Big Time
2022 • ALTERNATIVO/ROCK/COUNTRY • JAGJAGUWAR
POR LEONARDO FREDERICO; 06 de JUNHO de 2022
8.6
MELHOR LANÇAMENTO

Grande parte das canções de Angel Olsen surgem em momentos sombrios e de extrema desesperança, aqueles em que você é atormentado pelo seu passado e atordoado pela incerteza do futuro. Esse caráter de honestidade catártica fez com que o trabalho de Olsen se conectasse profundamente com ela, para além de criar um estilo e personalidade inegavelmente dela. Um dos melhores exemplos disso é seu novo disco, Big Time. Desde o lançamento de All Mirrors, em 2019, Angel reformulou sua vida por completo, mas existe um episódio interessante nesses três anos que foi quando os pais de Olsen faleceram logo depois de ela se assumir queer. Poucos dias depois do falecimento de sua mãe, a cantora estava de volta para o estúdio, tocando o que viria a ser a faixa-título do seu mais novo registro, mesmo com todos falando que ela não precisava fazer isso apenas para respeitar o prazo de produção das cópias físicas. “Eu apenas vou fazer e ver no que dá”, ela disse à Pitchfork. Era Angel trabalhando em força total dentro de sua própria essência.

Big Time surge como mais uma grande mudança em sua discografia. Quando ela estreou em 2012, com Half Way Home, suas canções soavam como peças rústicas tiradas de um sótão: era algo envelhecido, quase barroco, mas altamente familiar e reconfortante. Seu gênero de escolha era o folk, principalmente pela facilidade de fazer suas linhas e versos se estenderem mais do que usual, fortalecendo suas narrativas. Em My Woman, contudo, ela trocou puxões alternativos em violões empoeirados por dedilhadas rápidas em guitarras e kicks de baterias, que logo tornaram-se cavernas obscuras e gritantes em All Mirrors. Isso, na realidade, é apenas uma das provas de que Olsen era uma artista completa, de que ela poderia criar e recriar suas histórias em qualquer cenário que ela achasse prolífico. 

Esse novo lançamento de Olsen é seu primeiro álbum country — ou, pelo menos, seu primeiro trabalho taxado com tal. Por anos, a artista tentou fugir de ser vista como uma cantora country e da música folk que perdurou durante seus primeiros projetos. Em Big Time, por outro lado, ela abraça as suas raízes de uma forma calorosa, finalmente usando cenários bucólicos como uma locação em potencial para edificação de sua instrumentação. Lucinda Williams e o country dos anos 1970 são as principais influências dessa ação quase fílmica em que Olsen retrata amor, perda, conquista, superação e estagnação de forma que esses sejam sentimentos que seguem paralelamente em uma linha. Além disso, é seu registro mais acessível até então.

A maioria do material apresentado por Olsen em Big Time conecta-se com o passado. Da mesma forma que as músicas de Half Way Home soavam como canções históricas, folclóricas e populares do início do último século, esse novo disco quebra as barreiras do padrão. Se você olhar para o atual cenário do country, ele se encontra empobrecido, principalmente na sonoridade que raramente passa de uma fusão barata de sintetizadores, baterias e violões. Por outro lado, Olsen honra o antigo. Na faixa-título, por exemplo, Angel resgata as performances em bares de estrada de Nashville, enquanto sua composição expande para uma lírica dolorosamente ambígua: quando ela canta no refrão (“I’m losin’, I’m losin’, I’ve left it behind / Guess I had to be losin’ to get here on time”), suas palavras podem ser sobre um suposto amante, mas também sobre sua falecida mãe. Entretanto, a essência de gratidão sobre finalmente se encontrar é presente em cada trecho. 

Como sempre, as canções de Angel não são vencidas sem que elas olhem para dentro da cantora. Na abertura, “All The Good Times”, que se apoia sobre baterias quase acústicas e na expansão de um mellotron, ela canta: “So long, farewell, this is the end / […] / Thanks for the free ride / And all of the good times”. Porém, o ponto aqui é o que Jenn Pelly marcou: “Parece simples até você perceber que pode ser um adeus a um antigo eu”. Dessa maneira, o refrão de “Dream Thing” subverte o sentido de um amor, colocando seu próprio eu em perspectiva: “I was lookin’ at old you / Lookin’ at who you’ve become / I was hopin’ to talk some / Music had already begun”. Durante todo o disco, ela se sente presa (“Ghost On”) ainda que deseje profundamente fugir (“All The Flowers”). Contudo, a melhor é “Right Now”, na qual ela pede por alguém que realmente a entenda: “Why’d you have to go and make it weird / Saying things you think I need to hear / I don’t need to know what makes it last”. Mas, mais do que nunca, isso é um pedido para ela mesma. 

No entanto, seria negligente ignorar o fato de que Olsen parece se perder nos minutos finais do disco. Quando se olha para as três últimas faixas, é difícil percebê-las dentro do contexto country desse trabalho. Embora sejam profundamente elegantes, refinadas e profundas, elas, em grande parte, conectam-se com outros momentos e obras. “Go Home”, por exemplo, trabalha questões de descobrir uma nova identidade e lidar consigo mesma (“I am the ghost now / Walking those old scenes / How can I go on?”), mas quase sempre ressoa em tonalidades de All Mirrors e My Woman. No mesmo sentido, “Through the Fires” ecoa como um descarte de seu quarto álbum com toques de Honeymoon, de Lana Del Rey, e “Chasing the Sun” é sofisticada, mas foge dessa recriação de Nashville. Porém, mesmo nessas linhas perdidas, Olsen ela olha para si mesma e para as pessoas ao seu redor, cantando sobre vida e morte com sinceridade, sempre parecendo estar no caminho certo.