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My Back Was A Bridge For You To Cross

2023 •

Secretly Canadian

9.4
A partir da história emocionante da ativista Marsha P. Johnson, e das próprias experiências que a artista teve enquanto uma mulher trans numa sociedade moldada pela transfobia e pela homofobia, ANOHNI, vocalista da banda ANOHNI and the Johnsons, gravou o álbum mais importante de toda a sua discografia: My Back Was A Bridge For You To Cross.
ANOHNI and the Johnsons - My Back Was a Bridge For You To Cross

My Back Was A Bridge For You To Cross

2023 •

Secretly Canadian

9.4
A partir da história emocionante da ativista Marsha P. Johnson, e das próprias experiências que a artista teve enquanto uma mulher trans numa sociedade moldada pela transfobia e pela homofobia, ANOHNI, vocalista da banda ANOHNI and the Johnsons, gravou o álbum mais importante de toda a sua discografia: My Back Was A Bridge For You To Cross.
03/08/2023

No início da década de 90, quando ANOHNI, vocalista principal e líder da banda de art pop Antony and the Johnsons, tinha apenas 19 anos, Marsha P. Johnson teve o seu corpo encontrado no rio Hudson, em New York City. Marsha, juntamente à Sylvia Rivera, foi uma figura de extrema importância para o movimento LGBT+. Com suas vozes, as ativistas lutavam diariamente contra a homofobia e a transfobia, mas principalmente contra a ignorância da sociedade com relação à AIDS. Graças à falta de conhecimento da população acerca dessa doença, foi-se disseminada, naqueles tempos, a ideia de que tal enfermidade começou a surgir das relações homossexuais e passou a ser alastrada adiante devido à procedência da realização desses atos, o que gerou uma “justificativa” para a marginalização desse grupo e a violência contra os seus integrantes.

 Em uma postagem em sua conta do Instagram, ANOHNI diz ter integrado a uma passeata fúnebre pelas margens do rio onde Marsha P. Johnson foi encontrada. De acordo com a artista, ela estava usando um vestido de casamento na ocasião. Algumas “almas caridosas”, como escreveu a cantora, se prestaram a homenagear a ativista fazendo discursos honoráveis sobre ela. E, como uma forma de ela mesma prestar respeito e apreço à imagem da falecida, pendurou alguns panfletos pela região e pintou — com um spray de tinta — o nome de Marsha sobre o cais. Incrível, tocante e muito interessante é imaginar a ocasião em que a artista realizou esta última ação, pois foi a partir dessa atitude que foi originado o nome e o conceito por trás do álbum mais importante e memorável da carreira de ANOHNI e de sua banda, Antony and the Johnsons, My Back Was A Bridge For You To Cross. Da mesma maneira que a vida e a morte de P. Johnson serviram para fortalecer os movimentos culturais contra o preconceito nos anos 90, também serviram para a musicista como uma “ponte” para a maturidade, sabedoria e plenitude.

Além disso, também há a conexão entre a sonoridade do álbum e o seu título, My Back Was A Bridge For You To Cross, visto que toda a enorme bagagem musical carregada por ANOHNI, a qual foi inteiramente depositada nesse disco, parece servir como uma ponte temporal do futuro até o passado — assim como a sua autora queria que fosse. Neste registro, conseguimos ouvir influências que vão desde Nina Simone, Aretha Franklin, Amy Winehouse e, até mesmo, Björk, em certos momentos. Isso é algo tão marcante dentro do projeto que o faz parecer ter sido feito há muito tempo atrás, porém, só vão fazer algumas semanas desde que foi lançado oficialmente. Entretanto, não é como se soasse antiquado ou batido. A produção de Jimmy Hogarth, e da própria cantora, consegue resgatar vários dos sons e estilos da antiguidade, porém, sem se desvencilhar tanto assim da música contemporânea. É um meio termo quase perfeito entre esses dois aspectos, que merece ser devidamente apreciado.

“It Must Change”, primeiro single de trabalho da era My Back Was A Bridge For You To Cross, é a faixa que dá início ao álbum. Nessa canção, somos bem-vindos com o transpassar de reconfortantes acordes de guitarra, batidas de pandeiro e uma cadência rítmica prazerosa, e amena, de bateria no fundo. A cantora, prontamente, se apresenta alguns segundos mais adiante, com sua voz radiante entoando a primeira instância do simples, porém sucedidamente impactante, refrão da música: “It must change / Must changе / It must change / It must change”. De maneira imutavelmente esplendorosa, ANOHNI começa a fazer um importante questionamento sobre a injusta forma como a sociedade funciona. No primeiro verso, ela fala: “The way you talk to me, it must change / The things you do to me / The way you leave me / The seeds you give to me, it must change”. E, depois, a artista desmistifica a distinção errônea e precipitada sobre a oposição entre bem e mal, dizendo que tudo não se passa de “fogo e escuridão”. Com isso, ela quer comunicar que não há um certo e um errado nesse mundo, já tão afundado em trevas e desordem. Portanto, o julgamento feito pelos demais sobre isso seria algo impossível e desnecessário. Isso é visto na seguinte ponte: “So those opposites, they don’t exist / So sad / It’s just an idea that someone told you / So sad / And that’s why this is so sad”.

Assim como a tranquilidade sentida após a calorosa recepção de nossa casa, faltando pouco tempo para o desenrolar do final de um dia complicado, o tom mais leviano e dócil de “Silver of Ice” amolece o coração do ouvinte. Aqui, nesta faixa, ANOHNI pende para o lado mais tranquilo do soul: o smooth soul. A grande melosidade da música se impregna no ambiente e automaticamente o torna mais prazeroso e satisfatório. É muito difícil — diria até que impossível — resistir ao encanto dessa canção. A voz da cantora se encaixa tão perfeitamente na produção da música que nos deixa embasbacados. É tão natural, esplêndido, que tudo fica ainda mais maravilhoso quando analisadas a letra e a sua temática. A compositora diz ter se baseado num poema de um velho amigo seu, Lou Reed — integrante da lendária banda The Velvet Underground —, sobre apreciar tudo em nossa vida, até mesmo as coisas mais simples incluídas nela — como, neste caso, a sensação refrescante do gelo em contato com a língua. No primeiro verso, a musicista fala: “Now that I’m almost gone / The sliver of ice on my tongue / In the day’s night / It tastes so good, it felt so right / For the first time in my life”.

Logo em seguida, nos encontramos com a canção “Can’t”, cuja letra é detentora de uma das composições mais tristes de My Back Was A Bridge For You To Cross — o que consegue ser bastante irônico, tendo em vista a sua sonoridade mais “animada”, digamos assim. Nessa faixa, ANOHNI lamenta sobre a morte de uma pessoa querida por ela, expressando toda a sua infelicidade e amargura em versos emocionalmente dolorosos: “I miss you, my darling / I miss you, friend / You are dead and, oh, so far away / While I am here, stranded among the living”. É uma música liricamente desconcertante, conquanto a produção de Jimmy Hogarth e da artista a torna meio “alegre”. Os dois puxaram uma influência bem grande dos gêneros pop soul e gospel e fizeram uma enlevação em forma de música. O refrão é bem marcante e fervoroso, e a interpretação impecável da cantora consegue intensificar tudo ainda mais, fazendo de “Can’t” um verdadeiro hino sobre luto e desalento. Entretanto, a melhor parte com certeza torna-se seu encerramento, com a musicista cantando “I don’t want you to be dead / I don’t want you to be dead / I don’t want you to be dead / I don’t want you to be dead”.

Após ouvimos o clamor aos mortos feito por ANOHNI na faixa “Can’t”, podemos sentir o ódio da cantora transbordar da desgostosa “Scapegoat”. Nessa canção, a artista nos mostra a real intenção por trás das ações odiosas dos conservadores e líderes religiosos contra a comunidade LGBT+ ao escrever a partir de suas perspectivas, expondo para todos a sua natureza hedionda. No primeiro verso, ela já deixa tudo isso bastante aparente, fazendo uma crítica bem direta: “You’re so killable / Just so killable / It’s not personal / It’s just the way you were born”. Com sua performance sublime, a musicista consegue demonstrar todos os sentimentos negativos, como raiva, tristeza e frustração sentidos pelas pessoas queer em relação a essa realidade devastadora. Entretanto, o melhor aspecto da música é, sem a menor sombra de dúvidas, o seu clímax, ouvido próximo de seus instantes iniciais. Nesse tempo, acontece a transição apoteótica das típicas batidas do soul e blues para passagens implacáveis de guitarra, bastante ouvida no meio indie rock atualmente. Inclusive, esse acontecimento me remeteu muito à discografia de nomes importantes no cenário underground atualmente, como Indigo De Souza e Snail Mail.

Continuando a ouvir o álbum daqui em diante, passamos por “It’s My Fault”, um interlúdio encantador no qual ANOHNI canta sobre a culpa que a sociedade tenta fazer ela e seus semelhantes sentirem por apenas serem quem são. E, então, a sétima faixa do disco, “Rest”, outro momento incrível que essa fala sobre a agoniante espera por alguém cujo regresso não acontecerá, retomando os assuntos sobre morte e luto abordados em “Can’t” e os aprofundando um pouco mais. Nessa música, é onde há a maior predominância de rock, caracterizando um momento único dentro do álbum, cujo acontecimento é bastante memorável e apreciado pelo público e pela crítica — que reconhecem a sua grande qualidade e o valorizam bastante por isso.

“There Wasn’t Enough” se assemelha bastante a “Silver of Ice”, com a diferença que esta não se faz aqui presente para trazer conforto, e sim, para ocasionar uma grande tristeza aos ouvintes ao fazê-los sentir o sentimento de insuficiência da cantora. É uma balada emocionalmente poderosa, com força o suficiente para avassalar o coração de qualquer um que a ouça. A influência no indie rock continua estando bastante forte nessa faixa, assim como anteriormente. Todavia, esta sonoridade, nesse momento, se encontra mais amena e servindo de complemento para os singelos acordes de violão, que acompanham a voz quebrantada de ANOHNI ao longo de todos os quatro minutos de “There Wasn’t Enough”.

Se aproximando do fim de My Back Was A Bridge For You To Cross, temos as faixas “Why Am I Alive Now?” e “You Be Free”. A primeira sendo outra composição entristecedora por parte de ANOHNI. Nesta, a cantora questiona o porquê de ainda estar viva e expressa o seu desejo de morrer, visando acabar com todo o seu sofrimento. É um relato extremamente pesado, difícil de se ouvir, porém, a sua realização se faz algo essencial, visto que é necessário abrimos mais essa discussão sobre a enorme taxa de suicídio entre os jovens LGBT+ para que possamos aprontar medidas preventivas para o diminuimento desses números. A segunda mencionada, a décima e última faixa do álbum, “You Be Free”, se caracteriza como uma simples balada acústica. Para o encerramento da obra, ANOHNI retorna aos seus 19 anos e canta sobre os cartazes que pendurou e as pichações que fez em memória de Marsha P. Johnson, mas cantando a partir da perspectiva da ativista sobre a sua própria morte. Encerrando tudo dizendo “Ooh, you, you be free / You be free for me / For me / You (You) be free for me”, como se quisesse dizer para nós, seu público, para seguirmos em frente, mesmo perante todas as adversidades.

Depois de escutar todo o My Back Was A Bridge For You To Cross, nos é ensinado que devemos seguir em direção ao futuro e ao progresso, mas sem que esqueçamos do nosso passado e de todos que lutaram para que chegássemos até onde nos encontramos. Mas, além disso, também nos é dado como aprendizado a resiliência e a tenacidade de Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera. É verdade que já tenha sido posto um fim às histórias brilhantes das duas há muito tempo, porém, o legado de amor e perseverança que ambas deixaram para nós ainda se encontra intacto e devemos continuar os carregando em nossos corações, assim como a cantora ANOHNI o faz.

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