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À Procura da Anitta Perfeita

2022 •

Warner Music Brasil LTDA

3.8
O EP carnavalesco e estratégico de Anitta não produz novidades relevantes e soa preguiçoso, além de não suprir a busca por uma representação digna de colocação mundial do funk carioca.
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À Procura da Anitta Perfeita

2022 •

Warner Music Brasil LTDA

3.8
O EP carnavalesco e estratégico de Anitta não produz novidades relevantes e soa preguiçoso, além de não suprir a busca por uma representação digna de colocação mundial do funk carioca.
18/01/2023

Apesar de seus maiores sucessos serem classificados como música pop brasileira, Anitta iniciou sua vida artística no funk, tendo até mesmo o nome artístico de MC Anitta nos primórdios de sua caminhada rumo ao estrelato mundial. O gênero, nascido nas comunidades cariocas e que vem dominando as paradas nacionais dos principais centros urbanos brasileiros, é conhecido por seu ritmo acelerado, facilmente identificado pelas batidas frenéticas com sonorização inspirada no berimbau, presente em toda produção de funk. Em sua temática, o funk carioca explorou na década de 90 o romance vivido em bailes noturnos, ganhando mais força o funk proibidão a partir dos anos 2000, no qual o sexo, drogas e até mesmo a criminalidade presente nas favelas do Rio de Janeiro tornaram-se tema centrais de muitos MCs.

Devido a sua trajetória, o funk sempre foi um gênero musical muito marginalizado, com grande força entre os jovens brasileiros e que, de modo totalmente expressivo, trouxe temas importantes e socialmente desconfortáveis para o centro do debate nacional. Ainda assim, é preciso separar o funk carioca do paulista, devido às diferenças em sua produção e composição, que os tornam (apesar da batida similar presente), quase que ritmos diferentes. O funk paulista, diferentemente do funk carioca, tem a ostentação como força para suas composições, e a produção ficou “americanizada”, com samples de música pop e hip-hop norte-americana.

É necessário uma breve introdução da história do funk no Brasil para entender o último EP lançado por Anitta. Apesar de ser carioca, o funk de Anitta na maioria das vezes trouxe elementos paulistas em sua essência. Seu primeiro sucesso, “Show das Poderosas”, lançado em 2013, é o melhor exemplo a ser exposto. Por causa disso, Anitta muita das vezes incomodou funkeiras quando se dizia responsável por levar o funk carioca ao mundo: foram poucas as vezes que o ritmo raiz realmente estava presente nos maiores sucessos da cantora, que teve seus maiores auges no pop e reggaeton. 

A vontade de presenciar uma Anitta funkeira raiz pôde ser saciada em diversas músicas já lançadas, como “Vai Malandra”, de 2017, e “Rave de Favela”, de 2020, porém sempre em músicas avulsas e sem um projeto completo que explore o ritmo de modo eficiente. Esse buraco presente na discografia da cantora é o motivo maior dos fãs pedirem uma nova versão de Anitta: funkeira, brasileira e, logo, perfeita. Foi assim que nasceu À Procura da Anitta Perfeita, seu novo EP lançado de modo surpreendente no final de novembro de 2022.

Ficou evidente que o lançamento foi extremamente estratégico: lançado no final de novembro, Anitta aposta 7 músicas para o carnaval brasileiro — que se espera ser o maior dos últimos anos, por ser o primeiro carnaval após os momentos mais graves da pandemia de covid-19. O EP, apesar de pequeno, explora os principais ritmos dominantes na atualidade brasileira: funk, sertanejo universitário e o pop-funk paulista. Apesar do trabalho conseguir concluir todas suas metas, que eram puramente midiáticas e estratégicas, ainda podemos dizer que estamos em busca de uma Anitta perfeita.

A primeira faixa já introduz para quê o EP foi criado. “Macetar” é um funk sensual mesclado com trap. A letra confusa soa preguiçosa e que foi composta puramente para rimar e viciar o ouvinte, sem trazer elementos realmente relevantes: “Minha vida é uma obra de arte, tinha que ser exposta no museu / no mundo tem poucas nesse naipe, quem passou por aqui não se esqueceu / porque eu vou descendo, no talento / jogo a bunda devagar / eu vou te macetar”. Já em “Ela Não Vale Nada”, parceria com a dupla Maiara & Maraisa, é um dos pontos fortes do disco. O sertanejo universitário feminino, evidenciado para o público nacional por Marília Mendonça, está presente na colaboração. É o sertanejo universitário padrão, porém com a visão feminina da história inspirada nos romances contemporâneos. 

Ainda nesse sentido, “Biquíni Vermelhinho” é o maior acerto de Anitta. Assim como em “Girl From Rio”, sample de músicas clássicas utilizando novos elementos da nova música popular brasileira evidenciam esses elementos culturais nacionalistas, trazendo mais brasilidade à canção e enaltecendo a original que é homenageada na releitura, conseguindo assim transmitir sentimentos entre gerações. A receita para produção da faixa é tão similar ao seu lançamento anterior que soa como se ambas gravações fizessem parte de um mesmo álbum: seria “Biquíni Vermelhinho” uma das músicas do descartado álbum que perdeu lugar para o tão bagunçado Versions Of Me, de 2022?

Por outro lado, a  faixa seguinte é um tiro no pé. “Mel”, colaboração com Wesley Safadão, é a melhor exemplificação de música genérica e preguiçosa. Totalmente rasa em seus conteúdos, Anitta e Wesley cantam versos bobos para replicar a receita de sucesso já usada por diversos cantores de sertanejo universitário: mais importante é rimar, criar repetições viciantes e mesclar isso com o instrumental idêntico a qualquer música já lançada desde 2017. Resultado disso é uma música esquecível e até mesmo irritante. No entanto, é “Ai Papai”, colaboração com a HITMAKER e MC Danny, o carro-chefe do disco, provavelmente a aposta de Anitta para hit do carnaval: viciante, divertida e completamente viral. Consegue chegar nos auges que se propõe e faz isso com certa maestria. Apesar disso, não é nenhuma revolução musical: analisando-se as últimas músicas que atingiram o topo das paradas musicais brasileiras, várias seguiram a mesma fórmula.

No final do EP, “Avisa Lá”, colaboração com POCCAH e Rebecca, chega de modo frenético e com toda identidade das artistas convidadas. O funk 150 bpm e o refrão convidativo finalizam a receita de um trabalho criado para o público majoritário. Apesar de acertos, a presença de más escolhas num trabalho tão curto deixa a obra completa a desejar: ainda continuamos a busca pela Anitta perfeita, que, voltando à realidade menos egoísta e narcisista, não é uma procura tão importante assim. Aliás, outros artistas realizaram o feito majestoso de produzir um álbum funk relevante e de qualidade extraordinária: o disco BAILE do FBC, lançado em 2021, é digno de realeza, mas a preocupação do artista foi, sem devaneios egoístas, representar um povo e sua cultura.A perda da brasilidade nas músicas da cantora é evidente, a falta de um álbum completamente funk que eleve o gênero tira mérito da “sensação da favela” e esse EP não conseguiu suprir essas necessidades, muito pelo contrário, deixa a dúvida no ar: Anitta consegue criar um álbum completo de funk original, com qualidade e que consiga quebrar barreiras ainda não alcançadas por ela e por outros funkeiros? É necessário ressaltar a importância da música brasileira de ser divertida, além de filosófica. Um dos países que mais sofrem com a desigualdade, povoado majoritariamente por trabalhadores descendentes de negros escravizados e com uma cultura tão rica necessita em sua essência de momentos de diversão — é nessa urgência que surgiram gêneros tão importantes como o samba e o funk, que pela importância dada aos brasileiros, foram de gêneros musicais proibídos e marginalizados para a trilha sonora de um filme belo e único: a história do Brasil. É crucial que a rainha do funk veja a importância desse nome. Infelizmente esse EP não parece ter sido levado a sério pela própria artista, quem dirá por seus súditos que permanecem buscando a perfeição em uma obra funk realmente revolucionária digna ao título auto-intitulado.

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