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Monkey On Tha D$ck

1996 •

Cash Money

6.0
Monkey On Tha D$ck, de Magnolia Shorty, foi promissor em fundar as bases da bounce music em Nova Orleans.
Magnolia Shorty - Monkey On Tha D$ck

Monkey On Tha D$ck

1996 •

Cash Money

6.0
Monkey On Tha D$ck, de Magnolia Shorty, foi promissor em fundar as bases da bounce music em Nova Orleans.
19/02/2023

Desde que foi lançado, em 1996, Monkey On Tha D$ck nunca recebeu um sucessor stricto sensu. Não houve notícias da rapper americana Renetta Yemika Lowe fora de sua região em Nova Orleans durante anos. Apesar de continuar participando de festivais, principalmente da cena bounce, derivante do rap e do hip-hop, Magnolia Shorty não lançou nada do que produziu quando voltou aos estúdios para condensar sua criatividade em faixas pensadas para compor um álbum ou novo EP solos. Ela — que, antes de assinar com uma gravadora especializada em hip-hop, já cantava música gospel em corais com Keady Black e fazia raps para compartilhar com seus amigos — foi um importante pilar da cultura de Nova Orleans, servindo de inspiração para seus pares contemporâneos e aqueles que surgiram após o seu falecimento. Na sua essência, Shorty foi uma figura que sintetizava “os elementos excêntricos de Nova Orleans: a sexualidade, a comédia e os ritmos de dança carregados”.

No dia 20 de dezembro de 2010, a rapper foi brutalmente assassinada no estacionamento do complexo habitacional onde residia. Naquele dia, Shorty voltava de Miami, na Flórida, após encabeçar um dos festivais mais importantes de seu gênero e, ao chegar em casa, foi encurralada por membros de uma gangue que efetuaram vinte e seis disparos, alvejando não somente a rapper, mas também seu amigo Jerome Hampton, o real alvo dos criminosos rivais. O crime foi amplamente noticiado e sentido pelos fãs, inclusive o mundialmente famoso rapper Lil Wayne. E, após quatro anos de julgamento, quatro pessoas foram acusadas de serem os autores do atentado. Depois, no dia 22 de fevereiro de 2017, o júri federal considerou culpados sete homens por práticas de gangues ilícitas, similares às das milícias no Rio de Janeiro, e uso de armas de fogo para fortalecer o tráfico de drogas — entre os julgados, dois dos quais foram responsáveis pelo duplo homicídio de Yemika e Hampton.

Na verdade, havia muitos motivos para ser fã de Renetta: ela foi a primeira mulher a assinar com a gravadora Cash Money, bem antes de Nicki Minaj. E, apesar de ter retornado no final dos anos 2000, deixou o mesmo selo quando sentiu que não estava sendo respeitada — assim como outras diversas rappers que também relatam terem sido negligenciadas pela empresa. Além disso, Lowe também foi a lenda que  serviu de inspiração naquela época para seus pares e, com o passar do tempo, sua impressão digital no hip-hop não se dissolveu — haja vista a interpolação de “Monkey On Tha D$ck”, utilizada por Chris Brown em sua música “Wobble Up”, com participação de Nicki e G-Eazy, e a de “Smoking Gun”, seu cover de Jadakiss e Jazmine Sullivan, utilizada por Drake em seu enorme hit “In My Feelings”.  Sobre isso, sua amiga Keady Black destaca que Drake sempre esteve ao seu lado e não tentou aproveitar-se de uma narrativa negativa para se autopromover: “eu fui contatada antes disso”, ela diz em entrevista.

No mais, por ser considerada um dos mais importantes nomes da cena do hip-hop no sul dos Estados Unidos, a rapper cristalizou-se como base da bounce music. A bounce music, aliás, é um estilo de música baseado em um passo midtempo sobreposto de batidas de chimbal aceleradas; produções com sintetizadores não são raras. Seu conteúdo é geralmente bastante sexualizado, já que era um ritmo predominante dos guetos e das festas de beco.  A respeito disso, neste século, um dos lançamentos mais notáveis nesse gênero foi, sem dúvidas, Just Be Free, de Big Freedia. Esse álbum até mesmo foi reverenciado pelo cometa cintilante Beyoncé, em seu retorno à órbita da música pop — quase dez anos desde seu último alumbramento, o autointitulado BEYONCÉ —, com RENAISSANCE. Maravilhoso como só ele, seu álbum de 2022 aposta no disco e no house e conta com samples clássicos em todas as faixas; das quais destaca-se, contudo, “Break My Soul”, canção house que contém uma interpolação de “Explode”, de Big Freedia, justamente do álbum que emprestou da rapper de Nova Orleans toda sua sagacidade e experiência com a bounce music.  Tudo isso soma para um único ponto: Magnolia Shorty é imortal, e quem tentou calá-la deu efeito rebote, proporcionando ainda mais força à sua voz.

Entre seus últimos projetos em vida, a rapper teve uma participação na música “My Boy”, de Kourtney Heart — uma promissora jovem de 17 anos que nascia no mesmo berço cultural que Shorty —, uma peça enérgica e estúpida, mas igualmente contagiante. A letra apoia um estereótipo  bastante convencional e que nada representa a personalidade de Magnolia — talvez, por isso, seja tão cativante e divertida. Shorty não foi uma mulher que cedia às exigências de um homem. Apesar de seu nome artístico ter sido cravado pelo seu amigo Soulja ou Magnolia Slim — ambos os artistas fazem referência em seus pseudônimos artísticos ao complexo habitacional de Nova Orleans, o chamado “Magnolia Projects” —, seus ex-companheiros de trabalho e de vida contam alguns detalhes sobre sua altivez. Em entrevista, do documentário produzido acerca de seu brutal assassinato, mesmo o rapper Lil Wayne diz que Renetta não hesitou em alterar a sua música e ajudar a definir os ganchos e qual produção vocal escolher. Em outro depoimento, um de seus amigos conta que Shorty, durante sua adolescência, cresceu como uma tomboy, que jogava bem o futebol.

Enfim, no que tange ao seu primeiro e único registro solo em vida, Yemika Lowe parece ter chegado ao estúdio como um tornado. A rapper não falha em entregar atitude e energia, além de, é claro, dotar-se de um rápido e eficiente flow. Nesse sentido, a introdução “Money Fresh (Cash Money Style)” abre o trabalho com um clima inicial ainda pouco carregado; a faixa-título seguinte, no entanto, configura-se como a gravação de maior destaque no disco: a canção sintetiza notavelmente o cenário do sul dos Estados Unidos e prova o porquê, para alguns, Magnolia Shorty é indiscutivelmente a rainha da bounce music. Não obstante a isso, “Charlie Whop!!” dá prosseguimento à exuberância do poder de construir versos como uma máquina da rapper. É incessantemente frenética. Quanto às apresentações ao vivo, Shorty envolvia completamente o público e era recebida com reverência. Seu maior show aconteceu no festival SXSW, em Austin, Texas.

Todavia, todas essas qualidades não escondem os flagelos do amadorismo. Conquanto seja possível apreciar e reconhecer o talento de Shorty, esse EP não é exatamente o mais primoroso do hip-hop. As músicas são simples demais, cansativas demais, verdadeiramente pouco interessantes. É, por isso, uma tristeza que este seja seu único trabalho lançado, tendo em vista o seu assassinato no meio da confecção de seu segundo álbum. Possivelmente, com maior alcance na mídia, tendo a possibilidade de trabalhar com melhores produtores, até mesmo para que sejam capazes de frear a mente caótica da rapper, Monkey On Tha D$ck seria ainda mais valioso e geraria mais expectativa por uma continuação. De volta às suas participações em festas locais, há muito pouco disponível nos dias de hoje, e o que há é de tamanha baixa qualidade que seria, talvez, injusto avaliá-la a partir disso. Em uma de suas apresentações, por exemplo, a imagem é péssima, os sons que se apresentam são indistinguíveis, e assistir às dançarinas arriscando o pior twerk já visto é uma experiência excruciante, O legado de Magnolia é inalienável e intransferível. Sua música ainda pode — e deve — viver na mente dos criadores de rap. Ela deixa de agir ativamente na produção cultural de Orleans, mas torna-se um símbolo de resistência à violência contra as comunidades negras.

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