KicK iii
2021 • EXPERIMENTAL • XL
POR KAIQUE VELOSO; 10 de DEZEMBRO de 2021
8.3
MELHOR LANÇAMENTO

O mundo supra-humano dos kicks tem sido trabalhado por Arca há mais tempo do que se imagina. Fragmentos de novas músicas foram revelados fortuitamente pela cantora há mais de 2 anos: o instrumental trap de “Femme”, do KICK ii, foi postado, em seu Instagram, no dia 4 de setembro de 2019; “Bruja” e, consequentemente, “Witch”, dos kicks iii e iiii respectivamente, foram alertadas no diálogo presente no final do clipe de “Nonbinary”, no começo de 2020. Aliás, a referenciação própria tem sido recorrente nos últimos trabalhos da venezuelana. Em diversos momentos dos 3 novos álbuns (o KicK iii se destaca como uma exceção), Arca reutiliza samples de produções antigas, principalmente de “@@@@@”. Primeira faixa do quinto e último setor do novo mundo psicossexual, “In The Face” é recriação ipsis litteris de um dos quantums de “@@@@@” de mesmo nome. Isso não se importa em ser um problema; é, entretanto, um daqueles casos em que ver como o mágico realiza o truque arruína parte da magia.

Felizmente, deparamo-nos aqui com o mais audacioso e completo dos novos kicks: o terceiro. A começar por “Electra Rex”, segundo single do álbum e mais emaranhado de conexões e significados externos. Arca toma para si a incumbência de oferecer alternativas modernas para dois importantes conceitos da psicanálise (neo) freudiana: os complexos de Édipo e de Electra. O primeiro se baseia na tragédia socrática do Rei Édipo (Oedipus Rex, em latim), alguém que, sem conhecimento disso, assassinou seu próprio pai e teve filhos com a própria mãe. Freud apropriou-se dessa história para dissertar sobre a psiquê humana; ele, logo, argumenta que o primeiro desejo sexual dos homens ocorre sobre sua mãe, ao passo que seu primeiro ódio e instinto para o assassinato recai sobre seu pai. Em consonância a isso, o Complexo de Electra seria a versão feminina da teoria, na qual, em tenra idade, a menina desenvolve afetos pelo pai e inveja pela mãe. Dessa forma, Alejandra é a primeira a unir os dois conceitos sob uma perspectiva não-binária. Electra Rex é uma entidade que assassina ambos os progenitores e faz amor consigo mesma. Preâmbulos à parte, a dita faixa é o melhor da música eletrônica experimental: as batidas arrefecidas são perturbadores e imprevisíveis. A dualidade do arquétipo construído se materializa na voz distorcida alternada entre o grave (Rex) e o agudo (Electra). Toda tensão inicial remete ao homicídio: “Wet and hot and heavy while we smash the test”. Toda resolução final se dá em êxtase e em conversas internas da própria entidade: “You’re ready to blow, should I blow?”, Arca transa consigo.

A rispidez dos sons de KicK iii não deve ofuscar a importância de faixas perspicazes e cheias de si, tais como “Bruja” e “Infendio”. Esta, marcada pelas batidas inspiradas pelo ritmo do funk — talvez por influência de uma das amigas de Arca, MC Dricka —, evidencia-se entre os singles de música eletrônica do ano pela sua barulhenta heterogeneidade; e aquela seja, talvez, a mais proeminente canção da produtora nos últimos tempos: a confiança e a potência em suas falas são de amedrontar seus inimigos (mesmo aqueles com quem ela trabalhou, mas que, por algum motivo, voltaram-se contra ela desferindo ataques transfóbicos pelas redes sociais): “Arca […] /  La Doña, la patrona, en esta mierda”, ela se apresenta.Em síntese, este kick possui exemplos bem polidos do que a cena eletrônica experimental tem a oferecer. A melancolia de seu álbum autointitulado não é, no entanto, observada aqui, o que, apesar de ser completamente compreensível, dada a proposta de ser o lado mais abrasivo do mundo supra-humano de Arca, certamente torna faltosas as transições coesivas que tornariam o álbum perfeito. KicK iii será ponto de refúgio para os mutants (como seus fãs se identificam) neste caótico universo proposto, pois é nele que se concentram os detalhes mais desafiadores e intrigantes. Essas são, sem dúvida, as características que fazem pessoas recorrentemente ouvirem canções tão abstratamente únicas. De fato, não existe mais ninguém criando esse tipo de música. Não com tanto zelo. Não com tanto primor. E não com tanta sabedoria. De Freud à Venezuela e a comentários precisos sobre a transexualidade, Alejandra Ghersi constrói seu próprio arquétipo inovador não só no mundo kick, mas também no mundo real: aqui ela é a referência contemporânea dos sobrenaturais resultados da cultura vanguardista.