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Ao vivo

2002 •

Indie Records Ltda

10
Passeando por ritmos como o forró, pagode e até mesmo uma variante brasileira do soul, além de incluir os boleros românticos clássicos em sua discografia, o projeto é uma aula de como se construir um concerto de MPB.
ao vivo

Ao vivo

2002 •

Indie Records Ltda

10
Passeando por ritmos como o forró, pagode e até mesmo uma variante brasileira do soul, além de incluir os boleros românticos clássicos em sua discografia, o projeto é uma aula de como se construir um concerto de MPB.
09/04/2023

No início da década de 2000, Alcione já era um ícone consolidado: com quase 30 anos de carreira, a maranhense já era dona de múltiplos sucessos conhecidos e amados por todo o Brasil, como “Não Deixe o Samba Morrer”, “A Loba” e “Você Me Vira a Cabeça (Me Tira do Sério)”, dentre muitos outros. Considerada a rainha do samba, sua discografia ainda carecia de um grande projeto ao vivo. O primeiro, “Nos Bares da Vida”, foi lançado em 2000 e incluía apenas baladas românticas, para celebrar grandes sucessos da vida boêmia carioca. Justamente por fugir de seus sambas alegres e cativantes, não é atribuído ao disco grande relevância no cenário da MPB. Em uma segunda tentativa, no ano de 2002, chega ao mercado o registro ao vivo de um novo show da Marrom — dessa vez, incluindo seus maiores sucessos e saudando o gênero que a deu a fama.

Ao vivo, o primeiro volume da coleção, é uma celebração à carreira de Alcione. Passeando por ritmos como o forró, pagode e até mesmo uma variante brasileira do soul, além de incluir os boleros românticos clássicos em sua discografia, o projeto é uma aula de como se construir um concerto de MPB. Definitivamente, a música brasileira, sobretudo o pagode, nunca mais foi a mesma após esse álbum.

Em comparação a outros músicos da mesma vertente, o disco não representava nenhuma novidade no mercado, visto que outros projetos ao vivo já tinham sido lançados anos antes, por exemplo, por Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, ambos em 1999, Só Pra Contrariar em 1996 e Beth Carvalho em 1987. O grande diferencial de Ao vivo é a inclusão ao público. Dentre os trabalhos mencionados, certamente é o mais acessível e reconhecido pelo povo brasileiro — principalmente se levarmos em consideração o DVD, que uniu os repertórios de ambos os volumes do show.

Dentro da seleção de faixas, vale destacar “Sufoco / O surdo”, que abrem o primeiro volume, e narram um término de uma relação tóxica à mulher. Alcione é sempre mencionada como precursora em abordar questões sociais referentes às mulheres na música brasileira, sobretudo tratando da vida da mulher negra. Diferentes faces do amor são mostradas ao decorrer das faixas, transitando entre seus bons e maus momentos. Da traição ao amor eterno, do sofrimento à libertação, existem canções para todas as situações e gostos.

Os dois maiores sucessos do álbum, “Depois do prazer” e “A loba”, refletem sobre o mesmo tema, porém de óticas diferentes. A primeira, uma regravação lançada inicialmente na voz de Alexandre Pires, sob comando do grupo Só Pra Contrariar, trata a traição com arrependimento por parte do eu lírico. É envolvente, apaixonante e evoca sentimentos românticos, apesar do deslize no relacionamento da personagem. Durante a canção, amor verdadeiro é prometido: “Vou falar que é amor / Vou jurar que é paixão / E dizer o que sinto com todo carinho pensando em você”. A segunda, porém, aborda a traição sob o prisma da vítima, da pessoa traída. O eu lírico, dessa vez, assume uma posição forte e não poupa esforços em avisar o companheiro: “Sou de me entregar de corpo e alma na paixão / Mas não tente nunca enganar meu coração”. Ao escutar a canção, que se tornou um marco histórico na MPB, é praticamente inevitável sentir as dores da intérprete.

Outras músicas presentes no LP já eram ou se tornaram grandes sucessos em todo o país, como “Meu vício é você”, “Estranha loucura”, “Mulher ideal” e “O que eu faço amanhã”. Já conhecidas por fãs da Marrom, essas compõem diferentes projetos da cantora, e mostram sua habilidade inigualável de interpretação dos sentimentos das composições, no entanto, o lançamento desse projeto, em específico, marcou um período de transição para a carreira de Alcione: antes, já era reconhecida como um ícone da música nacional e, de fato, atingia um grande público. Depois, atingiu o status de lenda, e seu público se tornou muito maior, bem como a própria cantora passou a ser conhecida como “a celebridade das celebridades”. Não existe um artista sequer no Brasil que não possua o desejo de trabalhar com ela, ou, ao menos, um certo apreço por ela ou por sua obra.

Nesse sentido, artistas de todos os gêneros já foram agraciados com a oportunidade de trabalhar com ela: Maria Bethânia, Péricles, Roberto Carlos, Ana Carolina, Sandra de Sá, entre outros. Os mais novatos no samba e pagode, como Ferrugem, Mumuzinho e Thiaguinho, claramente apresentam influências da Rainha e frequentemente regravam ou apresentam canções dela em seus próprios concertos. Os dois últimos, em específico, já atingiram patamares maiores de sucesso e influência, e estão trilhando o mesmo caminho que a diva, rumo ao estrelato máximo na música brasileira.

O disco Ao vivo embalou muitos momentos marcantes na vida dos brasileiros, sendo bons ou ruins. A drag queen mais famosa do mundo, Pabllo Vittar, por exemplo, já assumiu diversas vezes que é fã e que se inspira na obra de Marrom, mostrando que seu alcance predomina por todos os gêneros da música brasileira, indo além das áreas de atuação da artista. A partir de 2002, é possível ver uma grande onda de discos ao vivo inéditos no meio samba-pagode, protagonizada por lançamentos de Exaltasamba (2002), Dudu Nobre (2004), Mart’nália (2006) Diogo Nogueira (2007) e Martinho da Vila (2008).

Certamente, o mercado fonográfico brasileiro não seria o mesmo sem esse poderoso trabalho. O legado construído por Alcione, acima de tudo, modificou os rumos da cultura nacional através da identificação do público com sua arte. A criação de um espaço dedicado às dores e os embalos da vida da mulher preta brasileira elevou a obra de Marrom a um patamar único, no qual seus projetos não são apenas discos de MPB carregados de energia e sentimento, mas também são potentes manifestações culturais, recheadas de conceitos e repertórios culturais.

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