30
2021 • POP • COLUMBIA
POR LEONARDO FREDERICO; 26 de NOVEMBRO de 2021
7.8

Quando Adele anunciou que seu quarto álbum de estúdio seria seu registro mais pessoal e intimista, ela parecia desafiar a si mesma. Isso porque, anos antes, com 21, seu segundo disco, ela espalhou uma onda de tristeza emocional pelo globo: até mesmo aqueles que se encontravam em um relacionamento, pareciam se depreciar com as composições amargas sobre dizer adeus a alguém. “Someone Like You”, provavelmente a faixa mais famosa da cantora, rapidamente se tornou um clássico da música contemporânea. Adele, principalmente nesse trabalho, conseguiu canalizar as emoções de um coração partido como ninguém, soando diferente de todo mundo e transportando os sentimentos doloridos e latejantes para linhas cruelmente afiadas. Então, como ela conseguiria realizar algo mais intenso do que isso?

Bom, ela não conseguiu. 21 continua sendo seu melhor trabalho, mas 30, seu quarto registro, vem logo em seguida. Sem dúvidas, esse, seu primeiro projeto de inéditas em seis anos, não é seu álbum mais cativante e memorável, contudo, é o mais ambicioso. Deixando de lado a melancolia de pianos e cordas simplistas, Adele aposta em um disco complexo e, de certa forma, visionário. Por mais que, nem sempre, ele funcione e soe como algo distante da segurança pela a qual britânica já foi criticada, ainda assim é um passo promissor para o desenvolvimento artístico de uma das melhores vozes da história da música. Pela primeira vez, Adele parece deixar de lado suas chances de sucesso e de criar um disco certeiramente clássico por uma via que transmitirá, com honestidade, seu coração. 

O contexto do disco é, sem dúvidas, sua parte mais importante. Ocasionalmente, apenas, o cenário em torno de uma obra de música atual é tão influente em seu processo de concepção. Nos últimos anos, talvez, os melhores exemplos sejam Red, de Taylor Swift, My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de Kanye West, e Fetch the Bolt Cutters, de Fiona Apple. Esses são registros que funcionam ainda melhor se você considerar o espaço e o tempo à sua volta, seja por esses refletirem diretamente o momento da vida do artista, seja por serem um espelho da sociedade no momento. No caso de 30, isso ocorre também: o divórcio de Adele, o conflito entre a felicidade sua e de seu filho, a preocupação com seu futuro e o adoecimento psicológico são as pautas que sustentam o trabalho, e, de certa forma, que o tornam genuinamente interessante. 

Como dito, 30 é o álbum mais ambicioso de Adele. Esse caráter é visto em várias faixas, como as pinceladas de reggae e R&B em “Cry Your Heart Out”, sintetizadores EDM, em “Oh My God”, e a fusão de country com rock de estrada, em “Can I Get It”. Porém, o curioso de se observar é como, apesar da artista sair  de sua área de conforto, rumo a esses gêneros que vão além do que ela mostrou anteriormente, tudo ainda ecoa de forma segura. Olhe, por exemplo, para “Can I Get It”, em que Adele consegue criar uma canção relativamente prazerosa com a dupla de produtores Shellback e Max Martin, contudo, em um aspecto geral, parece a reprodução de uma fórmula saturada: violão cru, batidas opacas em baterias e assobios. Dessa forma, a sensação é que o disco é muito mais sobre Adele tentar mudar sua sonoridade do que realmente fazer algo voltado para o lado experimental. Mas, pelo menos, ela tentou. 

No entanto, nem sempre Adele consegue acertar o ponto quando ela muda para esses diferentes gêneros, estilos e estéticas sonoras. Voltando para “Cry Your Heart Out”, por exemplo, além de soar genérica, às vezes, consegue soar fora de sintonia consigo mesma, principalmente pelas vozes sintéticas que parecem sair de um rádio dos anos 1960 e que raramente estabelecem uma conexão com os demais elementos da música. Enquanto isso, “Oh My God” é provavelmente a faixa mais barata de Adele, basicamente por soar como algo feito pelo Chainsmokers: gritos que se confundem com uma espécie de assobio e geram o que parece ser o som de um alienígena. Até mesmo a abertura, “Strangers By Nature”, apesar de sua composição, há momentos em que se torna uma junção não muito homogênea de diversos elementos. Não é ruim, nem bom, só é sem graça

Por outro lado, se Adele, em seu álbum de 2015, 25, estava pendendo para cair na mesmice, dando continuidade para seu repertório instrumental, que na época estava se tornando cada vez mais curto; em 30, ela implementa uma revitalização daquilo que fez ela ser quem ela é. “Easy On Me”, depois de estranhamentos iniciais, começou a ressoar mais como uma nova leitura mais amigável de um sentimento do passado. Da mesma forma, “I Drink Wine” ressalta as qualidades de liricista de Adele. “How can one become so bounded by choices that somebody else makes? / How come we’ve both become a version of a person we don’t even like?”, ela questiona. Em contrapartida, em outros instantes, como na faixa final, a britânica parece presa ao seu passado, entregando uma faixa da Adele para um novo álbum da Adele, feito para o público da Adele.

As duas melhores músicas de 30 são as duas mais honestas: “My Little Love” e “To Be Loved”. A primeira pinta Adele conversando com seu filho, assumindo uma posição madura de entender que, embora mãe, ela ainda erra, tem suas dúvidas e está aprendendo e crescendo. Definitivamente, uma de suas canções mais vulneráveis. Em segundo, uma das faixas finais do disco, entrega vocais deslumbrantes e o refrão mais potente de todo o registro. “To be loved and love at the highest count / Means to lose all the things I can’t live without / Let it be known that I will choose to lose / It’s a sacrifice, but I can’t live a lie”, ela canta. Nesses dois casos, ela nunca tinha sido tão honesta. Claro que, no final, 30 não soa tão direto e coeso e não carrega os aspectos de clássico que 21, porém, parece a direção certa para Adele se tornar uma persona artística ainda mais forte, e também, uma pessoa ainda melhor.