SOUNDX

Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua

• RISCO

• 2023

9.6

Me Chama de Gato que Eu Sou Sua é um projeto que narra e celebra o amor queer.

Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua

• RISCO

• 2023

9.6

Me Chama de Gato que Eu Sou Sua é um projeto que narra e celebra o amor queer.

PUBLICADO EM: 18/12/2023

PUBLICADO EM: 18/12/2023

Ana Frango Elétrico é uma das principais artistas da chamada “nova MPB”. Suas canções experimentais e concretas trazem um maior foco em produções, instrumentação e interpretação. Contudo, com esse lançamento, observamos uma sutil mudança na abordagem musical e visual de seu trabalho. Elétrico abraça músicas com significados mais profundos, sem perder o grande jogo de palavras que já se tornou característico. 

 O álbum é uma coleção de faixas que comunica o amor queer da forma mais sincera e honesta, enquanto usa de metáforas para construir canções mais sensuais. O disco traz muitas menções aos corpos de outras pessoas, não de uma maneira pornográfica, mas contemplativa. Há uma admiração e um desejo nutrido com carinho e respeito pelo outro indivíduo. Inicia-se com a deliciosa “Electric Fish”, que sugere uma situação onde o sexo é implícito, está por baixo dos panos, mas é super palpável. A tensão sexual e o amor romântico caminham lado a lado em “Insista em Mim”, uma balada com muitos instrumentos de sopro, em que vemos uma pura declaração de amor e uma ode a todas as qualidades e defeitos do outro. Características semelhantes são encontradas em “Nuvem Vermelha”, que pinta um cenário cinematográfico de um pôr-do-sol lindíssimo, enquanto Elétrico observa atentamente, deseja e admira.

Uma característica marcante do projeto é a ausência de gênero na maioria das músicas — exceto, ironicamente, a faixa “Dela”, que não apenas brinca com os pronomes de forma divertida, mas é uma exímia parceria com o rapper JOCA.Todas as faixas são direcionadas para todos os gêneros possíveis, enquanto Ana brinca com eles,sendo menino, sendo menina e algo no meio dos dois. Em trechos como “Você desperta meu lado feminino, mas hoje eu sou menino” da canção “Camelo Azul”, destaca essa abordagem, inspirada no jazz e no bolero. Ou até mesmo, a divertidíssima dance-track “Boy of Stranger Things”, que não apenas brinca com a semelhança de Ana com o ator Finn Wolfhard, mas também conta com o refrão “I’m the boy of Stranger Things, i’m not the girl that you think”.

É gratificante ser quem você é, sem amarras e completamente livre de julgamentos por parte de desconhecidos que jamais entenderiam. E toda essa glória é impressa de forma coesa e muito bem construída no projeto. “Debaixo do Pano”, um cover da banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, exemplifica essa irreverência ao misturar gêneros, na interpretação e nos instrumentos de sopro que dão a cereja do bolo. “Dr. Sabe Tudo”, uma clara homenagem a Rita Lee, sem precisar citá-la ou samplear a mesma, mostra Ana utilizando o mesmo deboche ao descrever um suposto sabichão que não assume estar errado, pois diz não perder tempo com o amor, sem perceber que gasta mais tempo com tanta seriedade e prepotência sobre sua própria vida. 

Ana Frango Elétrico entrega um registro que conta sua verdade, enquanto cria uma trilha sonora para toda uma faixa etária. Suas canções podem não ser direto ao ponto, mas constroem uma imagem na cabeça do ouvinte de forma única, o que as tornam extremamente cativantes e instigam o desejo de repeat, de forma que não importa o sucesso comercial, e sim os sentimentos evocados em quem consome. A artista prova que vale a pena ser original e apostar no novo, pois é a única forma de ser lembrada por trabalhos excepcionalmente bons.

MAIS CRÍTICAS PARA

plugins premium WordPress