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Blue Rev

2022 •

Polyvinyl

8.5
Produto de cinco anos de árduo trabalho, Blue Rev, dos canadenses Alvvays, é um prato cheio para qualquer fã de rock indie.
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Blue Rev

2022 •

Polyvinyl

8.5
Produto de cinco anos de árduo trabalho, Blue Rev, dos canadenses Alvvays, é um prato cheio para qualquer fã de rock indie.
24/10/2022

A jornada que Alvvays trilharam para concluir o seu terceiro álbum, Blue Rev, não foi nada fácil. Desde 2017, um furto, uma enchente e uma pandemia global atrasaram em cinco anos o lançamento do disco. O longo hiato fez com que muitos achassem que a banda tinha acabado, e o antecipado terceiro projeto, não viria nunca. Felizmente, as preocupações dos fãs eram em vão, Blue Rev enfim chegou, e a espera valeu muito a pena.

Blue Rev já começa forte, com a melhor faixa do álbum inteiro, “Pharmacist”, que em toda a sua glória power pop, estabelece a fórmula a ser seguida pelo resto do disco: melodias chicletes, guitarras poderosas, versos distorcidos, e refrões mais ainda. Não há muita variação de gênero dentre as canções do disco, com o grupo permanecendo sempre fiel ao seu som característico, misto do indie rock agressivo, de bandas como Teenage Fanclub, e o dream pop, do Cocteau Twins e My Bloody Valentine. Entretanto, isso não significa que a obra seja estática ou repetitiva. Com toda canção, a banda expande seus limites e aproveita por completo as vastas possibilidades que o seu gênero permite. Em Blue Rev, Alvvays limitaram sua palheta estilística, para poderem explorar ao máximo o potencial da sua nova sonoridade. Um feito admirável nesta era em que a maioria dos artistas optam por diversidade de gêneros, sem salientar-se em algum estilo em particular.

Há porém, uma faixa que, em contradição a relativa homogeneidade da obra, foge completamente da sonoridade típica da banda: “Very Online Guy”. Pastiche claro do Kraftwerk, abandonando as guitarras a favor de um som reminiscente dos primórdios da música eletrônica, a canção é o único momento em que Alvvays interessam-se na possibilidade de abranger uma variedade maior de gêneros, sendo uma grande surpresa ao ouvinte escutando pela primeira vez. Very Online Guy também se destaca liricamente, abordando uma perspectiva mais satírica, ao invés da introspecção típica do conjunto. O ponto alto da composição é a ponte, que após versos e refrães animados, pivota a uma direção mais atmosférica, tornando aos temas introspectivos, que são especialidade do Alvvays, para concluir a mensagem da música (“Like a thinning wave, what was it supposed to be?/ The truth is I’m afraid of sudden change/ But when you’re close to me, does anyone notice?/ Life disintegrates, what was it supposed to be?”). Normalmente uma mudança de rumo tão brusca em um álbum tão consistente como esse seria uma grande falha, mas “Very Online Guy” é tão bem escrita, que estou disposto a relevar.

Após a previamente mencionada “Pharmacist”, seguem “Easy On Your Own?”, “After The Earthquake”, e “Tom Verlaine”, uma sequência impecável que promete muito das restantes músicas do lançamento. É para a nossa decepção, porém, que esta promessa é jamais comprida. Blue Rev nunca, em toda a sua duração, alcança novamente o mesmo nível de excelência dos seus dez primeiros minutos. Está aí, um dos principais problemas do novo lançamento do Alvvays: de “Pressed” em diante, é notável uma significativa queda de qualidade do começo do disco ao fim. O que não significa que não haja do que tirar proveito na última parte do projeto, mas apenas que a as últimas faixas são, em geral, inferiores às primeiras. Fenômeno que os gringos chamam de “backloading”. Consequência disso, é que o ouvinte passa a se sentir desinteressado aproximando o fim do álbum, o que afeta em muito o fluir da obra como um todo. Considerando o dinamismo característico da banda, certificar-se que o seu trabalho está coeso e bem sequenciado deveria ser uma das suas principais preocupações.

O progresso percorrido por Alvvays desde Antisocialites (2017) até Blue Rev é admirável, no novo disco o grupo apresenta um nível de requinte raramente visto no mundo do indie rock. Os vocais da Molly Rankin, antes apenas ganidos insecuros, finalmente alcançaram maturidade, e são capazes de expressar a completa paleta de emoções que as suas canções demandam. Canções essas, afinal, que alcançaram novos patamares de sofisticação e complexidade com o novo álbum; a custo do apelo imediato de seus prévios lançamentos, mas ganhando em troca uma nova dimensão de profundidade e valor emocional. As letras da banda, antes um dos seus pontos mais fracos, agora chamam atenção por sua excelência. Foram-se as metáforas inexpressivas e rimas bobas de Antisocialites(2017). Blue Rev é a primeira obra de Alvvays onde as letras são de real interesse.

Dito isso, o álbum não é perfeito e há ainda espaço para melhoria. Além da já discutida queda de qualidade nas últimas canções comparado com as primeiras, é também notável, em alguns momentos seletos, a dependência que a banda tem em replicar o som dos outros artistas para formar o seu. “Pressed”, por exemplo, é praticamente um lado B de The Smiths, enquanto o solo em “Pharmacist”(apesar de ser muito bom) é totalmente derivado dos solos de guitarra do J. Mascis, do Dinosaur Jr.

Em conclusão, Blue Rev é um dos melhores álbuns de rock alternativo e independente dos últimos anos. Alvvays já tinham marcado a cena indie com seus dois primeiros álbuns, mas o seu último está fadado a ter um impacto ainda maior, tanto na cena atual, quanto na futura, ajudando a definir o som das novas promissoras bandas surgindo nos últimos anos, e as que estão para surgir. Se Alvvays se desfizesse hoje, Blue Rev asseguraria a legacia do grupo, anos por vir.

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