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Beyoncé, foto por Rafael Pavarotti; Bjork, foto por Viðar Logi; Black Country, New Road, foto por Rosie Foster; Black Midi, foto por Dan Kendall. Charli XCX, foto por Emily Lipson; Coraline Polachek, foto por Nedda Asfari; Jessie Ware, foto por Jack Grange; JID, foto por David KA; Kendrick Lamar, captura de tela do clipe de The Heart Part 5; Rina Sawayama, foto por Thurstan Redding; Taylor Swift, foto por Beth Garrabrant;dall
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As 50 Melhores Músicas de 2022

Apresentando a lista das melhores músicas de 2022, contando com Beyoncé, Black Midi, Jessie Ware, Kendrick Lamar, Taylor Swift, The Weeknd e mais!
POR SoundX Staff
dezembro 5, 2022

Uma das principais dificuldades em planejar a organização de análises musicais se deve ao princípio básico de unidade. Em um ano cuja sensação de normalidade voltou a pairar sobre nossas vidas, selecionar canções, sejam quais forem, para representar esse período que vivemos, além de devidamente complicado, é algo que também demanda senso de unidade. Assim como no ano passado, a equipe da SoundX se reuniu durante vários dias para eleger dezenas de trabalhos de diferentes artistas ao redor do mundo.

Nesse processo, a unidade de ideias, representada pela escolha coletiva dos nossos redatores, prevaleceu acima daquilo que consideramos como parâmetro de análise musical. São opiniões diversas que, somadas uniformemente, resultaram em 50 canções unidas pelo elo inalienável do que perdurou ao longo deste ano: a licitude artística de um mundo que se recupera de um trauma recente.

50

Tove Lo & SG Lewis, "Pineaple Slice"

Completamente explícita, “Pineaple Slice” é um dance pop com elementos da synthpop extremamente dançante e viciante. Do poder da sensualização à declarações sexuais referente a sexo oral, a faixa explora conteúdos geralmente proibidos e socialmente negativos de modo peculiar. Assim como Madonna em Erotica de 1992, Tove Lo não respeita os limites impostos socialmente que determinam quais assuntos podem ou não ser abordados. Seres humanos fazem sexo, gostam de sexo e, assim como com tantas coisas que amamos, cantamos sobre sexo. É, por acontecimentos históricos, como o próprio lançamento de Madonna e outras mulheres que quebram essa barreira machista que proíbe a mulher de ter prazer com o próprio corpo e se expressar sobre isso, que Tove Lo consegue deixar claro ter se alimentado de uma fatia de abacaxi para modificar o sabor de seu próprio fluído corporal, para seduzir sua(o) parceira(o) sexual durante um oral. É intrigante, polêmico, excitante. É exatamente como deveria ser. — Vinícius Servano

49

Weyes Blood, "Grapevine"

Uma faixa que caminha por diversos momentos de melancolia e nostalgia, usando o folk característico dos anos 60 para isso. Weyes tem a capacidade incrível de construir narrativas com uma facilidade imensa, e, aqui, ela apresenta um período que foi congelado pelo tempo, e nele, duas pessoas estão juntas de forma romântica, usando um local californiano para fixar esse relato. “Grapevine” salpica momentos de psicodelia — que está diretamente ligada ao folk secular —, e isso adiciona um toque ainda mais delicioso na canção, que cresce pouco a pouco até explodir de forma grandiosa em seu final. Mais uma exemplificação do talento de Weyes e sua capacidade de contar histórias embaladas por canções que cabem como uma luva, tornando tudo um grande filme. — Kaue Santana

48

Safety Trance & Arca, "El Alma Que Te Trajo"

Safety Trance e Arca, ambos produtores venezuelanos, naturais de Caracas, com suas abordagens voltadas aos ritmos e instrumentos locais — como o reggaeton e o furruco, influências para a genial “KLK”, de 2020 —, juntam-se para “El Alma Que Te Trajo”. Essa canção foi escrita, em meio a outras, para constituir o KICK ii, mas acabou por não compreender o álbum e, quase, ser engavetada. Felizmente, a presente faixa foi lançada como single: as batidas são fortes e envolventes e a melodia é cativante. De fato, “El Alma Que Te Trajo” é uma banger e, definitivamente, requisito essencial em todas as festas. — Kaique Veloso

47

Ludmilla, "Maldivas"

Composta para eternizar um momento especial, “Maldivas” é fruto do amor de Ludmilla por Bruna, sua companheira. Além do sentido romântico, que, por si só, já é suficientemente encantador, a música também se trata de um ato de resistência. Quando cantada ao vivo, a artista e sua esposa não temem demonstrar afeto, algo que surte um efeito extremamente importante para o espaço em que essa canção se dá, no caso, o pagode, que, desde o seu surgimento, sempre fora representado categoricamente por narrativas amorosas heteronormativas. Nas mãos de Ludmilla, por outro lado, vemos essa subversão ganhar um destaque notório e que a coloca diretamente no seio da história da música brasileira. — Matheus José

46

Xênia França, "Ancestral Infinito"

A sexta faixa do álbum Em Nome da Estrela é a abstração elevada a nível máximo, quase palpável. Os mergulhos transcendentais nas percussões bem localizadas, adornadas com detalhes eletrônicos sublimes, potencializam a busca da ancestralidade da artista e, a partir dela, sua trajetória subsequente. O desfecho com a frase “Ancestral, maternal, infinito” em repetição é o entendimento magistral da infinitude que cerca não apenas a canção, mas também o processo. — Felipe Ferreira

45

Black Country, New Road, "Basketball Shoes"

Originalmente falando sobre um sonho erótico que o vocalista Isaac Wood teve com a cantora Charli XCX, “Basketball Shoes” passou várias revisões na parte lírica antes de finalmente ser adicionada ao álbum. Em sua versão final, a faixa de encerramento de Ants From Up There é um épico de doze minutos, que resume e faz referências à vários temas abordados no decorrer do álbum, como o avião Concorde que representa um relacionamento falho, ou o Clamp (em português, algo como “gancho”), que representa a ansiedade sentida por Isaac. A primeira parte da música começa com uma introdução instrumental bem longa, remetendo ao som de várias bandas clássicas de post-rock como Godspeed You! Black Emperor e Sigur Rós. Após o primeiro verso, a música muda de clima e quebra em um instrumental com uma enorme influência emo, que, rapidamente, dá-nos um pequeno gosto das épicas proporções que a canção alcança na sua terceira e última parte. Com uma versão muito mais pesada do riff inicial, que atinge o ouvinte como um soco, e coros de apoio dignos de uma performance de ópera, a faixa encerra em um tom grandioso, que arrepia ao ouvir, perfeitamente encerrando o projeto e o estabelecendo como um ponto extremamente alto na carreira da banda. — Matheus Henrique

44

Joji, "Glimpse Of Us"

Joji, com “Glimpse Of Us”, entrega não apenas umas das melhores canções de sua carreira, como também uma das faixas mais emocionantes do ano. Nela, o artista, além de trazer uma de suas letras de maior excelência, falando em composições excelentemente escritas e que conseguem passar com maestria as emoções do eu-lírico sobre sua dificuldade em superar um fim de um relacionamento, também traz uma performance vocal encantadora e, igualmente ao seu lirismo, carregada de emoção. — Davi Bittencourt

43

Natalia Lafourcade, "Pajarito colibrí"

Em “Pajarito colibrí, a cantora e compositora Natalia Lafourcade cria um dos mais belos momentos de sua carreira, e quem conhece a trajetória da artista sabe que isso não é pouca coisa. Com um simples arranjo de violão que, conforme a música vai se desenvolvendo, é acompanhado por outros instrumentos como o piano, violino e violoncelo, Natalia usa a imagem de um passarinho beija-flor para descrever alguém que tem inseguranças na vida ao ponto de ter medo de viver. E, apesar de, na canção, Natalia estar falando com esse beija-flor, a sensação passada, é de que, na verdade, ela quer falar diretamente com o ouvinte quando diz “Tudo está bem beija-flor, não tenha medo de viver, você veio até esse mundo para ser feliz”, entre outros conselhos e frases confortantes que ela oferece. Essas letras, a instrumentação belíssima e os coros vocais, que ganham mais destaque na parte final da faixa, criam, em apenas cinco minutos, uma jornada linda e emocionante, que mostra o talento puro que Natalia Lafourcade tem para criar baladas que são lindas e tocantes. — Matheus Henrique

42

Beach House, "Superstar"

“Superstar” é um poema melódico. Com versos sobre a morte e a valorização da vida, Beach House transporta a insegurança e incerteza da vida em uma faixa emotiva e melodicamente bem estruturada. O impressionante é não só em “Superstar”, mas em todo disco, como a banda conseguiu com diversos elementos criar algo tão bem casado e coeso. A melodia, assim como já expressada no título do álbum: One Twice Melody, é a exposição da beleza na construção melódica das sensações e sentimentos. — Vinícius Servano

41

Ravyn Lenae, "Venom"

Cautelosa, Ravyn Lenae fisga sua atenção construindo uma atmosfera ambígua. “Venom” brinca com os vocais doces da cantora em uma sonoridade futurista resultante da combinação de R&B, EDM, pop e house. Mas é uma armadilha, pois o eu lírico está rasgado por ressentimento e astuto o suficiente para traçar um destino doloroso e incapaz de fuga para o seu agressor. Não adianta, o assassino do destino irá te pegar. — Felipe Ferreira

40

Soul Glo, "Gold Chain Punk (whogonbeatmyass?)"

“Velocidade” e “agressividade”. Essas são duas palavras que provavelmente estavam na mente do grupo Soul Glo quando eles criaram seu segundo álbum de estúdio, Diaspora Problems; e, em “Gold Chain Punk (whogonbeatmyass), a faixa de abertura do LP, eles  fazem jus a isso. A canção começa com riffs que remetem ao punk clássico dos anos 70 e com o vocalista Pierce Jordan gritando e perguntando repetidamente “Eu posso viver?” e se ele pode “discordar da voz que diz que meus erros são a única razão de eu existir, de uma maneira muito alta para eu conseguir questioná-la”. Uma pequena demonstração das críticas sociais, políticas, e raciais, que perduram pelo projeto inteiro. A faixa rapidamente se transforma em uma explosão de hardcore-punk, com riffs extremamente pesados e rápidos, que transmitem uma energia que nenhuma outra banda em 2022 conseguiu transmitir. Tudo isso faz com que essa seja uma música perfeita para nos apresentar a Diaspora Problems, pois ela define, da maneira mais brutal possível, toda a agressividade que Soul Glo apresenta nesse LP. — Matheus Henrique

39

Alvvays, "Velveteen"

A canadense Alvvays, banda indie rock de cinco integrantes, teve um longo hiato desde seu último projeto em 2017. Seu retorno foi marcado pelo lançamento de Blue Rev. Sonoramente diverso e liricamente contemplativo, esse álbum conta com cortes de destaque, principalmente “Velveteen”. Nesse sentido, a faixa que aborda o estágio inicial de uma traição tem a bateria bem marcada e a guitarra revigorante e jovial. Na letra, Molly Rankin observa as mudanças no comportamento do parceiro e busca razões para explicar aquilo que ela suspeita: “Is she a perfect ten? / Have you found Christ again?”. Enfim, “Velveteen” é apenas a parte do quebra-cabeça com a imagem mais chamativa; as outras peças, contudo, combinam-se a esta e formam o retrato completo da paisagem mesmerizante de Blue Rev. — Kaique Veloso

38

Taylor Swift, "Lavender Haze"

Abrindo o décimo álbum de estúdio da cantora Taylor Swift, Midnights, “Lavender Haze” cumpre perfeitamente a proposta de abertura. Swift se inspirou em seu relacionamento com o ator Joe Alwyn na composição da música, cujo título se refere sobre estar apaixonada. Nela, são abordados os rumores de noivado e casamento em que ela expressa vertigens, que ela julga ser cedo demais, e também é notável um certo tom de erotismo na canção. A produção se baseia em um eletropop com uma boa performance vocal de Swift, com direito a falsetes e vocais de fundo da atriz e cantora Zoë Kravitz. — Lucas Lima

37

Red Velvet, "Feel My Rhythm"

A revitalização de peças da música clássica através de samples e interpolações é um exercício arriscado, que envolve uma articulação criativa sólida para funcionar. Em 2022, “Air on the G String”, de Johann Sebastian Bach, se encontra com o grupo feminino Red Velvet e resulta em um dos maiores acertos (se não o maior) dessa combinação na história do k-pop. “Feel My Rhythm” apresenta uma atmosfera primaveril e agridoce, concatenando o elegante, a alegria e a estranheza, como Irene canta no primeiro verso: “We’re back, cute chaotic delight”. Com uma abertura fabulosa nos primeiros segundos, logo depois um mar criativo se abre, com batidas eletrônicas se confundindo com instrumentos de corda e o próprio sample, que é arranjado durante toda a música com aplicações diversas, transformando-se em uma constante e não apenas num elemento extra. Clássico instantâneo é a locução adjetiva mais apropriada para definir a canção, que também é responsável pelo maior viral sul-coreano do ano: o pré-refrão encabeçado por Joy, que canta os versos: “Blow confetti / Let off more fireworks”. Com oito anos de carreira, Red Velvet ainda se mostra em completa forma, como um grupo disposto a enriquecer seus conceitos artísticos e extrapolar os limites da indústria. O título de “concept queens” cedido a elas é uma verdade cada vez mais incontestável e consolidada. — Felipe Ferreira

36

FKA twigs, "oh my love"

A narrativa se constrói através da ideia da perda de tempo ao estar em uma relação em que somente um indivíduo quer algo sério. “oh my love” se inicia com um diálogo, em que Suzannah Pettigneu relata a experiência de pensar estar vivendo uma relação mais aflorada com uma pessoa, sendo que, para essa outra, isso tudo não passa de algo casual. A música, mesmo que lenta, tem seu viés caloroso, facilitando o encaixe perfeito do embalo da música com o que está sendo exposto. A combinação do tempo funciona muito bem, principalmente se tratando de três personagens principais. Além disso, ao demonstrar a sua insatisfação com relacionamentos, onde ela se vê enquanto um objeto descartável, Sakira, finaliza a canção, mostrando a ela o seu verdadeiro valor. — Brinatti

35

Ethel Cain, "American Teenager"

Por mais que Preacher’s Daughter, o primeiro disco de Ethel Cain, tenha canções que brilhem dentro de um gradiente que parte de um diário íntimo de violência infantil (“Hard Times”), para canibalismo na adolescência (“August Underground”), é “American Teenager” que se destaca. Essa, o terceiro e último single lançado pela cantora para Preacher’s Daughter, é menos visceral em sua temática, tratando da experiência adolescente estadunidense. “Grew up under yellow light on the street / Putting too much faith in the make-believe / And another high school football team”, Ethel canta. No entanto, o relato é mais profundo, com as metáforas que ressignificam as experiências que, assim como no restante do disco, são retratadas. “The neighbor’s brother came home in a box / But he wanted to go, so maybe it was his fault”, remonta a violência da guerra e alienação, enquanto: “With your fists for once, a long cold war / With your kids at the front” demonstra como tudo isso é um reflexo, primeiro, nos jovens. Para além disso, a canção é o momento mais cativante do álbum, com riffs de guitarras mais despojados e batidas de sintetizadores que são capazes de criar o imaginário de um verão de cores quentes e poeira. Em outras palavras, “American Teenager” é o ponto perfeito entre qualidade e habilidade de cativar. — Leonardo Frederico

34

Angel Olsen, "Right Now"

“Right Now” retrata a delicadeza de um relacionamento amoroso em que a parceira de Angel Olsen ainda não assumiu a sua sexualidade. A cantora conta como não consegue mais viver numa mentira e esconder os seus verdadeiros sentimentos, querendo que a parceira seja corajosa e encontre ela “fora do armário”, pois ela não pode mais viver assim, não sendo ela mesma, nem honesta para com o mundo. A canção é um ápice do desespero da artista, notando-se tanto pela produção, quanto pela lírica, a extrema mágoa que Olsen está sentindo. — Gerson Monteiro

33

Tulipa Ruiz & Negro Leo, "Pluma Black"

Para além das escolhas instrumentais assertivas, ainda podemos notar o quão inteligente são as composições presentes em Habilidades Extraordinárias. Em uma das melhores canções do álbum, “Pluma Black”, parceria com Negro Leo, Tulipa Ruiz desponta da repetição de fonemas para formar uma aliteração a partir da letra L, como no trecho: “Iglu, glúten, glacê, clima, clube, chiclete, flecha, anglo, glote / Clitóris, glande, plasma, plágio amplo, pluma black”, o que rende uma combinação genial entre os dois principais fatores do disco, no caso, os arranjos e as letras presentes nele. — Matheus José

32

MUNA, "Silk Chiffron" (feat. Phoebe Bridgers)

“Silk Chiffon” é a faixa de maior sucesso comercial da banda feminina MUNA, presente no álbum autointitulado lançado também em 2022.  Contendo um dos melhores pré-refrões e refrões do ano, a faixa traz todos elementos necessários para uma música pop radiofônica e divertida. Sendo um descolamento com a realidade e a valorização de momentos íntimos e divertidos, a faixa trouxe à tona a adrenalina de uma dança, de uma corrida de patins ou de observar um corpo amado. “Silk Chiffon” é, nos tempos atuais, como o encontro de Van Gogh com o vaso de lírios de uma de suas maiores obras: estar presente no agora, apreciando os pequenos momentos e as grandes belezas que o mundo oferece e são ignoradas por uma preocupação excessiva com o passado e com o futuro. — Vinícius Servano

31

Denzel Curry, "Walkin"

“Walkin” é uma das raras vezes em que o lirismo de Zel supera a sua energia. Denzel discute as lutas de caminhar pela vida, lidando com as forças opressivas do capitalismo e demônios que cruzam o caminho da vida de alguém (“Walkin’ with my back against the sun / I’ve been runnin’ all my life, that’s way before my life begun”). A cadência do artista é extremamente fenomenal e traz um peso ainda maior na letra. Um verdadeiro destaque para o cenário hip-hop que merece mais atenção, tanto da crítica especializada como do mainstream. — Gerson Monteiro

30

Yeule, "Bites on My Neck"

As doenças são coisas que te corroem e te debilitam. São processos invariavelmente instáveis e de proporções variáveis — podem ser simples e efêmeros, mas podem ser crônicos e causarem dor excruciante. São, no entanto, umas das poucas experiências que podemos chamar de nossas. Nenhuma pessoa no mundo jamais as sentiu da mesma forma que nós as vivenciamos. Isso porque a enfermidade é um estado muito além da avariação do corpo biológico, mas que também depende da somação de fatores sociais. A experiência humana é capaz de modificar completamente a trajetória de uma pessoa doente. É, nesse sentido, que a singapurense yeule escreve “Bites on My Neck”. Essa faixa relaciona o debruçar-se de um amor à manifestação de uma enfermidade crônica e de dor excruciante. A canção, que conta com efeitos glitch e gritos ensurdecedores em sua produção, apresenta-se como uma peça pura sobre o desespero de se apaixonar. Ninguém nunca sentirá o amor da mesma forma que sentiremos e já sentimos alguma vez: é único. Mas, incrivelmente, todos se recuperam disso. Ainda que doa agora, passará. — Kaique Veloso 

29

Newjeans, "Hype Boy"

Fugindo dos sons agressivos responsáveis por marcar a atual geração da música pop sul-coreana, o NewJeans fez a sua estréia pendendo para um lado pouco, ou quase, nada explorado no k-pop. Cantando sobre o amor, em “Hype Boy”, elas se curvam diante de melodias leves e ritmo sonhador, o que revela um aspecto nostálgico responsável por transmitir uma energia acessível conjunta de paisagens sonoras que remetem ao pop estilístico do início dos anos 2000, no qual as características YK2 se fundem com distorções e embalos vocais aveludados. O R&B, que se posiciona ao lado de arranjos repetitivos, acrescenta ainda mais sentido a música na qual, apaixonadas, elas exclamam: “Eu só quero ouvir que você é meu”. – Matheus José

28

Kendrick Lamar, "Mother I Sober"

“Mother I Sober” é extremamente fascinante. Sua instrumentalização, apesar de simples durante boa parte da faixa, sendo, em mais da metade de sua duração, composta apenas por um piano, consegue ser graciosa, enquanto que a performance de Kendrick Lamar, como de costume em seus trabalhos artísticos, é bastante primorosa. E se a música já é excelente nestes aspectos, é na sua letra que se encontra sua maior qualidade, com a composição da canção sendo não apenas uma das mais excepcionais do ano, como também uma das melhores da carreira do rapper. Nela, o artista trata sobre temas relacionado ao abuso sexual em pessoas negras, refletindo sobre como isso pode causar grandes traumas, como, por exemplo, nele próprio e sua família. Porém, o forte da faixa acaba sendo quando Kendrick  revela que sua mãe já havia sido violada sexualmente e como isso traumatizou tanto ela ao ponto de ter um medo do mesmo acontecer com Kendrick: “I asked my momma why she didn’t believe me when I told her “No” / I never knew she was violated in Chicago, I’m sympathetic / Told me that she feared it happened to me, for my protection / Though it never happened, she wouldn’t agree”, canta o artista em uma das partes mais fortes liricamente de “Mother I Sober”. — Davi Bittencourt

27

Arctic Monkeys, "There’d Better Be a Mirrorball"

Com “There’d Better Be a Mirrorball”, a recitação da autodepreciação romântica e expressão dos sentimentos de superação de um amor doloroso, Arctic Monkeys explora instrumentos reais como piano, bateria e violino, resultando numa faixa emotiva, sincera e intimista. São os sentimentos causados pela rejeição — mesmo que não esteja claro se essa é real ou paranóica do eu lírico — que determinam a mensagem final da canção. A valsa criada pelo instrumental e a composição conseguem transmitir uma necessidade de vingança. É o bradar de uma necessidade pessoal que precisa ser cumprida, a valorização do eu, o amor-próprio narcísico e solitário de um homem que não se sente amado. — Vinicius Servano

26

Tove Lo, "No One Dies From Love"

No embalo dos elementos oitentistas estabelecidos nesses últimos tempos, Tove Lo marca o seu retorno de forma triunfante. “No Ones Die For Love” mostra a facilidade da artista em se enquadrar em algo que está em alta no meio fonográfico. Essa é carregada de sentimentos que se entrelaçam a saudades e lembranças de um antigo amor. “No one dies from love / Guess I’ll be the first / Will you remember us / Or are the memories too stained with blood now?”, ela canta. O teor melodramático, fez com que Lo, diante do início reprimido, tenha o seu sentimento libertado, explorando suas emoções ao embalo da forte explosão que a canção carrega. — Brinatti

25

ROSALÍA, "BIZCOCHITO"

Entre as músicas que estão dentro do MOTOMAMI, “Bizcochito” sem dúvidas é uma das que mais se destacam. A canção, que tem menos de dois minutos, não aparenta ter um problema, devido ao efeito harmônico que ela carrega. Além disso, facilmente qualquer pessoa se sente preso ao seu ritmo intenso e versos chicletes, que se perduram na cabeça de quem escuta. O melhor nisso tudo é que Rosalía não deixa em nenhum momento que a melodia se perca, tornando-o original e único. — Brinatti

24

JID, "Surround Sound" (ft. 21 Savage, Baby Tate)

Três conterrâneos de Atlanta se unem em uma parceria potente traçando paralelos sobre suas trajetórias, dentro e fora da indústria do rap. JID, 21 Savage e Baby Tate flexionam experiências da infância e adolescência, em meio a linhas afiadas construindo alegorias, principalmente sobre criminalidade e a relação adoecida com o dinheiro. A decisão de usar o sample de “One Step Ahead”, de Aretha Franklin, como ponto de partida é também metalinguística, pois JID materializa suas tentativas constantes de fugir do caos barulhento que o cercava enquanto crescia. Brutal e viciante, como uma união de rappers deve ser. — Felipe Ferreira

23

Black Country, New Road, "The Place Where He Inserted The Blade"

Considerada por muitos fãs a melhor canção do álbum, e por alguns a melhor da banda, “The Place Where He Inserted The Blade” vê Black Country, New Road alcançando picos de êxtase sonora nunca antes vistos por eles. Com letras que fazem várias alegorias com o ato de inserir uma lâmina em um ingrediente para cozinhar, e metaforicamente inserir uma lâmina em uma pessoa (decepcioná-la), a música conta com uma construção impecável, que, conforme progride, vai ficando mais e mais tocante. Um lindo ápice é alcançado no final, com vários vocais de fundo, semelhantes a um coro, cantando uma melodia que pode até lembrar o ouvinte do clássico “Hey Jude dos Beatles, criando, assim, um dos momentos mais belos e emocionantes da música de 2022. — Matheus Henrique

22

Big Thief, "Dragon New Warm Mountain I Believe in You"

Se Dragon New Warm Mountain I Believe in You, por si só, já era capaz de concretizar e amalgamar as melhores facetas do Big Thief, a canção-título do quinto álbum da banda de Nova Iorque intensifica isso ainda mais, em um espaço enxuto, mas que é potencialmente grande. Ela começa com puxões em um violão desafinado, sons de sinos do vento e os vocais que se perdem entre algo místico ou alienígena. Não demora muito e os vocais inconfundíveis de Adrianne Lenker aparecem, pintando cenários oníricos de uma criança, lembrando o ambiente familiar dos primeiros álbuns. “There’s a dragon in the phone line / Coughing up a mighty flame / With a tongue of silver, silver / Calling out my oldest name / She says, ‘Hey, you do you remember me too?’”, Lenker canta, perdendo-se entre essas cenas de beleza e simplicidade. Em “Dragon New Warm Mountain I Believe in You”, assim, existe uma inocência que te faz, novamente, acreditar em magia. — Leonardo Frederico

21

Charli XCX, "Used To Know Me"

De forma metafórica, Charli XCX, dentro de “Used To Know Me”, relaciona o ato da flor desabrochar com o término de um relacionamento. A personagem principal, mesmo que não descrita, passa pelo processo do fim de uma relação e, principalmente, a sensação da vida dela após esse processo: “Held me back, tield me up inside a cage […] couldn’t see you were standing in my way I can see clearly now”. Além disso, a artista aqui se mostra uma figura importante para a música pop, em que o medo de cometer algum deslize passa despercebido diante de diversos experimentos que fluem perfeitamente, como, principalmente, o sampleamento de “Show Me”, de Robin S, que deu um viés mais harmônico e dançante para a canção. — Brinatti

20

Arca, "Bruja"

Arca, no ano passado, lançou, de surpresa, quatro novos álbuns inéditos. O principal deles é, certamente, KicK iii, que conta com a faixa de abertura “Bruja”. Nesse ínterim, o disco que se caracteriza, talvez, por ser o mais abrasivo de toda sua carreira, inicia-se com uma frenética e imprevisível canção experimental, que aposta nos versos freestyle como condutores dessa energia. Saltos-altos pretos, lábios vermelhos e toda sua gangue de “muñecas”… a verdade é que “Bruja” impõe respeito pela luxúria, mas choca pela sua total insanidade. Ela sinaliza que, embora a carreira de Arca tenha tomado um rumo mais comercial, seus pés estão flutuantes, preparados para pousar em um terreno completamente desconhecido. — Kaique Veloso 

19

Björk, "Atopos"

Após 5 longos anos de espera desde seu último álbum, o fantasioso Utopia, Björk retornou com “atopos”. Definido por ela como um techno biológico, a faixa se destaca pelas suas batidas e energia vibrante, fazendo jus à promessa de ser “uma balada dentro de casa”. No que tange à composição, Björk lança suas hifas ao solo na busca de um semelhante para formar conexões. Assim como um fungo que desafia o permafrost pela sua sobrevivência, a islandesa reconhece que sua terra pode ser ligeiramente hostil ao desenvolvimento de um novo amor. Em suma, “atopos” dispersou os esporos que geraram os 13 cortes únicos de Fossora, um panegírico virtuoso de sua ancestralidade e maternidade. — Kaique Veloso

18

Mitski, "Love Me More"

A dor é um fenômeno complexo que ultrapassa o conceito de nocicepção. Quando se bate o braço em uma mesa, seu primeiro reflexo é esfregar, pois a estimulação dessa região por tato inibe a informação da dor no sistema nervoso. Além disso, ela depende de fatores emocionais: a dor de cotovelo é real. Em “Love Me More”, Mitski sofre com suas inseguranças e medos, principalmente aqueles de não ser suficiente para seu companheiro: “If I keep myself at home / I won’t make the same mistake”, e compara esse sentimento à existência de uma coceira que não pode ser coçada. É brilhante como essa faixa synthpop, bastante representativa de seu álbum Laurel Hell, consegue transpor as emoções de alguém inseguro e relacionar com a experiência de dor fisiológica que não pode ser aliviada. Apesar de, aqui, Mitski ter deixado de lado sua vertente no rock e abraçado o lado pop — que tanto fez sucesso entre o grande público —, “Love Me More” ainda é surpreendentemente uma peça singular e significativa. — Kaique Veloso

17

Weyes Blood, "God Turn Me Into A Flower"

Weyes Blood em “God Turn Me Into A Flower” entrega uma canção a qual é capaz de encantar o ouvinte em um nível que poucos lançamentos musicais este ano além desse conseguiram. Seu primor pode ser visto em diversos aspectos: em sua composição, Natalie Mering mostra em letras muito bem escritas seu fascínio com o mito de Narciso e seu desejo de, como o personagem da história mitológica, transformar-se em uma flor e tornar-se algo delicado, fugindo da brutalidade que o crescente narcisismo em  nossa sociedade atual está causando. Enquanto que, a maneira como a música foi produzida é o que mais a torna encantadora e primorosa. Mering junto à Jonathan Rado fazem um uso fenomenal de certos elementos, como os sintetizadores, cordas e, especialmente, os graciosos cantos de pássaros ao produzi-la. Mas não só  por isso este é um quesito de grande destaque, como também, por ser impressionante como a produção parece ter um crescimento que tenta acompanhar a letra com esse desejo da cantora de se transformar em uma flor. A faixa vai adicionando aos poucos sons que remetem a natureza de modo a criar gradualmente uma atmosfera na faixa que lembre a de um jardim. Ademais, seu vocal aqui soa bastante doce e amável, sendo um fator que torna “God Turn Me Into A Flower” ainda mais surpreendente. — Davi Bittencourt

16

Rina Sawayama, "Hold The Girl"

Faixa-título do segundo disco de Rina Sawayama, tem uma ótima composição em que a artista trata tanto sobre trauma, quanto a catarse de seguir em frente na vida. Sawayama escreveu essa música após uma sessão de terapia lá em 2020, e essa se torna um grande destaque por sua maturidade. O tema central se refere ao amor-próprio, que consegue criar identificação tanto com Sawayama, quanto com qualquer outra pessoa. Sua produção consiste em um dance pop com vocais em estilo R&B, que entraram perfeitamente em contraste. Dessarte, é uma ótima música que marca um dos maiores destaques da música pop atual. — Lucas Lima

15

Jessie Ware, "Free Yourself"

Em 2020, com What’s Your Pleasure?, Jessie Ware lançava um dos discos que melhor traziam uma sonoridade inspirada nos anos 80 dos últimos tempos, figurando-se, junto à artistas como The Weeknd e Dua Lipa, como um dos principais nomes na tendência retrô ocorrida naquele ano na indústria fonográfica. Agora, em 2022, a artista faz seu retorno com “Free Yourself” explorando novamente o cenário musical da década de 80 e, nela, ela consegue entregar uma música disco-pop tão excelente quanto às canções de seu último registro. A faixa, além de bastante divertida, conta com produção que retraça elementos do disco e house de maneira primorosa. Isso cria, na canção, uma atmosfera oitentista fantástica e, ainda por cima, uma performance vocal surpreendente da cantora, especialmente no refrão, que faz “Free Yourself” tornar-se ainda mais excepcional. — Davi Bittencourt

14

Caroline Polachek, "Billions"

É de conhecimento geral que Caroline Polachek sabe, assim como ninguém, usar os seus vocais voláteis para criar espaços e ambientes que nenhuma produção sintética é capaz de fazer. Em “Billions”, ela vai além de tudo que já havia experimentado antes em termos de alcance vocal. Aqui, a cantora discorre sobre uma dezena de temas como alguém que vê de fora os sentimentos humanos através de uma visão ofuscada por detalhes sórdidos da incapacidade de raciocínio: “Lies like a sailor / But he loves like a painter”, canta ela em uma de suas frases certeiras. Co-produzida por Danny L Harle, a faixa dispõe de uma mistura texturizada de sons eletrônicos desajustados e timbres quase impossíveis de serem replicados. Caroline, em seu máximo cuidado, parece tecer um caminho que, com base no presente ousado, talvez nem ela será capaz de replicar tamanha façanha no futuro. “Billions” é uma música pop densa, profunda e extremamente bem produzida, coisa que pouco vemos ultimamente — um destaque que coloca Polachek à frente de muitos artistas atualmente. — Matheus José 

13

The Weeknd, "Gasoline"

Capturando a essência dormente de enfrentar um engarrafamento no purgatório às cinco horas da manhã, “Gasoline” é a primeira música que o ouvinte da rádio Dawn FM ouve após a primeira vinheta quase fantasmagórica de Jim Carrey. The Weeknd está em todos os estágios mais deploráveis que a combinação do fim de uma festa e o quase amanhecer proporcionam: desesperançoso, inquieto, ao ponto de sofrer uma overdose. Arranjado por distorções de voz e sintetizadores angustiantes, Abel implora para que o seu amor não deixe essa relação parasitária para não cair em desgraça. Um ótimo jeito de compreender o caos que nos aguarda e a capacidade do cantor em materializar os conceitos de seus trabalhos a nível de sinestesia, formigando todos os sentidos que o corpo é capaz de ter. Felipe Ferreira

12

Black Midi, "Sugar/Tzu"

Em seu terceiro e último single para o álbum Hellfire, Black Midi dá continuidade ao pequeno conceito que é explorado no LP de histórias contando atos de malícia e perversidade humana. Em “Sugar/Tzu”, nós temos a história de dois lutadores de boxe: Sun Sugar e Sun Tzu, ambos estão prestes a lutar um contra o outro, porém, em uma tentativa desesperada de ganhar fama e reconhecimento, Tzu assassina Sugar com um tiro nas costas, pouco antes da luta iniciar. Toda essa história é contada através dos vocais dramáticos e propositalmente exagerados de Geordie Greep, apoiados pelo instrumental caótico pelo qual Black Midi é bem conhecido. No caso dessa faixa, há um grande destaque aos arpejos malucos de guitarra e baixo que são tocados entre um verso e outro, esses que são de fazer qualquer um ficar de queixo caído e se perguntando como a banda consegue tocar algo que conta com esse nível altíssimo de dificuldade. A canção atinge o ápice no seu final, guiada pela percussão incansável do baterista Morgan Simpson, temos uma explosão sonora de proporções épicas, que apenas uma banda como Black Midi conseguiria criar. — Matheus Henrique

11

Beyoncé, "America Has A Problem"

Com o anúncio do título “AMERICA HAS A PROBLEM”, muitos esperavam uma música de militância sobre os problemas que os Estados Unidos enfrentam, tal como a segregação racial e o sistema político norte-americano, tópicos abordados anteriormente pela artista em Lemonade e no single “BLACK PARADE”, de 2020. Quando ouvimos a canção, porém, deparamos com o verdadeiro problema da América, a própria Beyoncé.

A artista está se comparando as drogas e o seu alto poder de dependência, que faz com que o seu homem fique perdidamente enamorado nela, usando até mesmo um sample de Kilo Ali, de 1990, da faixa “America Has A Problem (Cocaine)”. A dona de RENAISSANCE traça um paralelo semelhante neste compasso, aparentemente reconhecendo que, embora o parceiro possa ser igualmente viciante e potente, ele não se compara ao que ela tem a oferecer. E para contrastar com este tema, a própria produção desta música é extremamente viciante, lembrando uma boate à noite dos anos 1980, com uma batida e energia que nos vai elevar da maneira que só a Beyoncé consegue. — Gerson Monteiro

10

Taylor Swift, "Midnight Rain"

Em Midnights, Taylor Swift quebra com suas sequência de discos alternativos e de regravações para retornar ao seu status pop. Produzido inteiramente por Jack Antonoff, o registro remonta diversas facetas anteriores, líricas e sonoras, em prol de um álbum elegante, minimamente ousado e fortemente familiar. Todavia, “Midnight Rain”, um meio-termo entre o novo e o velho, é o momento alto da obra. Sustentada pelo contraste entre uma voz sintetizada e os vocais de Swift, a canção revive um relacionamento que a cantora quebrou por não se sentir boa o suficiente: “I broke his heart ’cause he was nice / He was sunshine, I was midnight rain”. Enquanto isso, sintetizadores pairam e criam uma sonoridade que seria a fusão perfeita entre os sonhos de Lover (“The Archer” e “Daylight”) e o eletrônico de reputation, de 2017, Taylor afirma um certo feminismo trágico no refrão: “He wanted it comfortable, I wanted that pain / He wanted a bride, I was making my own name / Chasing that fame, he stayed the same”. “Midnight Rain”, ainda que fortemente específica, é uma canção de término altamente universal. — Leonardo Frederico

9

Tulipa Ruiz, "Samaúma"

Faixa de abertura do monumental Habilidades Extraordinárias, “Samaúma” funciona como um resumo da obra, em outras palavras, o trabalho contido nessa música é tão primordial para entender o restante do álbum que, automaticamente, ela é capaz de sintetizar boa parte da maneira única com a qual Tulipa Ruiz compõe as suas peças. A canção surge com acordes de guitarras distorcidas, linhas de baixo marcantes e uma composição lírica recheada de poesia: “Meu verbo vira espuma, eu viro espuma / Eu viro verbo, eu viro espuma”, canta ela traçando palavras rumo a um sentido quase abstrato. Samaúma, também conhecida como mafumeira, é uma árvore presente em grande parte do território latino-americano. Sagrada para os maias e também por alguns povos indígenas brasileiros, essa espécie é considerada a “mãe-das-árvores” na Amazônia devido ao seu papel de abastecer e proteger outras espécies ao seu redor. Ciente disto, Tulipa Ruiz busca ambientar o ouvinte no espaço em que ele se encontra, ouvindo-a cantar sobre uma Samaúma de 90 metros que a salvou de uma enxurrada. É fora do normal.  Matheus José

8

ROSALÍA, "CUUUUuuuuuute"

Quem diria que um simples vídeo de um rapaz cantando números viraria uma grande música de uma estrela de grande reconhecimento público? Pois é, a artista espanhola ROSALÍA usou a voz do rapaz como interpolação e fez uma canção muito divertida e peculiar ao mesmo tempo. A sua produção é recheada de camadas e, a cada segundo da música, muda-se de sentido. Ela passa por vários momentos, indo da interpolação que usou, passando por um instrumental recheado de sons e camadas, temos ROSALÍA cantando a capela e finalizando com mais instrumentais. Toda essa mistura resultou em uma faixa única e genial, tem uma ótima produção e é um dos momentos mais marcantes do disco MOTOMAMI. — Lucas Lima

7

Björk, "Fossora"

A faixa-título do décimo álbum de estúdio de Björk é um dos maiores destaques do disco. Contando com a participação do artista indonésio Kasimyn, do duo Gabber Modus Operandi, “Fossora” tem uma produção muito rica em sons exóticos, é uma grande mistura de instrumentos combinados com os vocais peculiares de Björk. Além disso, a música possui um lirismo bem incomum, na qual a artista joga metáforas que relacionam o desenvolvimento de uma relação com o crescimento de um cogumelo. — Lucas Lima

6

Kendrick Lamar, "The Heart Part 5"

The Heart é uma série de canções que Kendrick Lamar costuma lançar antes de grandes lançamentos. O quinto testamento dessa sequência surgiu em meados de maio, dias antes do lançamento de seu quinto registro, o altamente antecipado Mr. Morale & The Big Steppers. “The Heart Part 5” previu as melhores qualidades do novo álbum de Lamar, sendo essa uma das canções mais honestas e intimistas que ele já lançou até hoje. No começo, um aceno para o começo de sua carreira e seus fãs se estabelece. “I come from a generation of pain, where murder is minor”, ele canta, seguindo a temática e estrutura de seus primeiros álbuns, algo que não é somente uma homenagem para seu próprio impacto, como um movimento saudosismo de reconexão. Mais tarde, logo depois de a canção de rap ter se fundido com influências do jazz, brincando com samples de Marvin Gaye, ele se sintoniza no contexto: “Water in between us, another peer’s been executed / History repeats again”. Talvez, o outro ponto mais interessante acaba sendo a parte visual, um clipe onde Lamar usa da técnica de Deep Fake para realizar metamorfoses, assumindo as formas de personalidades em sintonia com o som — “Friends bipolar, grab you by your pockets”, canta com o rosto de Kanye West. Porém, ambos já carregam o porte de clássicos instantâneos. — Leonardo Frederico.

5

Beyoncé, "Pure/Honey"

Ao percorrer a discografia de Beyoncé, é nítido que ela apenas utiliza seus melhores artifícios para maximizar sua grandeza e explorar novas possibilidades. As faixas duplas se provaram uma empolgação criativa no seu disco homônimo, BEYONCÉ, de 2013, quando a peça “Ghost/Haunted” uniu o disruptivo fantasmagórico e o aspecto kinky do horror, direção praticamente inédita na sua carreira. “PURE/HONEY” não apenas cumpre essa expectativa, mas complexifica esse elemento-chave.

Penúltima faixa do RENAISSANCE, ela propicia a fusão de house e disco, as duas principais vertentes do álbum, na sua versão mais cunty. A primeira parte é um ode brilhante à cultura ballroom, nos ambientando num salão, prestes a entrar na próxima batalha de vogue. Beyoncé é a mestre de cerimônia, e provoca todo o baile já de início: “Bad bitches to the left / Money bitches to the right / You can be both, meet in the middle, dance all night”. Somos empurrados para o meio e dançamos com o espírito completamente livre. Mas quando o terceiro minuto está prestes a chegar, a cadência do sample de “Cunty”, de Kevin Aviance, muda e nos transporta para uma discoteca, no pico da festa. Com vocais doces como mel e sintetizadores deslizantes e saborosos, a música se encerra em glória e prepara para a exuberância e frescor do fechamento do disco. — Felipe Ferreira

4

Charli XCX, "Lightning"

Não obstante os singles perfeitamente posicionados, CRASH também brilha nos seus cortes ocultos na lista de faixas. A canção “Lightning” desafia os próprios limites do último álbum de Charli XCX: este, que baseia-se na construção e consolidação de todas as referências pop que a cantora absorveu ao longo de toda sua vida, é confrontado diretamente por uma instigante faixa electropop, a qual mistura diversos instrumentos e abordagens vocais. Seu início suave e sóbrio, seu refrão subsequente radiante e a sua ponte conflituosa — de onde surgiram essas cordas? — unem-se em uníssono prazer de escutar música pop. — Kaique Veloso

3

Weyes Blood, "It's Not Just Me, It's Everybody"

A primeira faixa de And in the Darkness, Hearts Aglow é um deleite sonoro do início ao fim. Nela, Weyes Blood explora todas as capacidades da sua voz e lirismo, mostrando o porquê de ser uma das artistas do pop alternativo mais inovadoras e místicas da última década. A canção explora como as pessoas estão constantemente a representar versões falsas de si mesmas para os outros, na tentativa de se encaixar, fazendo com que todos nós percamos a nossa própria identidade (“We’ve all become strangers / Even to ourselves”). É habilmente bem escrita e a paleta instrumental é tão bela e aberta quanto seu antecessor Titanic Rising. Só que, desta vez, notamos um progresso no desenvolvimento emocional da artista, que explora o seu lado solitário de uma maneira mais positiva, buscando refúgio na interconectividade de todos os seres e no sentimento coletivo de desgaste social. — Gerson Monteiro

2

Rosalía, "SAOKO"

Desafiando a si mesma para criar ganchos e unir elementos distintivos em prol de uma musicalidade que é, muitas vezes, indistinta aos ouvidos desatentos, Rosalía, em MOTOMAMI, parece flutuar sobre dezenas de influências musicais, coisa incrivelmente representada na faixa “SAOKO”, que mistura reggaeton com melodias de jazz e versos percussivos nos quais, com persistência narrativa, ela diz se transformar: “Me contradigo, yo me transformo / Soy todas las cosas, yo me transformo”. Destemida, a cantora ainda encontra espaço para samplear uma de suas maiores referências, o porto-riquenho Daddy Yankee que, por sua vez, surge ao lado de Wisin, com a música “Saoco”, de 2004. “Antes de começar essa música, sempre pensava que queria ver toques de jazz em um reggaeton e samplear a icônica produção de Wisin e Yankee parecia a melhor maneira de realizar isso nesta canção”, descreve Rosalía. Ainda que se distancie de tudo aquilo explorado pela artista em seu álbum El Mal Querer, de 2018, “SAOKO”, inegavelmente, possui um sentido determinante nessa nova fase da carreira dela, principalmente, com os frutos colhidos recentemente. Sem sombra de dúvidas, uma das músicas mais importantes e marcantes do ano. — Matheus José

1

Beyoncé, "Alien Superstar"

Um elemento principal que se manteve firme na carreira de Beyoncé ao longo dos anos foi sua mão firme em reconhecer sua importância e singularidade. Seja em sua forma de usar sua imagem em seu favor em suas visuais, nos clipes de algumas músicas mais antigas, como “Crazy In Love” e “Single Ladies”, até finalmente sua transição de empoderamento em composições, em faixas como “Run the World (Girls)” e, mais tarde, “Formation”, Beyoncé sempre foi segura de sua imagem, caráter e significância. “ALIEN SUPERSTAR”, por sua vez, é, além da melhor canção em RENAISSANCE, o ponto mais forte da carreira de Beyoncé nesse quesito, onde ela está mais segura do que nunca. 

“I’m one of one, I’m number one, I’m the only one”, ela anuncia no começo da canção. Essa é uma faixa de empoderamento multifacetada, que não só assegura uma certa confiança, mas também permite diversão enquanto isso. Em sequência, uma mensagem dupla surge: em simultâneo, Beyoncé parece cantar para si mesma, enquanto aconselha aqueles que ela ama. “Unique / That’s what you are”, ela canta, nesse que é o momento mais memorável e influente da música do ano. Batidas de sintetizadores ressoam forte no fundo, enquanto crescendo de sirenes anunciam Beyoncé, antes de um clímax mais sutil no refrão: “No one else in this world can think like me”. Por mais que RENAISSANCE seja mais voltado para o R&B, house e dance, “ALIEN SUPERSTAR” remonta um pop existente no passado da cantora, fundido suas fases, desde BEYONCÉ, de 2013, até Dangerously in Love, de 2003, principalmente na forma que ela reforça sua atitude e sua sensualidade é refletida nos vocais. Penso que não há nada mais empoderador do que se homenagear. Nesse sentido, por isso, Beyoncé é inabalável nessa música. — Leonardo Frederico

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