kick iiii
2021 • EXPERIMENTAL • XL
POR LEONARDO FREDERICO; 12 de DEZEMBRO de 2021
7.4
kiCK iiiii
2021 • EXPERIMENTAL • INTERSCOPE
POR LEONARDO FREDERICO; 12 de DEZEMBRO de 2021
8.0

Especialmente nos últimos dois anos, desde que o mundo se encontrou numa situação de pandemia e quarentena, a imaginação foi responsável, em grande parte das vezes, por fazer nossa vida seguir em frente. Durante o isolamento social que fez todos nós ficarmos trancafiados em nossas casas, a vida se tornou mais lenta e solitária, nossa criatividade permitiu que a vida se tornasse mais suportável recriando um mundo no qual nós queríamos estar. No caso da cantora e produtora venezuelana Arca, no entanto, ela criou por completo um novo mundo à sua volta, um no qual ela se sentiu finalmente ela mesma e, também, está se tornando uma governanta suprema e visionária.

Esse caráter imagético de Arca, no qual ela está edificando um novo universo a partir de sua própria visão, teve início no começo da década passada, quando ela se mudou para Nova York. Rapidamente, suas produções amadoras —  Stretch 1 e 2 —, feitas caseiramente, ganharam visibilidade, levando Alejandra a ninguém menos que Kanye West, para quem ela mostrou “o trabalho mais extremo e não comercial que ela já tinha feito”. Os anos passaram, e Arca foi pulando de mão e mão dos nomes mais renomados do cenário alternativo, sendo os veteranos: a cantora e compositora islandesa Björk; ou os calouros: FKA twigs e Frank Ocean. No entanto, mesmo com o passar do tempo e Alejandra espalhando cada vez mais seu nome e, consequentemente, sua assinatura, ela nunca parecia ser capaz de fixar sua imagem e seu nome de forma realmente concreta: ela nunca estava sozinha, sempre associada a outros, e seu trabalho solo era sempre deixado de lado ou visto como uma segunda opção ou algo extra. No entanto, com sua nova série de discos, Kicks, Arca finalmente canaliza por completo sua visão de mundo e se torna única em seu mercado. 

Inicialmente tendo seu ponto de partida no ano passado, com KiCk i, Kicks é uma série de discos com um total de cinco partes, das quais as quatro últimas foram lançadas ao longo de quatro dias seguidos. Enquanto a segunda parte, de forma geral, parecia apenas uma continuação do que Arca havia feito no primeiro ato da sequência, sendo uma extensão sem muita personalidade do que ela havia apresentado anteriormente; por outro lado, KicK iii foi uma revolução, com um som inspirado pela sonoridade glitchy, por influências industriais e underground modern club, resultando em um registro complexo, visionário e ambicioso, uma das melhores coisas que a artista já havia feito. Porém, em contrapartida, o que faltava nesses discos, talvez, era uma certa ambientação imersiva maior, que permitisse que o ouvinte não apenas apreciasse e se impressionasse por aquilo que Arca estava oferecendo, mas também conseguisse fundir-se nesse universo que ela estava concretizando. Por ventura, kick iiii e kiCK iiiii, as duas peças finais do grandioso projeto de Alejandra, consertam esse cunho, gerando trabalhos profundos e hipnotizantes. 

Se KicK iii foi o momento mais ousado desse projeto, kick iiii foi, por outro lado, o mais acessível. Em comparação com os outros momentos, é o registro mais melódico desse projeto, deixando de lado a totalidade digital dos outros e optando por uma fusão bem feita entre os sintetizadores com os analógicos: um órgão, cordas mágicas, sopros e batidas de baterias. Em “Whoresong”, por exemplo, pré-estreada inicialmente em ^^^^^, de 2020, mas que volta em kick iiii, Alejandra joga vozes demoníacas computadorizadas em cima de órgãos de igreja sombrias. Contudo, embora kick iiii soe mais universal, não tão visionário como os outros, ele ainda é capaz de ser mais profundo que KICK ii, conseguindo, por sua vez, transmitir os sentimentos de Arca, esses que, na segunda parte da sequência, pareciam abafadas por uma necessidade de simplesmente ser algo diferente, mas sem profundidade. Entre os melhores instantes de kick iiii, apresentam-se “Witch” e “Esuna”, ambas faixas que divergem um pouco do estilo que Ghersi estava seguindo, apostando em algo que ressoa para direções mágicas e sobrenaturais e não, necessariamente, digitais e futuristas. Mas, “Boquifloja” e “Lost Woman Found” atuam como as melhores, sendo o material mais profundo e intimista que Arca lançou nessa nova coleção de inéditas.

Todavia, se por um lado esse viés gera um trabalho que pode ser consumido mais facilmente por grande parte do público, por outro, ele se torna menos interessante, criando a sensação de que a cantora está sacrificando propositalmente seu estilo em prol de maior reconhecimento. Em “Queer”, com Planningtorock, por exemplo, Arca introduziu essa excelente instrumentação, mas peca nos vocais que parecem sair de uma música de reggaeton genérica. O resultado parece uma mistura de duas canções: uma faixa qualquer que saiu de uma playlist do Spotify combinada com o melhor que Arca tem para oferecer. Ademais, outros momentos do disco criam uma circunstâncias de produto não acabado, como “Xenomorphgirl”, que apesar da ótima progressão, parece uma versão demo, ou ainda, quando diversas faixas soam simplesmente desnecessárias, parecendo uma repetição de material ou uma ideia prematura que Arca, de alguma forma, achou que combinaria com o restante das canções apresentadas. 

Em seguida, kiCK iiiii, segue a linha de seu antecessor, apostando mais na criação de uma atmosfera do que em outras áreas. Contudo, não é só esse fator que permite que essas duas partes possam ser analisadas conjutamente, mas sim o fato de que elas conversam tão bem entre si que, se as faixas fillers fossem removidas, ambos os registros poderiam ser fundidos em apenas um. Existe uma progressão natural entre esses dois trabalhos, como se, a cada instante, Arca tivesse movendo para longe do seu pico criativo, o KicK iii, deixando sua faceta computadorizada cada vez mais subordinada pelos orgânicos inspirados levemente pelo seu álbum autointitulado. “Estrogen”, por exemplo, surge como uma versão contemporânea e ainda mais mística de uma canção dos anos 2000 da Joanna Newsom. 

Em uma entrevista com a Pitchfork, Alejandra havia dito que a última parte de Kicks seria totalmente coordenada por pianos. Por mais que isso não seja totalmente verdade devido a algumas peças parecerem não seguirem esse viés — como “Amrep” e “Sanctuary” —, é muito curioso ver como Arca conseguiu, apenas com teclas, criar um leque amplo de sentimentos. Enquanto “Pu” soa leve e alegre, “Chiquito” e “Ether” trabalham em torno da tristeza e melancolia. No entanto, as duas melhores faixas do quinto disco da sequência são “Tierno”, a canção mais próxima de Arca, de 2017; e “Músculos”, uma fusão das teclas com batidas industriais inspiradas pelo Nine Inch Nails. Na primeira, a cantora está afogada em vocais naturais após a surpresa de encontrar o amor verdadeiro: “Desde que te he conocido / No tuve tiempo para prepararme / Para tanta ternura”. Existe uma honestidade aqui que nenhum computador consegue canalizar. 

No final, os dois últimos discos da série Kicks são projetos voltados para uma análise intrínseca mais do que propriamente uma catarse. Por mais que, nenhum desses álbuns sejam ruins, por assim dizer, o maior problema que eles enfrentaram foi o fato de terem sido lançados juntamente, fazendo com que a tarefa de consumir e digerir essas canções seja ainda mais difícil. Além do mais, diversos momentos nesse projeto são devidamente desnecessários, já que eles são basicamente uma reciclagem de outras coleções ou até mesmo canções. Se Arca quisesse um conselho, o meu seria que ela desse o tempo necessário para sua arte fazer o seu trabalho.