta e visceral e conversar com aqueles que estão inseridos nela, do que tornar ela um produto para uma massa maior. Esse é um ensinamento basilar, especialmente dentro da comunidade gay: olhe para si própria e para suas irmãs, depois se preocupe com o que podem dizer sobre isso. — Leonardo Frederico

5

Sufjan Stevens, "Will Anybody Ever Love Me?"

Tentando encontrar o mais sincero amor, Sufjan Stevens puxa um singelo banjo numa jornada traçando sua melancolia e sua esperança em ter alguém que possa o compreender: “Pledge allegiance to my burning heart” canta ele no fim do refrão. Desenvolvendo um início solitário, apenas com cordas e uma voz quase que sussurrada e levemente embargada, o progredir revela um coro a fim de trazer um pouco de conforto ao coração desolado. O clipe da canção faz uma viagem psicodélica com colagens que remetem a capa de Javelin: é uma junção que mergulha em busca de respostas de aceitação, conforto e carinho. Enredado por versos que soam como poesia, o cantor tem uma habilidade eloquente em reunir arranjos solitários e a grandiosidade do coral, extraindo seus sentimentos mais genuínos e os direcionando para o ouvinte que abstrai suas linhas confessionais. Ao fim, com as vozes subindo de tom e o vocal de Stevens diluído nelas, toques eletrônicos conferem a suntuosidade da busca implacável por amor deste coração ardente. — Gustavo Rubik

4

Ana Frango Elétrico, "Electric Fish"

“Electric Fish” pinta uma imagem intensa e sensorial de um encontro noturno, embriagado e talvez feliz. As palavras são escassas, sugerindo uma conexão física profunda, enquanto o aroma de cigarro permeia o ambiente. A busca por um lugar tranquilo no corpo do outro é desajeitada, mas o cheiro é cruelmente cativante. A expressão súbita do amor contrasta com a difícil batalha e adiciona uma camada de intensidade e vitalidade à experiência, criando uma atmosfera de paixão e entrega. — Brinatti

3

Caroline Polachek, “Welcome to My Island”

“Welcome to My Island” é muito mais do que apenas a canção de abertura do segundo disco de Caroline Polachek, mas também um convite ao próprio folclore interno da cantora. Sendo a primeira faixa que ela compôs para Desire, essa é a peça que dá o tom para todo o registro: uma expressão urgente e crua do egoísmo, a autoconfiança de se acreditar na existência de um mundo único dentro de sua própria cabeça e veementemente avistar ele como a única verdade existente. Seu ponto de vista, porém, é engraçado e pragmático: pulos de versos alternativos malcriados para refrões explosivos de música pop estimulam uma vertente humorística dessa interpretação, reconhecendo sua própria ganância, egocentrismo e estupidez. Sua narrativa, composta de forma singular, demonstrando uma frustração com as estruturas da música popular, é um enredo de um anti-heroi e as expressões de seu ego: um grito lamentador desponta a música, seguido por uma sequência de recitação dando as boas-vindas para o universo fílmico de Polachek (“Welcome to my island / Hope you like me, you ain’t leaving”). No entanto, é apenas na ponte que sua instância metalinguística se concretiza: “You’re so smart, so talented / But now the water’s turning red / And it’s all your fault and it’s all your mess”, ela relembra uma fala de seu pai, que nunca aprovou as direções artísticas da filha. Embora sua narrativa seja conscientemente de impor seus desejos, seu caráter é totalmente identificável: todos nós já estivemos lá. — Leonardo Frederico

2

Jessie Ware, "Begin Again"

Apesar de ter conquistado os fãs de música pop com o refinado What’s Your Pleasure? em 2020, Jessie Ware está na indústria há mais de dez anos. Seus trabalhos iniciais operavam com um pop-soul sutil e também flertavam com o R&B-alternativo, mas, muitas vezes, se prendiam ao básico desses gêneros e falhavam em apresentar um fator que distinguisse Jessie de outras cantoras que tocam em rádios adult-contemporary no exterior. Nesse contexto, seus dois últimos discos funcionaram quase como um renascimento para a britânica, e “Begin Again” dialoga justamente com isso. O entendimento de seu lugar na música, juntamente ao desejo de se reinventar, desencadearam uma verdadeira disco queen. E, assim como grande parte das canções em That! Feels Good!, “Begin Again” é vintage, destemida e grandiosa. Como uma viagem ultramarina, a construção da faixa é sublime, alternando entre momentos de suavidade e grandes refrões, e levando padrões rítmicos tipicamente latinos para as discotecas europeias — tendo em vista que a música foi feita com o Brasil em mente, ainda na pandemia, como a própria Jessie revelou via Instagram, não é surpresa que ela soe tão viva. Ademais, a universalidade desse sentimento faz da canção a trilha perfeita para aqueles que anseiam por um recomeço, seja ele em um relacionamento, no trabalho, ou na vida pessoal. Afinal de contas, todos nós merecemos uma segunda chance. — Marcelo Henrique

1

Lana Del Rey, “A&W”

Há alguns anos, Lana Del Rey disse que cada um de seus álbuns representava sua perspectiva do sonho norte-americano ao longo do tempo. Se cada um de álbuns era um encapsulamento de toda uma sociedade, seus eus-líricos eram justamente uma mimetização do arquétipo mais potente acerca das mulheres, basta olhar para a jovem deserdada por sua mãe e que transa com homens mais velhos de “Ride” ou a reencarnação de Sylvia Plath no mundo moderno de NFR!. Nesse sentido, “A&W”, uma das canções mais afiadas de Del Rey, é uma de suas análises diarística feminista mais fortes até então: transcorrendo seu passado sombrio, ela constrói um arquétipo de mulher para si mesmo, mas que dialoga com toda uma nação. A canção começa com a perda de sinais da inocência (“I haven’t done a cartwheel since I was nine / I haven’t seen my mother in a long, long time”) e logo avança para sinais de autodepreciação existente unicamente pela perspectiva de terceiros: “Look at the length of my hair, and my face, the shape of my body”. Seu desenrolar, todavia, é ainda mais amargo, ressaltando a cultura violenta de culpabilizar mulheres mesmo quando são vítimas de estupros: “If I told you that I was raped / Do you really think that anybody would think / I didn’t ask for it? I didn’t ask for it / I won’t testify, I already fucked up my story”, ela canta. Sua caneta, ao percorrer temas universais e transcrevê-los como desabafos íntimos, se torna uma maneira de sintetizar sentimentos e torná-los facilmente identificáveis. No final, quebrando com o estilo folk-singer-songwriter e apostando em batidas eletrônicas e trap, Lana usa samples de “Shimmy Shimmy KO KO Bop”, de Little Anthony & The Imperials, em que um homem é introduzido a uma mulher exótica, mas que aqui se subverte em suas temáticas sexuais e sociais: e se ela contar para a mãe dele tudo que vem acontecendo? Bem, eu acho que eles sempre se safam. — Leonardo Frederico

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