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Funk Generation

2024 •

Republic, Universal

3.0
O funk higienizado que Anitta tenta exportar é detestável
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Funk Generation

2024 •

Republic, Universal

3.0
O funk higienizado que Anitta tenta exportar é detestável
30/04/2024

Atualmente, o funk brasileiro está em seu momento de maior reconhecimento em escala mundial. Se, mesmo marginalizado, ele conseguiu ir para além das favelas, conquistando o público brasileiro no geral, agora, o ritmo está em uma fase de crescimento ainda mais avançada, ultrapassando os limites do território nacional. Ano passado foi um período muito importante nesse sentido. Quer você goste ou não — eu particularmente detesto —, mas o brazilian phonk, que foi uma trend no TikTok, ajudou em muito na expansão do estilo a outros horizontes. Muitas pessoas não apenas ficaram interessadas no subgênero, mas quiseram saber mais sobre o baile-funk no geral. Fora isso, as revistas musicais ficaram fascinadas por essa sonoridade e dirigiram diversos textos sobre nomes do funk, muitas vezes, contribuindo bastante para o sucesso deles. Um dos principais sites gringos responsáveis pela divulgação do gênero mundialmente foi a Pitchfork. Queridão, PANICO NO SUBMUNDO e Sexta Dos Crias foram algumas das obras que ganharam maior destaque após esse veículo tão importante da crítica musical tê-los resenhados com avaliações positivas.

De fato, a nova geração do funk é extremamente promissora. Não só é interessante ver o crescente alcance do ritmo mundialmente, como há vários nomes em ascensão no cenário do gênero muito talentosos. No entanto, há também os pontos negativos da fase que o funk está passando. Embora seja legal ver uma vertente ganhando muita força lá fora com o brazilian phonk, esse exporta a música brasileira de maneira higienizada que não representa a magnitude do baile-funk, tanto é que, no Brasil, esse subgênero conquistou um público majoritariamente elitista que quer ouvir funk mas não quer ser ligado a um estilo periférico, justamente por esse transformar o gênero no mais americanizado possível.

Funk Generation consegue representar essa nova geração do funk, no entanto, apenas nas piores características. Anitta quer exportar o estilo para o público internacional. Contudo, em vez de trazer uma representação fiel do baile-funk, ela apresenta diferentes vertentes do ritmo diluídas para conseguir se tornar o mais acessível possível ao gringo. O que a cantora faz aqui é quase como o brazilian phonk opera. Se o subgênero pega referências estadunidenses do drift phonk e mescla isso ao mandelão, criando um som que se desprende de suas origens e soa totalmente como um norte-americano que pouco tem conhecimento da cultura brasileira tentando fazer um funk, Anitta, similarmente, faz uma higienização de sua arte para retirar qualquer aspecto que possa ser inconvencional a quem não está acostumado com a música nacional. O resultado disso são canções insossas ao extremo.

“Funk Rave” descaracteriza tanto o baile-funk com referências edm insípidas que soa como um artista de música dance eletrônica gringo fazendo funk brasileiro. Ademais, essa faixa expõe outro problema recorrente durante a obra. Percebo algumas cantoras emulando músicas pop com teor mais abrasivo por perceberem que esse tipo de sonoridade são comumente aclamados pelos fãs de divas pop, entretanto, isso é muitas vezes feito de maneira forçada, causando em resultados indigestos. Esse é o caso não apenas dessa canção como também de outras de Funk Generation. Nesta em específico, mudanças na estrutura não convencionais são apresentadas para tentar causar ao ouvinte essa impressão, ainda que isso apenas a faça soar muito confusa. Já “Lose Ya Breath” quer tentar fazer várias abordagens dentro do funk em curto espaço de tempo e não consegue acertar em nenhuma delas. O principal erro, nesse sentido, é a escolha de utilizar no último verso guitarras com toque latino-hispanico com o intuito de fazer algo diferente, as quais ficam péssimas na música.

Apesar de no geral ruim, ainda há alguns momentos divertidos. “Ahi” se mostra como uma das melhores músicas pelas suas melodias envolventes, que conseguem ter um enfoque maior a partir da produção que, diferentemente do restante do registro, que busca maximizá-la de forma a ocupar o espaço vazio deixado pela performance apática da artista, aqui se mostra mais minimalista para o aspecto melódico brilhar. “Savage Funk” abusa de eletrônicos eletrizantes, enquanto “Grip” traz batidas de miami bass alinhadas às guitarras que criam som sedutor, embora, mesmo assim, essa faixa sofra de alguns problemas na produção um pouco bagunçada. No entanto, até quando Funk Generation mais cativa, mesmo assim, o aspecto higienizado do funk de Anitta fica em evidência, deixando ainda um leve gosto amargo nessas canções. 

A ideia do novo álbum da carioca era muito ambiciosa e também difícil de executar. Isso se dá, pois, ao mesmo tempo em que precisava apresentar bem ao público internacional a música que embala os bailes-funk, ela precisava fazer com que o ouvinte pouco acostumado com o gênero conseguisse dar uma chance ao disco. Apesar disso, acho detestável o funk que ela tenta exportar mundialmente. Ela o transforma em um produto moldado às exigências do mercado americano para ser mais facilmente comercializado em escala mundial. Esse, entretanto, não é o futuro que espero do ritmo com seu crescimento para fora do território nacional. Anitta aqui falha em ser fiel ao som que realmente faz presença nos bailes de favela ao se preocupar tanto em adaptá-lo a uma plateia que desconhece o estilo. Há diversos artistas que, não focando no sucesso fora de sua bolha, apresentam sonoridade muito mais fidedigna à cultura da música das periferias brasileiras e que, conseguiram, curiosamente, aumentar seu reconhecimento e ser aclamado por veículos fora do Brasil. Não apenas há nomes que ficaram em evidência graças à Pitchfork, mas também, DJ Ramemes foi aclamado com seu registro Sem Limites pelo crítico musical do YouTube mais famoso atualmente, Anthony Fantano. É esse funk que acho interessante exportar a uma audiência mais ampla, não uma mercadoria americanizada como Funk Generation ou o brazilian phonk.

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