WE
2022 • ROCK/ALTERNATIVO • COLUMBIA
POR LEONARDO FREDERICO; 09 DE MAIO DE 2022
8.0

Embora a música emo já estivesse se proliferando desde os anos 1980, foi apenas em 2003 que ela ganhou um novo significado — ou, pelo menos, concretizou-se em uma de suas vertentes mais potentes. Na década de 80, o emo — etimologicamente derivado em “emotional”, no inglês — emergiu como uma nova direção do punk rock, com a aposta em composições emotivas, românticas e confessionais. Por volta de 20 anos depois, o Arcade Fire surgia quando Win Butler e Régine Chassagne se uniram, tanto na música quanto no amor, para experimentar, brincando com estilos, desde a bossa nova ao krautrock. Dessa forma, nascia uma das bandas vanguardistas de rock indie mais importantes e fortes dos últimos anos. Seu álbum de estreia, Funeral, de 2004, por sua vez, parecia, pela primeira vez em muito tempo, conectar-se automaticamente com o emo. De acordo com John Doran em seu artigo sobre o registro: “a estreia do Arcade Fire mostra sozinho todo esse subgênero como o lixo emocionalmente analfabeto e autoindulgente que realmente é”. 

Desde então, o Arcade Fire foi, seguidamente, lançando materiais que, ainda que nunca fossem tão bons quanto o Funeral, eram melhores do que a maioria dos outros grupos estavam entregando. Enquanto Neon Bible, de 2007, aflorou uma experiência sensorial catártica dentro de um cenário social decadente espacial, Reflektor, de 2013, foi um épico de quase 90 minutos de duração, um monstro imbatível. Todavia, tudo se quebrou quando Everything Now foi lançado em 2017. Em uma abordagem dançante, com pinceladas de disco e pop, o registro foi o conjunto das canções mais fracas da banda de Montreal até hoje. Se no começo da carreira de Butler e Chassagne tínhamos faixas que eram perspicazes em suas críticas, mas altamente cativante e singulares, em Everything Now tudo se dissolveu em legendas de fotos em redes sociais e batidas opacas de sintetizadores. 

WE, o sexto disco do Arcade Fire e o primeiro em cinco anos, é uma volta às origens e raízes da banda. Em uma tentativa de se recuperar do caos que Everything Now causou em suas estruturas, Win e Régine olham para seu passado, entregando um trabalho que é um epítome dos melhores pontos da discografia deles. Deixando de lado os sintéticos de seu último lançamento, eles optam por focar em letras cirúrgicas e instrumentação orgânica e mais pé no chão, com toques sonhadores de viés apocalíptico no qual jovens parecem lutar contra tudo e todos. Apesar de WE não ser tão forte quanto seus irmãos, ainda assim é um passo na direção certa, sendo facilmente associável com o que fez eles serem o que eles são.

Grande parte das primeiras obras do Arcade Fire eram semeadas pelo discernimento jovem em meio de uma síntese social decadente. Em 2004, com Funeral, por exemplo, Win e Régine se tornaram parte da juventude rebeldes que desejavam fugir para construir uma vida adulta idealizada, lutando contra as memórias de seus pais e amigos em uma vizinhança fílmica desalentada. Embora todas as suas forças, nada parecia realmente concreto, na verdade, havia uma desesperança em cada palavra de Butler. Uma década depois, computadores e a tecnologia seriam o grande vilão da história. Em WE, eles resgatam esse sentimento. Nas duas primeiras canções do disco, “Age of Anxiety I” e “Age of Anxiety II (Rabbit Hole)”, ambas peças que se complementam, o casal traça uma linha narrativa sobre a dominância da ansiedade perante grande parte da sociedade. Na primeira, uma visão pessoal dos tormentos: “Fight the fever with TV / In the age where nobody sleeps / And the pills do nothing for me / In the age of anxiety”, o vocalista canta. Na segunda, a figura humana se torna plano de fundo na configuração do cenário, que se sustenta através de um conto infantil para discorrer sobre como esse mundo de aflição e desgosto é infinito: “Going on this trip together / Rabbit hole goes on forever”.

Sonoramente, essas duas faixas ressoam como um compêndio de todo o material passado do Arcade Fire. As duas carregam puxões de baixo e toque sutis em percussões do disco de estreia deles, mas um teor atmosférico e sonhador, altamente recorrente em Reflektor, conjuntamente com as pitadas de pop do Everything Now. Certamente, tudo funciona, ainda que “Age of Anxiety II (Rabbit Hole)” muitas vezes não pareça realmente atingir seus pontos mais fortes quando ecoa explosões de sintetizadores nos refrões. “End of the Empire I-III” e “End of the Empire IV (Sagittarius A*)”, por outro lado, concentram os esforços em uma simplicidade maior, remanescente de Funeral, com pianos e poucas cordas, dando importância, principalmente, aos vocais e a história que Win narra. Nesse caso, “End of the Empire I-III” emerge tal qual uma trilogia de caos: no começo, um casal dança no meio do fim do sonho americano, seguido pela concretização de sua morte metafórica e, por último, o desejo de reencontro e o estado de abstinência no purgatório. “End of the Empire IV (Sagittarius A*)” dá continuidade, porém, agora, o enredo é folclórico, com um buraco negro no centro de nossa galaxia sendo nosso céu e, dessa forma, nosso destino final. 

Essa simplicidade é refletida em várias canções de WE, mas o momento mais vigoroso realmente é em “Unconditional I (Lookout Kid)”, uma peça que Win e Régine fizeram para seu filho e que reencontra com tendências de “Wake Up”, da própria banda. Nela, ambos surgem com conselhos para sua criança: “Lookout kid, trust your mind / But you can’t trust it everytime / You know it plays tricks on you / And it don’t give a damn if you are happy or you’re sad / But if you’ve lost it, don’t feel bad”. No mesmo sentido, “The Lightning I” e “The Lightning II” erguem-se como instantes de esperança, com a segunda operando em torno da música emo, inspirada pelo rock e não tanto pelo alternativo. Os únicos pontos fracos de WE são quando o disco parece preencher espaço desnecessariamente. “Unconditional II (Race and Religion)” e “Prelude” são ótimos exemplos disso: apesar de não serem ruins, não conseguem acrescentar nada no produto final. Na última, a faixa-título, por sua vez, eles se perguntam: “When everything ends, can we do it again?”. De certa forma, eles sabem a resposta para isso, e sua conexão genuína e honesta é a ponte para isso.