SOUNDX

10,000 gecs

2023 •

Dog Show/Atlantic

8.8
Lançado mais cedo esse ano, o segundo disco da dupla funde perfeitamente o rock, pop e o eletrônico, explorando não apenas a potencialidade de cada um, mas também do que pode surgir desse casamento perfeito.

10,000 gecs

2023 •

Dog Show/Atlantic

8.8
Lançado mais cedo esse ano, o segundo disco da dupla funde perfeitamente o rock, pop e o eletrônico, explorando não apenas a potencialidade de cada um, mas também do que pode surgir desse casamento perfeito.
07/06/2023

Em março desse ano, poucos dias depois do lançamento de 10,000 gecs, o canal de notícias da Fox News, dos Estados Unidos, estava tocando “The Most Wanted Person in the United States” durante sua programação, mais especificamente no programa The Five, no qual os cinco apresentadores debatem os assuntos diários. Nas semanas que seguiram, o material do 100 gecs se tornou uma figura carimbada na grade: não era difícil ver as canções da dupla dando as caras, na maioria das vezes puxadas pelo apresentador Greg Gutfeld, que, em certo episódio, chamou o 100 gecs de “a melhor banda do momento”. Para entender a importância disso — e não digo com relação à propaganda que o grupo ganhou por ter um tempo de tela na televisão norte-americana —, é preciso entender todo posicionamento da Fox, que, nos últimos tempos, tem sido uma das fontes mais fortes do movimento anti-LGBTQIA+. Nesse sentido, a presença de 100 gecs, e consequentemente Laura Les, uma mulher transsexual, na Fox News é, minimamente, irônica. 

Na verdade, “ironia” é uma das palavras-chave do último álbum da dupla, 10,000 gecs. Essa é a estreia de Les e seu parceiro de trabalho, Dylan Brady, com um disco completo de inéditas em uma grande gravadora, Atlantic — eles não abandonaram a antiga Dog Show, mas agora também partilham espaço com Ed Sheeran, Bruno Mars, Coldplay e Twenty One Pilots. Isso, também, por si só, acaba sendo outra ironia: embora Brady tenha dito que eles estejam tentando fazer sucesso e Les tenha afirmado que a nova gravadora parecia um lugar bom para eles se encaixarem, comparado com outros artistas da gravadora, que orquestram suas canções no molde mainstream para lucrar, o 100 gecs, que focam em suas experimentações, estão longe de serem um match perfeito nesse cenário.

10,000 gecs é facilmente um dos álbuns mais ousados dos últimos tempos, não por experimentarem coisas novas, mas sim pela forma como resgatam e acenam para o passado. Nesse álbum, a dupla funde o pop, rock e eletrônico (e até mesmo um pouco do hip-hop) em dosagem perfeita, tirando proveito dos gêneros e suas individualidades, bem como do que as fusões têm a oferecer. O resultado é um conjunto de dez canções frenéticas e inquietas que aspiram olhar para a história da música e usar o passado como uma das colunas de construção do que a música pode se tornar no futuro. Por mais que a dupla se categorize dentro do hiperpop, o som deles consegue ir adiante, soando mais complexo que seus colegas vanguardistas. 

Na quase meia hora de duração do disco, não é difícil trombar em canções anacrônicas. O resgate feito pelo 100 gecs é uma olhada para a história do rock dos últimos 25 anos, rock esse que cresceu no espaço amador e não nas grandes gravadoras. Na abertura, “Dumbest Girl Alive, por exemplo, um choque de realidade da transição musical que ocorreu na virada do milênio: um crescendo de sintetizadores que remetem ao pop noventista de Michael Jackson é quebrado por um grito, característico do movimento da liberdade rock da época, e dedilhados de guitarra. Os vocais de Laura Les, por sua vez, quase sem fôlego, tentam capturar toda energia jovem desse período de ascensão de um rock subalterno. Em “Hollywood Baby”, Brady e Les agem como aqueles adolescentes que ganharam suas primeiras guitarras e persuadiram seus sonhos de clonar seus ídolos do rock e metal clássico dos anos 1980, mas com o que tinham na mão: seu som é uma guitarra suja e sua composição guia a trilha para escalada da fama e do sonho americano. Mais agressivamente, “Doritos & Fritos” surge com influências do ska-dance-punk, mas ainda assim tradicionalista. 

Por mais que eles atuem com mais exatidão quando estão desterrando esse gênero alternativo — que na época foi apenas reconhecido por seu público que estava começando a ter acesso à internet e computadores e começaram os blogs musicais no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 —, as pinceladas acabam abrangendo todo período, brincando com outros gêneros marginalizados, bem como pop. “Billy Knows Jamie”, por exemplo, contam com pick-ups muito característicos da cena hip-hop na passagem do milênio. Death Grip, um grupo já do começo da última década, também é remanescente quando a canção evolui de um flow para explosões de metal experimental. Por outro lado, as mesas digitais e as vozes sintéticas da frenética “757” lembram um pouco o trabalho de Daft Punk, e “One Million Dollar”, ainda com sua forte dependência de guitarras e seja um pouco filler, é o momento mais hiperpop de todo o registro. 

Tudo isso constrói um estilo próprio para o 100 gecs, que não é limitado apenas para seu som, mas para sua composição. Enquanto a ironia do som está presente no viés deles usarem sons do passado para construir seu caminho futurista, suas composições fazem o mesmo, trabalhando com narração de histórias que também são carregadas de metáforas. “The Most Wanted Person In The United States”, por exemplo, é bastante Springsteeniana, mais especificamente do disco Nebraska (1982). “I got my tooth removed”, por sua vez, é um das canções de término mais criativas dos últimos tempos (“You were tough, unforgiving / Made me cry all the time / You were mean, such an asshole / So I had to say goodbye”), enquanto que a canção-de-ninar “Frog on the Floor” funciona tanto para crianças, quanto se você colocar uma lupa e observar o ativismo LGBTQIA+ presente nas entre-linhas. Mas, acima de tudo, essas líricas são leves, sem perder seu propósito. 

A canção final do disco, “mememe”, é um dos instantes centralizadores do álbum. Digo isso, porque, existem elementos presentes nessa faixa que refletem tudo o que 10,000 gecs consegue ser: há os sintetizadores e distorções do Daft Punk; há cordas e baterias do rock dos anos 2000; há a maximização do hiperpop; mas também há a consciência de que essa faixa soa datada, no entanto, que acaba sendo uma pérola justamente por eles terem essa consciência. Por outro lado, uma parte de mim ainda diz que nada disso que escrevi faz sentido e que todas essas músicas são bem mais rasas do que aparentam — acho que nós nunca vamos saber. 

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